sexta-feira, 16 de julho de 2021

Estudantes criam bengala inteligente para pessoas com deficiência visual

 Ana Prado / uol.com.br

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

Estudante demonstrando funcionalidade de reconhecimento de emoções Imagem: Divulgação

Os professores Miguel Carvalho e Alexandre Louzada, dos cursos de Tecnologia da Informação da Universidade do Grande Rio (Unigranrio), procuram aliar suas aulas a projetos práticos. Como resultado, os alunos estão desenvolvendo soluções para promover a acessibilidade e dar maior autonomia para pessoas com deficiência visual ou com baixa visão.

"A deficiência está muito na relação da pessoa com o ambiente. Assim, acreditamos que deficiente não é a pessoa, mas sim os meios que dificultam o exercício da autonomia", reflete Miguel. "Por trabalharmos com tecnologia, entendemos que é nossa responsabilidade ajudar a criar soluções para diminuir os obstáculos e melhorar a vida dessas pessoas".

O trabalho dos professores começou há dois anos como um projeto de iniciação científica. Com os bons resultados, foi incorporado a uma disciplina oferecida desde os primeiros semestres dos cursos de tecnologia da instituição. A ideia é que os projetos se tornem mais complexos à medida que o aluno avança no curso.

O programa recebeu o nome de TIA - Tecnologia da Informação para Acessibilidade, e seu principal feito é um software que já é capaz de calcular distâncias, reconhecer comandos de voz, diferenciar pessoas e objetos, reconhecer rostos e expressões faciais e fazer pesquisas, entre outras coisas.

Acessórios inteligentes

Uma das aplicações dessa tecnologia é a chamada "bengala sônica", capaz de avisar, por meio de vibrações, sobre a proximidade de obstáculos. "A bengala funciona a partir do mesmo princípio que os morcegos usam para voar. Ela tem um sensor que emite sinais ultrassônicos inaudíveis para humanos e, com base na reflexão desses sons, consegue descobrir se existe um obstáculo à frente e qual a sua distância", explica o aluno Diego de Souza, de 32 anos, do curso de análise e desenvolvimento de sistemas.

Os avisos costumam ser dados quando há um obstáculo a até 40 cm da ponta da bengala, e a intensidade da vibração vai aumentando à medida que a distância se encurta. A 10 cm de uma possível colisão, ela começa a vibrar continuamente, indicando um alerta máximo de proximidade.

A bengala sônica desenvolvida pelos alunos emite avisos antes de colisões Imagem: Divulgação

"Geralmente, o usuário só sabe que existe um obstáculo quando a bengala comum bate em alguma coisa. Esse bloqueio costuma ser uma árvore ou um poste, mas também pode ser a perna de outras pessoas, uma criança ou até um animal que eventualmente pode atacá-lo. O sensor serve para avisar antes que essas colisões aconteçam", completa Diego.

Outro projeto desenvolvido pelos estudantes é um dispositivo que fica alocado dentro de uma pochete e que, a partir de um mapa previamente carregado e um sistema de GPS, permite ao usuário se localizar no ambiente.

Por enquanto, ele já funciona na faculdade. "É possível saber onde está o banheiro, as salas de aula, as salas de cada professor. O sistema vai informando pelo fone de ouvido conforme a pessoa se locomove", explica o professor Miguel. Segundo ele, esse uso pode ser expandido para outros locais: "Queremos usar também para identificar pontos turísticos, por exemplo".

Os alunos estão, ainda, desenvolvendo bonés, óculos e outros acessórios com funcionalidades complementares. "A ideia é que seja possível usar todos juntos de forma integrada no futuro", comenta Alexandre.

O próprio software também vem sendo aperfeiçoado continuamente. Os professores contam que o grupo está trabalhando para que seja possível identificar cores e rostos previamente cadastrados num banco de imagens.

Já é possível, hoje, identificar expressões faciais para entender se o outro está triste, feliz, bravo ou preocupado, por exemplo. "Isso permite uma interação maior com as outras pessoas, pois já pode cumprimentá-las usando essas informações como base", explica Miguel.

Consultoria especial

Muitos alunos testam as soluções com conhecidos e familiares, mas um ajudante em especial está fazendo toda a diferença. Além de motivar os grupos, o estudante Daniel Alexandre da Silva, do curso de Biologia, tem ajudado a testar e aperfeiçoar as invenções.

