quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Acessibilidade na escola: entenda como a tecnologia pode auxiliar

por Darcy Furquim para o escolasdisruptivas.com.br

De acordo com o último Censo demográfico do IBGE, 7,5% da população que tem deficiência está entre 0 e 14 anos, algo que só reforça a importância dos gestores implementarem a acessibilidade na escola de fato.

Independentemente se a deficiência é visual, auditiva, física, mental ou múltipla, você precisa ficar de olho no que tem de mais moderno para amparar essas crianças e adolescentes e fazer com que eles se sintam parte do grupo. Uma boa solução é investir em inovações, pois ajudam a contornar os desafios diários, complementam as práticas tradicionais e melhoram as formas de comunicação.

Neste post, trouxemos alguns dos principais recursos tecnológicos que toda instituição de ensino deveria ter. Acompanhe a leitura e confira!

Livros em áudio

A utilização de livros infantis e didáticos é um recurso pedagógico recorrente em salas de aula, pois permite soltar a imaginação, aprender lições do cotidiano, desenvolver o senso de contar histórias, entre outros aspectos. No entanto, pensando em um ensino inclusivo, os livros precisam estar de acordo com a integração de alunos com algum tipo de deficiência.

A melhor alternativa nesses casos, principalmente para crianças e adolescentes que apresentam deficiência visual, é o audiobook, tendo em vista a possibilidade de acompanhar as descrições das imagens e enredos inteiros por meio de áudios. Ter essas histórias gravadas faz com que os alunos se sintam mais engajados e possam acompanhar melhor a dinâmica das aulas.

Aplicativos e softwares

O ensino do século XXI está recheado de opções bem-interessantes para promover a acessibilidade na escola, porém, vale introduzir aplicativos e softwares especializados para facilitar o dia a dia dos jovens com deficiência. Existem programas, por exemplo, capazes de sintetizar a voz, tal como o Liane TTS, e, assim, estabelecer uma comunicação mais ágil para que o conteúdo da aula seja aproveitável.

Já outros softwares, como o DosVox, Virtual Vision e Jaws, fazem com que deficientes visuais possam ter um nível aceitável de independência e consigam acompanhar o ritmo dos demais alunos. Com esses programas, é possível desempenhar inúmeras tarefas, reconhecer textos do pacote Office e traduzir linguagens também.

No caso de alunos com síndrome de Down, o software Jeripe é uma ótima opção, tendo em vista que funciona como um jogo para estimular o raciocínio, construir noções de lógica e contribuir com a inclusão. Para os jovens com dificuldades auditivas, existe o Dicionário da Língua Brasileira de Sinais, um programa com recursos de vídeo em Libras para vários vocábulos.

Equipamentos adaptáveis

Evidente que a acessibilidade na escola passa também pela adaptação de equipamentos, a fim de deixar a tecnologia cada vez mais inclusiva e fazer com que os estudantes possam aprender dentro do próprio ritmo, mas sem se perder dos demais. Para tanto, vale utilizar teclados alternativos que otimizem as tarefas dos alunos, algo que se torna ideal para pessoas com certos problemas em digitar.

Quem tem deficiência física ou mobilidade reduzida deve ter por perto aparelhos ou adaptações para tornar a experiência de aprendizagem nos computadores mais simples. Para trazer mais interatividade, pode-se colocar uma mesa digital na sala, pois ela tem característica multidisciplinar com jogos e aplicativos acionados pelo toque.

Em relação aos periféricos, existem mouses com adaptadores para que, dependendo da deficiência física, seja possível executar tarefas no computador com tranquilidade. Caso seja preferível ter notebooks ou dispositivos móveis em sala, pode-se ajustar as configurações para que os recursos de acessibilidade, presentes no sistema operacional, possam conduzir os alunos e ajudá-los a ter um desempenho melhor.

Impressoras 3D

Se na construção civil as impressoras 3D já estão causando um estardalhaço na questão de praticidade, imagina a disrupção na educação que podem proporcionar, não é mesmo? Com esse recurso tecnológico, é possível imprimir livros com relevo e fazer do ensino em braile algo muito mais comum em sala, permitindo que os alunos cegos possam entender o que se passa sem quaisquer problemas.

