quarta-feira, 15 de julho de 2020

2 em cada 10 paulistanos convivem com pessoas com deficiência

Levantamento da Rede Nossa São Paulo mostra a percepção sobre da qualidade de vida da população com deficiência na capital paulista

Por Eduardo Silva para o 32xsp.org.br

Em São Paulo, apenas 2 em cada 10 moradores declaram possuir, conviver ou se relacionar com alguém com algum tipo de deficiência, segundo resultados da pesquisa “Viver em São Paulo: Pessoa com Deficiência”, lançada nesta quarta-feira (11) pela Rede Nossa São Paulo e o Ibope Inteligência.

De acordo com o censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), quase três milhões de paulistanos declaram ter algum tipo de deficiência.

Desse total, 682,5 mil apresentam grau mais severo de deficiência visual (não enxerga ou tem grande dificuldade para tal), auditiva, motora ou intelectual.

No dia a dia, a convivência ou a percepção da presença de pessoas com alguma necessidade especial é maior dentro do transporte público.

7 em cada 10 paulistanos percebem “sempre” ou “às vezes” pessoas com deficiência utilizando ônibus, trens ou o Metrô.

Na sequência são citados os “hospitais e postos de saúde” (com 28% das menções) e “shoppings” (com 18%).

No geral, o ranking é idêntico ao resultado da pesquisa realizada no ano passado, quando estes também foram os locais mais citados pelos entrevistados do levantamento da Rede Nossa São Paulo.

Na época, o 32xSP fez uma matéria abordando que as pessoas com alguma necessidade especial geralmente não são vistas em ambientes de cultura e lazer.

Para as fontes consultadas, a falta de acessibilidade na capital paulista era um dos principais empecilhos.

Na pesquisa deste ano, a acessibilidade de igrejas e das estações da CPTM e do Metrô apresenta a melhor avaliação positiva (embora não atinja nem 50% das respostas). Já a acessibilidade de ruas e calçadas segue como a pior avaliada.

Clique aqui para conferir a versão completa da pesquisa “Viver em São Paulo: Pessoa com Deficiência”!

Estatuto da Criança e do Adolescente ganhará versão em Libras

Iniciativa é fruto de parceria com OEI



Crianças e adolescentes também podem sofrer com reumatismo - UOL ...

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos abriu uma licitação para produzir o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em linguagem direcionada para pessoas surdas ou com deficiência auditiva. A iniciativa é fruto de uma parceria do ministério com a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI).

O material será voltado a pessoas surdas ou com deficiência auditiva que dominem a língua brasileira de sinais (Libras), independentemente do conhecimento da língua portuguesa. Para que isso ocorra, o processo de tradução do ECA envolverá a interpretação do texto na língua-fonte (português) e sua reformulação na língua-alvo (Libras), de forma a torná-lo compreensível. Conheça a íntegra do edital.

Estatuto

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece direitos e garantias especiais às crianças e aos adolescentes. Sancionado em 13 de julho de 1990, o estatuto prevê a ampla divulgação dos direitos da criança e do adolescente pelo poder público, de forma periódica, nos meios de comunicação social. 

A legislação também estabelece que as mensagens devem ser veiculadas em linguagem clara, compreensível e adequada a crianças e adolescentes. Segundo o ministério, em comemoração aos 30 anos do ECA, a norma será traduzida para atender às necessidades específicas das pessoas surdas ou com deficiência auditiva.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Os desafios dos alunos com deficiência para acompanhar as aulas remotas durante a pandemia

Por William Bilches para o gazetadopovo.com.br


Imagem ilustrativa | Foto: BigStock

"Durante a pandemia do novo coronavírus, as aulas remotas se tornaram um desafio ainda maior para estudantes com algum tipo de deficiência. Enquanto pais e professores tentam preencher a lacuna deixada pelo distanciamento social obrigatório, os alunos com Transtorno do Espectro do Autismo, síndrome de Down, deficiência visual, auditiva, intelectual ou outras condições especiais tentam se adaptar ao novo modelo de ensino online. Mesmo com esses apoios, as dificuldades enfrentadas são grandes.

Não são todos que estão conseguindo, por exemplo, cumprir com as atividades propostas pelas instituições, sejam públicas ou privadas, neste momento de isolamento. Um dos motivos é que não existem as adaptações necessárias nos materiais às deficiências de cada um. Além disso, o acesso aos recursos exigidos para a aplicação das aulas online são limitados em boa parte das famílias ou existem de maneira precária.