Aluno mostra pochete com o localizador Imagem: Divulgação

"Desde o início da minha trajetória escolar eu tive muita dificuldade por causa da baixa visão. O que me cativou nesse projeto foi justamente a possibilidade de ajudar a evitar que uma criança na mesma situação precise passar pelas mesmas coisas", diz ele.

Sua participação tem sido comemorada pela turma. "Ele apareceu em nossa sala há cerca de um mês querendo usar as invenções - e realmente está usando tudo o que produzimos - e os projetos avançaram muito rapidamente graças às suas sugestões", conta Miguel.

Foi Daniel que alertou, por exemplo, para o que chamou de "som irritante" emitido pela bengala sônica. O problema foi logo resolvido pelos alunos. Outra dica importante foi para o dispositivo de localização: a ideia original envolvia o uso de uma pequena caixa para guardar o equipamento, mas ele sugeriu usar uma pochete em vez disso. Assim, o acessório pode se integrar de forma mais prática à roupa da pessoa, sem que ela precise ficar segurando.

Acessibilidade real

Para garantir que as criações sejam realmente acessíveis, a equipe se esforça para que os produtos sejam baratos. Muitos envolvem materiais reciclados: eles já montaram bengala com um guarda-chuva, por exemplo.

Os acessórios funcionam com bateria, mas o plano é trocá-las por energia solar em algum momento. A conectividade também deve melhorar quando ganharem conexão 5G - hoje, dependem da internet do celular do usuário.

Para ajudar a divulgar o projeto para toda a comunidade, os professores criaram redes sociais e um podcast chamado Rolezinho de TI - nome que foi sugerido pelos alunos. "A gente ia chamar de Café de TI, mas eles disseram que rolezinho era mais legal", ri Alexandre. A ideia é falar de tecnologia de uma forma leve, como um bate-papo mesmo, para atrair mais interessados ao tema.

Aulas na pandemia

Com a pandemia, os encontros dos alunos tiveram que ser reduzidos. As aulas teóricas são todas online, e as reuniões para colocar a mão na massa são escalonadas de acordo com os times de aprendizagem. Cada grupo tem entre 10 e 12 alunos, e parte de suas atividades em laboratório são transmitidas ao vivo para o resto da turma.

Mesmo com os desafios, os professores contam que os resultados têm sido positivos. "Apesar de tudo, as notas melhoraram e os alunos ficaram mais participativos nas aulas", conta Alexandre.

Ele acredita que um dos fatores que ajudaram a promover esse maior entrosamento foi a humanização que as aulas virtuais trouxeram: "Essa coisa de dar aula e passar o carro do ovo, ou de ouvir criança chorando, vizinho brigando, vai criando um ambiente mais descontraído e de maior proximidade". Miguel completa: "O aprendizado passa por isso de ter momentos alegres, divertidos".

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Ministérios defendem ensino domiciliar para crianças com deficiência

Regulamentação da modalidade tramita na Câmara; críticos vêem possível retrocesso na inclusão

Raphael Preto Pereira para a Folha
SÃO PAULO

Maria Paula Vieira, 28, é fotógrafa e jornalista. Quando estava no ensino médio, precisou estudar de maneira remota depois de ser diagnosticada com uma síndrome neurológica não identificada que fez com que ela perdesse mobilidade ao longo do tempo.

“Começou aos três anos de idade, quando ainda estava na pré-escola, e com o tempo comecei a sentir muita dor. No ensino médio, eu já utilizava apenas a cadeira de rodas", explica. Por conta das dores, e também por falta da acessibilidade da escola, eu passei a estudar em casa”, explica Maria.

Para isso, ela se valeu de um dispositivo legal chamado de regime domiciliar, hoje só permitido a estudantes que comprovem ter algum impedimento prolongado, como uma deficiência ou internação hospitalar que impeça a ida à escola. Nessa modalidade, a escola tem que enviar exercícios para serem feitos em casa pelo aluno e acompanhar seu progresso.