Por meio de impressoras com essa finalidade, você pode imprimir mapas, o que tornaria as aulas de Geografia ainda mais interessantes para os alunos. É possível transformar imagens em objetos tridimensionais e fazer com que a assimilação de conteúdos, que seriam exclusivamente visuais, possa ganhar uma roupagem acessível.

Recursos de locomoção

Qualquer gestão escolar que se preze precisa levar em consideração não apenas os recursos tecnológicos dentro da sala de aula, mas todo o entorno. Pensar em acessibilidade na escola é conferir meios pelos quais os alunos possam se locomover até a sala, sem problema nenhum, e consigam ter uma vida acessível como a dos outros.

Para que isso ocorra, a estrutura da escola precisa estar adaptada para inúmeros fatores que possam acontecer, respeitando cada deficiência evidentemente. Por isso, é de bom tom que as instalações da escola tenham elevadores sonoros, plataformas de elevação, piso tátil muito bem sinalizado, entre outros aspectos que influenciem a locomoção.

Metodologias educativas

Por fim, mas tão importante quanto os demais itens citados, torna-se enriquecedor para o aprendizado de crianças e adolescentes a utilização de estratégias pedagógicas que promovam a inclusão de todos na sala. Para se ter uma ideia da relevância disso, existe um projeto da Microsoft que consiste em disseminar a linguagem de programação entre deficientes visuais.

Basicamente, o recurso mostra uma nova linguagem de programa tátil em que utiliza blocos modulares com cores, tamanhos e formatos distintos que dispõem de comandos específicos. A intenção é trazer para o ambiente escolar uma experiência de ensino que possa estimular a lógica, a criatividade e, naturalmente, o senso crítico para criar programas de qualidade.

Além disso, existe também a metodologia STEM, que traz para a escola algumas técnicas responsáveis por englobar aspectos voltados para a Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, pensando no desenvolvimento dos alunos nos princípios básicos das disciplinas. Entre os vários benefícios, podemos observar mais dinamismo nas tarefas, entendimento apurado e bastante trabalho em equipe.

Para finalizarmos, entenda que os gestores precisam se atualizar constantemente, visando proporcionar não apenas acessibilidade na escola, mas adaptação às tendências de mercado e, por consequência, a garantia da permanência dos alunos em sala de aula.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Filhos com autismo podem ter herdado genes modificados de pais sem transtorno

Os especialistas deram destaque à presença de cinco espécies que já haviam sido relacionadas à saúde neural em investigações anteriores

correiobraziliense.com.br

Filhos com autismo podem ter herdado genes modificados de pais sem o transtorno indica estudo americano - (crédito: Enrique de la Osa/AFP - 15/7/13)

Uma microbiota menos diversa pode estar relacionada ao transtorno do espectro do autismo (TEA), segundo cientistas chineses. Eles observaram a relação entre o TEA e a composição de bactérias presentes no intestino de mais de 100 crianças e divulgaram os resultados do estudo na revista especializada Gut. Também ontem, no periódico Nature Genetics, um grupo dos Estados Unidos detalhou alterações genéticas que podem estar ligadas ao transtorno.

A expectativa é de que os dois trabalhos contribuam para o desenvolvimento de diagnósticos mais apurados, considerando as limitações atuais. Hoje, a identificação do transtorno depende quase exclusivamente de avaliação médica. “Queríamos ver se crianças de 3 a 6 anos com esse problema de saúde poderiam abrigar um microbioma que se diferenciasse significativamente daquelas com desenvolvimento típico. Isso pode nos ajudar a encontrar a enfermidade e já entrar com um tratamento precoce”, relatam os autores do primeiro estudo, liderado por Siew Ng, da Universidade de Hong Kong.

Para isso, foram selecionadas 128 crianças, sendo 64 diagnosticadas com TEA. Os pesquisadores avaliaram a quantidade e a variedade das bactérias presentes no intestino dos voluntários, por meio de análise de amostras de fezes. Constatou-se que a quantidade de micro-organismos presentes no material colhido de crianças sem autismo era maior e mais variada. Os especialistas deram destaque à presença de cinco espécies que já haviam sido relacionadas à saúde neural em investigações anteriores.