Com esse cenário, alguns pais assumiram os papeis de professores, donos de casa e ainda continuam exercendo suas profissões. Uma rotina que exigiu readaptações dentro de casa e até mesmo tirou o sono de alguns. É o caso da advogada Hanna Baptista. A curitibana tem uma filha autista, de 9 anos, que estuda em uma escola regular e está atravessando essa fase com alguns problemas. Gabriela precisou de readaptações nas metodologias do colégio para aprender de forma eficaz.

Apesar do privilégio com o engajamento da mãe, ela ainda precisou de reforços. "As aulas online não são pensadas para crianças com autismo. Então, a gente tem uma dupla adaptação. A primeira seria para a criança estar disponível cognitivamente para esse formato de aula. A segunda seria o próprio conteúdo. Muitas vezes, o recurso da aula online dificulta o aprendizado. Eu tive que explicar na maioria das vezes a matéria de outra forma diretamente para ela, porque a aula online acabou confundindo a compreensão dela", explicou Hanna.

"Estou dormindo apenas três horas e meia ao dia para readaptar os conteúdos pedagógicos que a escola entrega para minhas filhas, dividir as tarefas domésticas com meu marido e ainda continuar trabalhando ao menos 10 horas diariamente", conta a advogada.

Para ela, a pandemia trouxe alguns ensinamentos, mas várias dificuldades para a maioria das famílias. "A gente já encontra dificuldades na inclusão sem a pandemia. A maioria das crianças não tinha aulas online como fonte de estudo e isso requer uma adaptação e inserção delas no mundo de aprendizagem digital – o que já é difícil para crianças neurotípicas. As escolas não fizeram isso e ainda exigiram a utilização do computador como material de estudo. Seria necessário um projeto de educação de inclusão das crianças com autismo nesse sentido", sugere.

Outros pais, porém, não conseguem desempenhar essas multitarefas atribuídas a eles nesse período e buscam apoio no desenvolvimento do trabalho árduo de ensinar. A assistente social Roberta Lazarotto comenta que o filho dela, que também tem autismo, não conseguiu acompanhar as aulas pela televisão, tablet ou celular, porque elas não foram adaptadas para ele.

Segundo ela, foi necessário pedir apoio da psicopedagoga dele durante as terapias para preenchimento das tarefas. "Estou trabalhando carga dobrada em um dia e no outro fico com ele", observa. Para a assistente social, não houve atenção para criança com deficiência por parte da rede municipal de ensino. "Até hoje, apenas uma vez a escola disponibilizou conteúdo impresso às famílias, mas veio sem adaptação. É um conteúdo distribuído a todos os alunos", diz.

Outras famílias também encontraram vários problemas e nenhum apoio nesse período. Mãe dos gêmeos Caio e Enzo, ambos com autismo, a fisioterapeuta Karlen Pagel precisou adaptar os materiais sozinha em casa. "A escola não adaptou nenhum conteúdo ou estratégia para eles nesse momento", lamenta. "Na semana passada, entrei em contato com as professoras solicitando 30 minutos por dia de aulas online individualizadas e ainda aguardo a resposta", diz ela.

A rotina dos gêmeos se baseia em um hora de aula online diariamente, após o almoço, terapias e outras atividades. "Nenhum dos dois se adaptou às aulas desenvolvidas pela escola, porque são aulas rápidas e os alunos conversam demais na plataforma. Dessa maneira, eles não conseguem acompanhar", explica Karlen.

Mais um casal que mudou radicalmente a rotina para atender as dificuldades dos filhos com a suspensão das aulas presenciais é o formado por Carolina e Fabio Kreusch. Os dois têm quatro filhos e um deles nasceu com paralisia cerebral e epilepsia. No primeiro ano do Ensino Fundamental, o aluno tenta conciliar o ensino em casa, as atividades escritas enviadas pela escola e as terapias de reabilitação neurológica.

De acordo com Carolina, o tempo para tantas demandas importantes não é o suficiente, mas a pandemia trouxe a oportunidade dos pais conhecerem de perto com mais detalhes cada conteúdo que a escola propõe. Idealizadores do projeto Mater & Pater Plus, os dois afirmam que as aulas online não são o veículo mais apropriado para ensinar uma criança com deficiência.