Maria Paula Vieira, jornalista e fotógrafa, que estudou em casa no ensino médio - Zanone Fraissat/Folhapress

Leia a matéria completa em folha.uol.com.br

sexta-feira, 9 de julho de 2021

‘Atypical’, da Netflix, traz retrato inspirador (e real) de jovem autista

A série chega ao final demonstrando, com brio, que o personagem vive e sonha como qualquer indivíduo de sua geração

Por Amanda Capuano para veja.abril.com.br


DESEJO DE CRESCER - Sam (Keir Gilchrist, à esq.) e sua irmã Casey (Brigette Lundy-Paine) na série: desilusões românticas e fixação por pinguins - Netflix

Sair de casa é um momento importante para qualquer jovem, mas ainda mais desafiador para Sam Gardner (Keir Gilchrist). Diagnosticado com a síndrome de Asperger, um grau leve de autismo, ele se aventura para longe das asas da mãe na quarta e última temporada da série Atypical, que acaba de estrear na Netflix. Não é simples: assim como muitos em sua condição, Sam precisa de uma rotina organizada e bola uma sistemática “lista de mudança” para se sentir seguro. Não à toa, ele se estressa quando o colega de apartamento, Zahid, se esquece de pagar a conta de luz e causa um apagão no imóvel. Chateado, Sam se aconchega em uma banheira vazia e liga para a mãe, que dá a entender que ele não está pronto para cortar o cordão umbilical. Determinado a provar que ela está errada, o garoto traça uma jornada inspiradora que mostra aos familiares — e ao espectador — que sua vida, como a dos mais de 70 milhões de autistas em todo o mundo, vai muito além de um diagnóstico.

Capaz de tratar de assuntos sérios com leveza, Atypical segue a trilha de The Good Doctor ao colocar um autista no protagonismo sem resumi-lo à sua condição. São histórias comuns sobre personagens ditos “incomuns”, que sensibilizam com desafios não tão diferentes dos nossos. Enquanto na série médica Shaun Murphy (Freddie Highmore) é um cirurgião brilhante subestimado pelos colegas, Sam é um jovem recém-­saído da adolescência em luta por autonomia — e o inglês Gilchrist, de 28 anos, lhe confere um retrato verossímil e empático. O tema, aliás, recebe tratamento similar na série brasileira As Five: na produção da Globoplay, a pianista Benê (Daphne Bozaski) ilustra que o autismo não impede os jovens de viver situações inerentes à idade, das desilusões românticas ao prospectar do sexo.

No caso de Sam, o desejo de crescer é intenso: ele aprende a dirigir, toma decisões tão difíceis quanto maduras e traça planos para o futuro, como uma ousada expedição à Antártica para conhecer o habitat dos pinguins, sua paixão desde criança. No meio do caminho, descobre que seu maior desafio não é ser quem é, mas convencer a todos de suas potencialidades. Nas quatro temporadas de Atypical, Sam provou sem dúvida seu valor.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Como incluir deficientes visuais nas aulas de Física?

 cartacapital.com.br

DOCENTE PODE USAR MATERIAIS QUE FAÇAM COM QUE O ALUNO PERCEBA AQUELE CONCEITO ATRAVÉS DO TATO

Recursos visuais são comumente utilizados por professores de Física para ajudar os alunos a compreender conceitos. Basta pensar em uma aula de óptica: esquemas mostrando o comportamento da luz ao incidir sobre um espelho ou a refração dos raios de acordo com diferentes tipos de lentes costumam preencher lousas e materiais didáticos.

Tal abordagem, entretanto, exclui alunos com deficiência visual do processo de aprendizagem. É o que alerta Eder Pires de Camargo, autor do livro Saberes Docentes para a Inclusão do Aluno com Deficiência Visual em Aulas de Física, da editora Unesp.

“Chamo a situação de um aluno cego ou com baixa visão em uma aula de Física tradicional de condição de estrangeiro, pois é análoga à de uma pessoa em um país do qual desconhece o idioma. O aluno não tem acesso à informação, não compreende os conceitos ou nem sequer constrói dúvidas”, explica o professor da Unesp de Ilha Solteira (SP), que tem deficiência visual.

Resultado de um pós-doutorado e de um projeto de atividades pela Unesp de Ilha Solteira, a obra elenca estratégias e competências que professores do Ensino Médio devem desenvolver para incluir alunos com deficiência visual: “A maioria dos conceitos não estabelece uma relação direta com a visão”.

Entre as estratégias estão aulas nas quais o professor descreve auditivamente o que ele escreve ou desenha na lousa. Já para os conceitos mais difíceis de explicar pela fala, como é o caso de uma parábola, Camargo sugere o uso da linguagem tátil-auditiva.

“O docente pode usar materiais que façam com que o aluno perceba aquele conceito através do tato, como representações de gráficos em alto-relevo e maquetes. Assim, o professor conduz a mão do aluno pela estrutura enquanto explica auditivamente o conceito.”