“Nosso estudo mostra, pela primeira vez, que a microbiota intestinal de crianças com autismo está atrasada em relação à de seus pares da mesma idade. Além disso, a dieta não está relacionada a essa diferença”, relatam no artigo. “Terapêuticas futuras visando a reconstituição da microbiota intestinal podem ser pensadas com base nesses dados, e exames que avaliem esse fator mais minuciosamente podem contribuir para que o tratamento seja feito mais cedo”, indicam.

Genética

No segundo estudo, cientistas da Universidade de Washington avaliaram dados genéticos de 10.905 pessoas com autismo e identificaram uma classe rara de variantes genéticas que são passadas por pais sem o transtorno. “Nos concentramos em mutações hereditárias raras, que são pouco estudadas no TEA, e encontramos mais de uma dezena delas”, afirma, em comunicado, a pesquisadora Amy B. Wilfert.
As mutações genéticas identificadas também diferem de outras alterações do DNA relacionadas ao transtorno. “Curiosamente, a grande maioria dessas variantes (95%) não é encontrada em genes já conhecidos como genes do autismo, indicando que há muito mais a ser aprendido sobre a genética do TEA”, complementa a cientista. Os especialistas destacam que dados de um número maior de pessoas precisa ser avaliado para dar mais validade ao estudo.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Aos 14 anos, amigas criam app para criança cega não ficar sem os livros

Adolescentes do ensino fundamental de MS elaboraram projeto que agora é finalista em etapa nacional

Por Bárbara Cavalcanti para o campograndenews.com.br

Aplicativo "Imaginarte" traz audiobooks narrados especial para crianças com deficiência visual. (Foto: Paulo Francis)

As amigas e estudantes do ensino fundamental Maria Júlia Ota Marinho, Danielle Ayumi Sasaki e Isabela Hikaru Nakano, de 14 anos, tiveram a ideia de um aplicativo que tem audiobooks, que são livros com narração, especialmente para trazer uma forma de entretenimento diferente para crianças com deficiência visual.

O projeto agora é representante de Mato Grosso do Sul no concurso nacional Start SFB, uma competição nacional de empreendedorismo para estudantes do ensino fundamental e médio organizada pelo Sistema Farias Brito, do estado do Ceará. Agora na final, elas precisam de votos para ganhar e então transformar o projeto em um negócio real.

De acordo com Maria Júlia, elas estudaram a ideia e inclusive entrevistaram Rubenita Santiago Siqueira, mãe de Lucas Siqueira de 11 anos, que tem autismo e é cego e que já apareceu aqui no Lado B.

“Como a gente precisava entender nosso problema e realmente achar uma solução, a gente procurou pais de crianças com deficiência pra que eu pudesse entrar em contato. Quando eu vi a entrevista do Lucas, entrei em contato com a Rubenita”, explica Maria Júlia.

As três meninas então elaboraram todo o projeto intitulado “Imaginarte”, que tem o objetivo de ter narradores reais contando histórias clássicas de contos de fadas, tudo isso reunido em um só lugar, com um aplicativo totalmente adaptado para o uso de quem é deficiente.

As meninas apresentaram o projeto ao campeonato por meio de vídeo. Elas pensaram em todos os detalhes: desde o conteúdo, à interface, à linhas de financiamento e parceiros para estruturar o projeto e transformá-lo em realidade. Agora, são as únicas representantes de Mato Grosso do Sul entre os finalistas e dependem de votos para ganhar.

“Pra mim e pras minhas amigas, essa questão da leitura e da arte em geral, é muito forte, porque a gente cresceu lendo contos de fadas e coisas assim, mais fantasiosas, então a gente queria que todos pudessem ter esse tipo de experiência”, anda declara Maria Júlia.

Para votar, basta preencher o formulário clicando aqui. Veja a apresentação do projeto abaixo:

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Pedagoga fala sobre alfabetização de surdos em escolas de Cosmópolis

Dia Nacional da Educação de Surdos: "Eles aprendem sim, tem condições para isso, para se alfabetizar da maneira deles e isso tem que ser respeitado", defende a pedagoga Carmela Ferreira

Letícia Leme para o cosmopolense.com.br

No dia 23 de abril comemora-se em todo o país o Dia da Educação de Surdos, bem como o Dia do Deficiente Auditivo. A data foi pensada com o intuito de direcionar a população a refletir sobre a importância do assunto, assim como também prover meios de inclusão para os portadores da deficiência. Buscando então, uma melhora na qualidade de vida dessas pessoas.