"Entendo que a pandemia nos pegou de surpresa e que as escolas estão fazendo o seu melhor, mas no nosso caso optamos por não colocar nosso filho na frente da TV por tanto tempo. Ele faz acompanhamento na terapia de estimulação visual e muitas horas na frente da tela lhe traria prejuízos nesta área", destaca."

Impacto do isolamento

De acordo com o presidente da Federação das Associações de Síndrome de Down, Antônio Carlos Sestaro, o isolamento imposto pela pandemia retirou o convívio desses estudantes que precisam disso para seu desenvolvimento. "Esse foi o primeiro impacto, o impacto do convívio social. Em relação às práticas pedagógicas, muita famílias não estão preparadas pedagogicamente para oferecer apoio aos seus filhos. Às vezes, os pais não têm tempo para ajudar nas atividades escolares. Muitos estão se desdobrando para atender", afirma.

Volta às aulas

No Paraná, por exemplo, a previsão inicial - dependendo da situação da pandemia - é de que a retomada das aulas poderia ocorrer em agosto. Em outros estados, conforme decretos estaduais, existe a possibilidade de as aulas retornarem em julho.

Com isso, as famílias terão que se preparar para esse período, já que a voltas às aulas presenciais vai exigir atenção dobrada. Os equipamentos de proteção individual serão necessários, como medida de segurança e de saúde. Enquanto isso não acontece, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) está preparando um parecer para auxiliar famílias e escolas para essa nova fase.

Notas

De acordo com a secretaria municipal de Educação de Curitiba, videoaulas com adaptações metodológicas estão sendo realizadas aos sábados, para estudantes em inclusão, e também com tradução em Libras.

Segundo a Secretaria Estadual de Educação do Paraná (Seed), o Departamento de Educação Especial (DEE) está fazendo o acompanhamento semanal dos alunos que necessitam de alguma adaptação. Os pais dos estudantes podem entrar em contato com os diversos canais da Seed, via Núcleos Regionais, ou mesmo diretamente com as escolas em que os filhos estejam matriculados. O órgão ainda informou que o Google Classeroom, uma ferramenta para dar acessibilidade a pessoas com deficiência, está sendo utilizada para atividades em computadores. Além disso, professores estão atendendo alunos com autismo individualmente por outras plataformas como WhatsApp.

O Ministério da Educação (MEC) foi procurado para saber se a pasta tinha a intenção de coordenar ou propor alguma ação a estados e municípios em relação a esses alunos, mas não houve retorno à reportagem até a publicação da matéria.

sábado, 4 de julho de 2020

Estudo avalia impacto do distanciamento social em crianças com deficiência

Avaliar o impacto do distanciamento social causado pela pandemia do novo coronavírus em crianças e adolescentes, entre 3 e 17 anos, com deficiência motora ou intelectual, é o objetivo de uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia (PPGFt) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).



Estudo avalia impacto do distanciamento social em crianças com deficiência
Imagem de Nathan Anderson por Unsplash


De acordo com Beatriz Helena Brugnaro, doutoranda que vai liderar o projeto, no período de distanciamento social, quando a maioria das crianças e adolescentes com deficiência motora ou intelectual está longe das escolas e terapias, pode haver mudanças na participação delas nas atividades em casa, no nível de atividade física e no desenvolvimento motor.

O estudo parte da hipótese de que a participação de crianças e adolescentes nas atividades domésticas aumente, visto que o tempo em que eles estão com a família é maior. Já o nível de atividade física e o desempenho motor devem diminuir, considerando a inatividade física decorrente do distanciamento social. “O estudo pretende entender quais mudanças estão acontecendo e, então, elaborar orientações e intervenções de modo a minimizar os impactos negativos do momento junto a esse público”, explica a pesquisadora da UFSCar.

Para a realização do estudo sobre o impacto do distanciamento social, estão sendo convidados pais ou responsáveis de crianças e adolescentes com idade entre 3 e 17 anos, que tenham deficiência motora ou intelectual e capacidade de andar sozinhos ou com dispositivo de auxílio. Os voluntários participarão de avaliações online e via telefone, com início imediato. Os contatos se repetirão daqui dois meses e, também, dois meses após o retorno ao convívio social.