Preterido, o tato é uma percepção sensorial importante e pode despertar nos alunos, cegos ou não, novas sensações. “A percepção tátil é analítica: você primeiro analisa as partes para então chegar ao todo. Já a observação pela visão é sintética: capta-se o todo primeiro para depois perceber as particularidades”, explica.

Outro saber importante é conhecer a história visual do aluno, pois a situação de um estudante que nasceu cego não é a mesma daquele que perdeu a visão. “O que nasceu cego não tem experiências empíricas de muitas coisas, como a lua e a estrelas. Por isso, o professor, antes de sair dando uma aula de astronomia, precisa entender qual é a representação que esse aluno tem desses elementos.”

Já para os alunos com baixa visão, é importante identificar até onde ele consegue enxergar. Saber se consegue ver cores, linhas fortes ou imagens ampliadas pode fornecer pistas de recursos para o ensino. O livro está disponível para down-
load gratuito no site da editora.

*Publicado originalmente em Carta na Escola

sexta-feira, 2 de julho de 2021

A diversidade nas salas favorece o aprendizado

 Por Thais Paiva para o cartacapital.com.br

Há quase vinte anos dirigindo o Programa de Formação de Professores da Universidade de Stanford, uma das mais renomadas dos Estados Unidos, e com forte trabalho direcionado à diversidade e equidade na educação, Rachel A. Lotan chama a atenção para o desafio duplo que é ser um aluno imigrante. “Eles precisam aprender o conteúdo curricular e a língua ao mesmo tempo”.

A professora diz, no entanto, que uma solução para essa e outras questões de disparidade na escola é tão simples quanto eficaz: a aprendizagem cooperativa, isto é, trabalhos em grupo. Na medida em que interagem com seus colegas, aprendem de forma horizontal sobre diversas habilidades e assuntos escolares.

Em São Paulo, onde esteve para o lançamento da primeira versão em português do seu livro Planejando o Trabalho em Grupo – Estratégias para Salas de Aula Heterogêneas (Instituto Sidarta), que escreveu em coautoria com Elizabeth Cohen (1932-2005), a professora falou sobre a importância do ensino para a equidade, as razões pelas quais deveríamos buscar salas heterogêneas e como a estratégia dos trabalhos em grupo pode favorecer uma educação mais democrática.

CE: A senhora possui um amplo trabalho sobre o desafio de incluir estudantes com ascendência latina em escolas americanas. Em São Paulo, vemos uma situação semelhante com crianças imigrantes da Bolívia, Haiti e países africanos – dificuldade que é agravada pela barreira da língua. O que pode ser feito para mudar esse quadro?

Rachel Lotan: O meu livro surgiu justamente dessa preocupação: como assegurar que esses alunos – imigrantes ou filhos de imigrantes – que estão aprendendo a língua usada na instrução, no nosso caso, o inglês, tenham oportunidades iguais de aprendizagem? Como esses alunos que se veem mal preparados comparados aos outros alunos que possuem o inglês como língua nativa podem melhorar seu desempenho? Qual o tipo de pedagogia que precisamos adotar para que isso aconteça? As crianças das quais você pergunta têm dois desafios: precisam aprender o conteúdo curricular e a língua ao mesmo tempo. Por isso, em alguns casos, a educação bilíngue pode ser uma resposta, mas nem sempre. Isso porque há classes onde cinco alunos são falantes do espanhol, sete falam suaíli, três falam chinês e todo o resto português. Nesses casos, que língua usar para o bilinguismo? Não funciona.

Então, a resposta está em facilitar a interação e assegurar que as crianças se envolvam e tenham iniciativa. Segundo minha experiência, dar para elas livros e ensiná-las pontualmente palavras como “isso é uma mesa”, “isso é um livro” não é muito útil. No entanto, se você juntá-las e propor que elas façam algo em conjunto, elas vão ter que se comunicar e é nesse momento que a aprendizagem acontece. Por exemplo, precisamos fazer um experimento para descobrir em qual temperatura a água evapora. Eu não falo português, mas estou em um grupo com você que fala e te pergunto “como se diz isso?”, você me diz. Ao fim do dia, já aprendi 20 novas palavras, cheguei a algum lugar.

Carta Educação: O que é uma sala de aula heterogênea e quão importante é ter diversidade nas escolas? Quais são os ganhos para alunos, professores e famílias?