Carmela Ferreira é formada em pedagogia em formação de professores para a educação especial, e trabalha em uma das escolas municipais de Cosmópolis onde, atualmente, atende duas crianças surdas. Carmela atua como intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) e auxilia no aprendizado desses alunos. “Eu fico no período da sete da manhã até as onze e quarenta com esses alunos na sala de aula, interpretando a aula, auxiliando nas atividades dentro do ambiente escolar mesmo. Eles frequentam toda a rotina da escola, tem aula de educação física, aula de inglês, aulas de música. Eles frequentam tudo e estou sempre acompanhando”, explica.

Apesar das escolas para surdos já existirem no Brasil desde o governo de Dom Pedro II (1857), a língua de sinais só foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no país em 2002, 145 anos depois. No entanto, a inserção de Libras, como disciplina curricular obrigatória nos cursos de professores para o exercício dos magistérios médio e superior, só aconteceu em 2005.

Que a educação para surdos é desafiadora não é segredo para ninguém. Inclusive, o assunto ganhou destaque em 2017 quando virou tema da redação do Enem, onde os candidatos precisaram argumentar sobre os desafios para inclusão educacional de surdos no Brasil. O fato de ser pouco trabalhado nas escolas e mídias, fez com que grande parte dos alunos tivessem dificuldades para dissertar. O que chama ainda mais atenção para a questão que a data (23/04) visa trabalhar: inclusão.

A fim de explicar como é desenvolvida a educação para surdos nas escolas de Cosmópolis, Carmela cedeu uma entrevista ao Portal Cosmopolense, onde expõe os métodos utilizados e principais desafios enfrentados na sala de aula. Confira:

Carmela durante as aulas

Como é desenvolvido seu trabalho nas escolas? Os alunos utilizam a língua de sinais para se comunicar, então eu auxilio em cima da língua de sinais, ajudo a professora na adaptação de currículo, de algum material, de atividade que for necessário e assim aplicamos. A aula é normal, a professora está explicando, eu estou perto deles acompanhando os alunos, só que passando em libras. A professora vai fazer a leitura da história com a turma, enquanto isso eu estou fazendo a interpretação em libras e depois ela vai mostrando para toda a turma o livro e nessa parte eles também participam. Atividade de matemática, ela vai ensinando a sequencia numérica de zero a dez. Conforme ela vai explicando eu vou junto fazendo em libras. Depois quando ela dá a folhinha da atividade, eu vou perto auxiliando. A professora também da suporte, mas quando é algum sinal que a criança não entende, neste caso estou junto para auxilia-la. Tudo funciona junto, tudo ao mesmo tempo (…) Acaba sendo uma atenção especial porque eu estou com eles, diretamente interpretando. Enquanto os outros estão se atentando a professora eles estão se atentando a mim e a professora, é um trabalho bem conjunto.

Esses alunos precisam ter um conhecimento prévio de Libras ou eles aprendem na escola? Geralmente as crianças aprendem nas escolas mesmo, não é uma regra ter um conhecimento prévio. Só que o quanto antes a criança for inserida para aprender a língua de sinais, mais rápido vai ser o desenvolvimento dela. Geralmente as famílias descobrem a surdez com uns três anos, daí vai a questão da aceitação, tanto é que até a família aceitar e ir em busca de ajuda, a criança já está na fase de falar, então aí vai atrasando um pouco mais essa questão do aprendizado da língua de sinais, porque depois que a criança entra na escola geralmente que ela tem esse primeiro contato.