As orientações fornecidas pelos pesquisadores, por meio de cartilhas e conversas com as famílias, vão incentivar a participação de crianças e adolescentes na rotina diária da casa e a manutenção de um estilo de vida fisicamente ativo.

Os interessados em participar devem contatar a pesquisadora Beatriz Brugnaro, pelo telefone (19) 99758-1342 (WhatsApp) ou pelo e-mail bia10.helena@gmail.com, enquanto o distanciamento social for recomendado no Brasil. A recomendação é que o contato seja feito o quanto antes.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

A tecnologia como aliada das crianças com deficiência

Por Semayat Oliveira para o lunetas.com.br | Colaborou: Mayara Penina

Nem sempre a tecnologia é vilã. Para crianças com deficiência, recursos tecnológicos podem ajudá-las a se desenvolverem e a participarem da sociedade



Recursos de acessibilidade em escolas do ensino regular ajudam no aprendizado de todas as crianças, com e sem deficiência, e tornam o aprendizado mais divertido e lúdico (Foto: DRE Itaquera - SME São Paulo)

Quando se discute a relação entre infância e tecnologia, questões como perigos do ambiente digital, excesso no uso de telas e impactos no desenvolvimento infantil se tornam o centro do debate. Mas, para crianças com deficiência, ferramentas tecnológicas não podem ser consideradas somente vilãs, pois são fundamentais para aprender, para se relacionar com outras pessoas, para exercer a cidadania e para estimular seu desenvolvimento integral.

“Tecnologia Assistiva (TA) é a criatividade para a resolução de problemas funcionais de participação e execução de tarefas”, explica Rita Bersch, fisioterapeuta e diretora da Assistiva Tecnologia e Educação, organização formada por especialistas em TA, com o objetivo de apoiar pessoas com deficiência no ambiente educacional.

Segundo a especialista, como o processo de desenvolvimento das crianças passa pela interação com o meio e com o outro, muitas vezes, a criança com deficiência fica privada de informações, conhecimentos e estímulos que estão no nosso espaço de sociabilidade. “Isso acontece pela limitação sensorial, visual e de mobilidade. A tecnologia assistiva busca alcançar a igualdade de oportunidades”, explica. Para ela, o desafio principal é encontrar alternativas às habilidades de cada pessoa.

“Posso ter autonomia no uso do computador com o movimento ocular ou um som. Com os pés, posso colocar uma chave acionadora e um botão para a pessoa ter acesso à digitação. Portanto, a tecnologia assistiva é um recurso, uma estratégia”

Neste sentido, o olhar deve estar direcionado para transformar o entorno, não a deficiência. Para Rita, muitas vezes, a deficiência está no contexto, na falta de conhecimento, na atitude ou na ausência de um recurso. Uma estratégia que pode auxiliar crianças com deficiência não depende necessariamente de uma tecnologia complexa, mas pode ser uma adaptação de espaço, aplicação de material de apoio e, principalmente, mudança de mentalidade e cultura.

“Se uma criança não se desloca, eu posso colocá-la num tapete e fazê-la circular na sala de aula. Se ela não vai até a caixa de brinquedos, posso colocá-la dentro da caixa em meio aos brinquedos. A tecnologia assistiva faz acontecer e faz participar, trazendo riqueza e possibilidade de desenvolvimento que qualquer outra criança tem”, conclui.

Tecnologia assistiva é um direito

A inclusão da pessoa com deficiência é um direito protegido por lei. Alguns marcos legais destacados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação mostram como a necessidade da Tecnologia Assistiva aparece em decretos e determinações federais ao longo dos anos.

Em 2006, a Organização das Nações Unidas publicou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Assinada por mais de 160 países, incluindo o Brasil, o documento estabelece uma mudança fundamental, afirmando que não é o limite individual que determina a deficiência, mas sim a combinação entre os impedimentos da pessoa e as barreiras existentes no ambiente.

Em relação à pauta da educação, um dos documentos norteadores é a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva.

“Sem a tecnologia, o João estaria preso à deficiência dele”

Carolina Videira ou Carola, como é conhecida, é fundadora da ONG Turma do Jiló e mãe do João, 11. Ele tem uma síndrome rara chamada Palizaeus-Merzbacher, que afeta o tônus muscular. “João é completamente hipotônico, nunca andou, nunca falou e nunca conseguiu se comunicar verbalmente”, conta.