RL: Um dos aspectos da heterogeneidade nós acabamos de falar, a língua. E mesmo quando, por exemplo, nos Estados Unidos, você tem em uma sala apenas falantes de inglês, é sabido que crianças vindas de diferentes contextos sociais também se expressam diferentemente. Crianças da classe média têm uma repertório linguístico diferente das crianças que nasceram em lugares mais pobres, por uma série de razões como acesso à leitura, conversações, etc. Há também diferenças culturais, técnicas, raciais, na forma como as pessoas interagem, entre muitas outras. Então isso é uma classe heterogênea.

Hoje, nos Estados Unidos, o cenário é de segregação, isto é, as classes estão menos heterogêneas etnicamente e em outros aspectos, inclusive, nas escolas públicas por conta da segregação residencial. É lamentável, porque a diversidade deveria ser uma meta, um valor, é um tesouro por uma série de razões. Há muitas pesquisas de relevância que mostram que a diversidade nas salas favorece o aprendizado. Alunos universitários, por exemplo, quando estão cercados por diversidade possuem um desenvolvimento intelectual muito maior. Isso porque quando você interage com pessoas que possuem perspectivas distintas da sua, você precisa explicar o seu ponto de vista e ouvir o do outro. E fazendo isso você aprende! Certamente, a diversidade também nos enriquece do ponto de vista cultural e humanístico, porque nos torna muito mais compreensíveis e tolerantes. Resumindo, nos torna pessoas melhores.

CE: A senhora dirige o Programa de Formação de Professores de Stanford. Quais habilidades apontaria como essenciais para que o professor seja capaz de promover a equidade?

RL: Antes de tudo, os professores precisam ter em mente os interesses de seus alunos, ou seja, lembrar constantemente que o seu trabalho é fazer o melhor que podem pelas crianças. Para que isso aconteça, meu conselho é: abra oportunidades, tente conhecer ao máximo seus alunos, se importe com eles e assegure que você espere o melhor deles. O professor está no comando da classe, então tem que saber orquestrar com competência o que acontece naquele ambiente.

CE: Seu livro fala do trabalho em grupo como uma ferramenta eficiente para construir salas de aula mais equitativas. Por que a senhora acha que esse tipo de trabalho ainda é mal interpretado e visto com suspeita por pais, alunos e até mesmo professores. Como convencê-los de que trabalhar em grupo é uma boa estratégia de ensino e aprendizagem?

RL: Acho que a maior parte da reclamações relacionadas ao trabalho em grupo vem de uma preocupação legítima que é quando a criança chega em casa e diz “odeio trabalho em grupo, fiz tudo sozinho, ninguém mais fez nada e todos tiraram a mesma nota”. Na outra ponta, temos a reclamação dos pais que dizem “você é o professor, é seu trabalho ensinar os alunos, então por que pede para meu filho ensinar os colegas? O que está fazendo em sala, tomando café?”. De fato, trabalhos em grupo mal feitos são um desastre.

Então, se o professor optar por esse tipo de metodologia e todos os benefícios que ela traz para alunos e professores, precisa saber fazer direito. Isto é, precisa garantir que todo mundo participe igualmente, que os alunos tenham o tipo adequado de tarefa para desempenhar em grupo e que saibam como fazê-lo, porque ninguém nasce sabendo. Outro ponto importante é como avaliar. Não dê nota por grupo sem saber exatamente como o trabalho foi distribuído. Na verdade, eu iria além e diria não dê nota. O professor pode dar um retorno, um feedback para o grupo e seu processo, mas não uma nota. Outro fator importante é: como você reconhece que todo mundo ali tem algo para contribuir? Acho que é aí que nós, professores, pecamos. Muitas vezes só olhamos com atenção para as crianças que sabem ler, escrever e fazer tudo certo e rapidamente, mas não deveria ser assim.

CE: Trabalhar em grupo incentiva uma aprendizagem mais democráticas?

RL: Sim. Ser democrático significa, por princípio, ouvir mais atentamente aquilo que os outros têm a dizer e, na outra parte, que os outros também te escutem com respeito. Praticar a democracia em sala é saber que todos têm um objetivo comum, que é o bem-estar da sociedade na qual você está inserido. E esse exercício acontece, principalmente, em grupos. Não acontece entre você e o computador, mas entre você e outras pessoas. Logo, trabalhar em grupo é literalmente começar a democracia desde o jardim de infância.