Enquanto professora, quais os principais desafios na educação para surdos? A introdução do bilinguismo, que é a Libras ser a primeira língua do surdo, a gente sabe que elas tem que ser ensinada, só que nas escolas se cobra muito a oralidade, se cobra muito a consciência fonológica. Então a criança (ouvinte) aprende  as famílias silábicas – o  BA-BE-BI-BO-BU – ouvindo, e o surdo não. A Libra é uma língua visual, então o principal desafio é esse, a consciência de que o surdo precisa ter acesso a libras como primeira língua dele, por mais que isto esteja sendo trabalhado, estamos caminhando bem devagar, porque infelizmente a nossa língua é oral. Os surdos estão conquistando espaço, mas o principal desafio que eu vejo hoje é esse, entender essa necessidade de se ensinar primeiramente a Libra e o português como língua secundária, onde o aluno aprende a palavra de forma escrita.

O trabalho que você desenvolve com essas crianças tem um bom retorno? Digo, pedagogicamente. O retorno não é tão rápido, porque agora que eles estão iniciando a alfabetização, eles aprendem a libra como primeira língua deles. Então o português a gente ensina da forma escrita, dessa forma eles precisam aprender que tudo tem um nome, que o sinal que a gente usa na língua de sinais, por exemplo para bola, tem um nome. Então ele precisa compreender, precisa de uma certa forma decorar que bola se escreve B-O-L-A. O que não é tão simples, porque a gente aprende ouvindo, por sílabas, pelas letras, a gente sabe que as sílabas de bola é o B com O, que forma o BO, agora para eles não é tão prático assim, então por isso que é um processo um pouco mais demorado, eles aprendem, dão retorno sim, vão evoluindo, mas as vezes não da forma que a gente espera. É muito de criança para criança. As vezes o ouvinte demora até mais que um aluno surdo, depende muito, do estímulo que tem em casa, dos atendimentos que faz por fora, se tem acompanhamento de fonoaudióloga, se tem acompanhamento de línguas de sinais.

Você mencionou sobre o papel da família no processo de aprendizado. Como a família pode atuar de forma que venha contribuir com esse processo? Aliás, qual é o papel da família? A família precisa ser parceira, tem que haver uma parceria entre escola e família sempre. A família precisa aprender Libras para se comunicar com a criança. Os pais precisam levar ao atendimento com a fonoaudióloga, psicóloga. Um desses alunos que eu atendo frequenta o Sepri na Unicamp, que onde é desenvolvida a língua de sinais, eles recebem atendimento psicológico e fonoaudiológico, juntamente com a pedagogia. Lá a família também aprende Libras e também recebe o acompanhamento psicológico. Enquanto as crianças estão em um outro atendimento com a pedagoga e com o instrutor surdo, eles se devolvem bem mais, o processo é bem mais rápido. A família aceitando, a família buscando e trabalhando junto com a escola, ajuda e muito. Então a família precisa aprender a se comunicar com esse filho, com essa criança. Porque a maioria das crianças surdas, são filhas de pais ouvintes, então eles precisam aprender a se comunicar, senão a criança vai ficar sempre isolada e vai ter essa comunicação só na escola? A parceria da  família é fundamental nesse processo.

E o que você considera como “tabu”, no que diz respeito a educação para surdos? Algo que você enquanto pedagoga diria: Não é bem assim. Acho que o principal tabu é em questão do aprendizado mesmo, eles tem uma língua própria, só que ela [língua] tem as características dela. Então eles aprendem sim, tem condições para isso, para se alfabetizar da maneira deles. Eu acho que isso que tem que ser respeitado. Por exemplo, a produção de texto deles nunca vai ser igual a nossa, mas é uma particularidade deles e isso tem que ser respeitado, e a gente as vezes quer que seja da nossa forma e não é assim. Eles têm muito potencial, profissionalmente falando, eu tive alguns alunos que hoje estão aí trabalhando tem rendimento, eles ‘se viram’, tem o grupo deles, saem ao cinema, dentre outros. Tudo dentro das limitações deles, assim como temos as nossas.

E como avalia a educação para surdos no Brasil? Eu acredito que a educação para surdos no Brasil está avançando cada vez mais, acho que eles [surdos] estão ganhando mais espaço, eles estão ganhando mais direito e eu acho que só tende a avançar. A questão da regularização dos intérpretes nos espaços públicos, nas escolas, nas igrejas, eu acho que está avançando cada vez mais, está ganhando força. Ainda falta muito a conseguir, acho que se tem muito ainda a se batalhar, mas há um avanço.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Educar surdos é desafiador e possível

Por Carol Scorce para cartacapital.com.br

No domingo 5, milhares de alunos fizeram a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e foram surpreendidos com o tema da redação, que este ano contemplou a discussão sobre a inclusão dos surdos na educação. A questão gerou polêmica entre estudantes e professores, e reverberou na redes. O principal ponto de contestação é o fato da inclusão não ser debatida, dentro e fora das salas de aula, e que apenas os textos fornecidos na prova eram insuficientes para a argumentação dos concorrentes.

A prova já foi, mas a pergunta fica: quais são os desafios para inclusão dos surdos no sistema educacional brasileiro? Segundo a educadora Fernanda Cortez, diretora da Escola de Educação Bilíngue para Surdos (Derdic), da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), é primordial compreender que a Língua Brasileira dos Sinais, a Libras, não é uma mera tradução da língua portuguesa por meio de gestos, mas se configura como uma língua própria, com características particulares.

“O português é a segunda língua do surdo, e nem todos têm o mesmo nível de fluência. É como a segunda língua para nós. Temos níveis de domínio diferentes do alemão, do inglês, do francês. Os surdos têm de aprender português e bem, porque é dessa maneira que vão se inserir, arrumar empregos, viver em sociedade. Mas não é a língua natural deles”, explica.

É nesse contexto que entendemos porque os surdos têm direito a intérpretes para auxiliar na compreensão da prova do Enem, por exemplo. “Muitos surdos têm seus direitos fundamentais feridos desde o início da experiência escolar. Diagnósticos atrasados e crianças que passam anos sem a atenção necessária, além de escolas e professores sem recursos e preparo para educar. Pensando que temos então duas línguas totalmente distintas a inclusão também se dá no nível cultural”, afirma a educadora, lembrando que este ano completa 15 anos da Libras reconhecida como segunda língua oficial no Brasil.

Outro ponto importante é a invisibilidade dos surdos. Até que a pessoa que não ouve passe a se comunicar em sinais, ninguém a nota. Elas se constituem como uma minoria, e para especialistas em acessibilidade, como uma minoria dentro de outra. “O uso de tecnologias é importante, mas a formação dos professores para uma pedagogia cuidadosa com os surdos é o fundamental. Os surdos podem fazer a leitura facial, mas eles têm de se comunicar plenamente em português e em libras. Só assim eles serão agentes da própria comunicação. Poderão trocar, que é a base do aprendizado.”

De perto e de dentro

Quem também nos ajuda a entender essa realidade ainda tão hermética para os não surdos, é a jovem professora Pâmela Mattos. Pâmela é única mestra surda do Pará, leciona na educação superior, e fez sucesso esta semana depois de publicar um vídeo criticando o comentário de uma professora que lhe deu aulas. Na ocasião a ex-professora de Pâmela classificou o tema da redação do Enem com “um golpe.”

“No ensino infantil eu era muito mimada pelos professores. Todos me achavam fofa, bonitinha, faziam carinhos em mim. Alguns faziam atividades fora da sala de aula comigo, me incentivavam. No ensino fundamental isso mudou; os professores não falavam libras e não se importavam. Passavam boa parte da matéria apenas oralmente, e se movimentavam a aula toda; eu não conseguia nem fazer a leitura labial. Insistia muito para o meus pais me trocarem de escola, e eles não entendiam o meu desejo, porque aparentemente eu era muito querida na escola pelo corpo docente, mas eles não incluíam. Os meus colegas de sala não se importavam. Nem tocavam em mim.”

As coisas só começaram a melhorar quando Pâmela entrou na escola pública, a partir da figura da orientadora educacional. “Nem todos os professores sabiam libras, mas eles eram orientados quanto ao meu processo, e isso já me incluía. Foi na escola pública que conheci meu primeiro colega surdo. Eram amigos solidários e bagunceiros. Me senti acolhida e respeitada.”

Pâmela ensina ainda que os surdos são serem capazes de exercer qualquer atividade que desejarem, e têm por direito o acesso a todos os mecanismos que potencializem suas habilidades. Educar surdos não é golpe, discutir o assunto não é golpe. Educar surdos é desafiador e possível.