Diante de um mundo que não estava preparado para o João, sua preocupação principal foi identificar recursos que facilitassem a rotina do filho. “Sempre acreditei que ele conseguiria outros tipos de comunicação e sempre tentei levar a vida o mais normal possível”, relata.

Por isso, a deficiência nunca esteve à frente da possibilidade de encontrar um caminho mais inclusivo. João passou a frequentar a escola aos dois anos. Neste período, Carola identificou que essa relação entre escola e as necessidades do filho seria um desafio. “A escola acreditava que ele não teria um desenvolvimento pedagógico. Por isso, comecei a buscar diversas tecnologias. Só achei uma opção quando ele tinha cinco anos”, conta Carola.

O que ela encontrou no exterior foi um equipamento chamado Tobii Eye Tracking, que funciona por rastreio ocular e conecta os olhos do usuário a uma tela. Assim, ele é capaz de mexer o mouse e se comunicar por meio do computador. Pouco depois de iniciar o uso da tecnologia, João aprendeu as letras de seu nome.

“A tecnologia proporcionou ao meu filho levar uma vida normal. Sem ela, o João estaria preso à sua deficiência”

Toda a comunicação com ele passa por esse equipamento: a professora é responsável por ajustar o conteúdo às necessidades da máquina e os outros alunos interagem com João por meio desta tecnologia. O menino também usa adaptadores para os seus brinquedos: para pilotar o controle remoto do carrinho, por exemplo, aciona um mouse com o joelho ou com a perna.

Após ver a tecnologia funcionar com o seu filho, Carola fundou a organização não-governamental com foco em educação inclusiva. A proposta é levar esse conhecimento para dentro de escolas públicas, promover formações para professores e compartilhar estratégias pedagógicas.


Maquete utilizada como material didático e como recurso de acessibilidade (Foto: DRE Itaquera - SME São Paulo)

Desafios na educação de crianças com deficiência

Para Regina Mercurio, professora de educação física, psicomotricista e formadora do Instituto Rodrigo Mendes, o foco da luta pela educação inclusiva é compreender que o impedimento não está na criança com deficiência, mas em minimizar as barreiras sociais que impedem sua plena participação. Ela pontua que, a partir da Convenção Sobre o Direito das Pessoas com Deficiência, houve uma mudança de perspectiva e do próprio conceito da deficiência.

“A tecnologia pode reduzir obstáculos no acesso ao aprendizado e nas expressões das crianças”, explica. “O que temos é uma reorganização em termos de sistema. Passamos a contar, desde 2010, com as salas de recursos multifuncionais que já trabalham com as questões da tecnologia, que facilitam o acesso à aprendizagem e as expressões das crianças, via recursos como microcomputador, material dourado, laptop, teclado com colmeia, software com comunicação alternativa, lupa eletrônica, alfabeto em Braille, reflete.


Mapa em relevo estimula o sensorial e facilita a percepção de crianças com deficiência visual (Foto: DRE Itaquera - SME São Paulo)

Além destas, contudo, outras tecnologias são importantes para que “crianças possam expressar os seus conhecimentos e estar envolvidas na aprendizagem, não só na sala de recurso multifuncional, mas com condições de acessar o currículo na sala comum”, destaca. Daí a importância do professor da sala de recurso multifuncional e o professor da sala comum trabalharem em conjunto, para incorporarem essas mudanças como uma estratégia pedagógica, permitindo ao aluno participar efetivamente do trabalho pautado pela Base Nacional Comum Curricular.

O programa de implantação de salas de recursos multifuncionais, do Governo Federal, disponibiliza às escolas públicas de ensino regular um conjunto de equipamentos de informática, mobiliários, materiais pedagógicos e de acessibilidade para a organização do espaço de atendimento educacional especializado (AEE). Esta modalidade de ensino é complementar ou suplementar aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades (superdotação) matriculados em classes comuns do ensino regular.

Com relação à formação de educadores com foco na educação inclusiva, Regina é categórica: ‘vivemos uma descontinuidade de políticas’. Um exemplo é que, em 2019, a Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão) foi desmontada logo no início do governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Com a mudança, passou a vigorar a Secretaria de Alfabetização, a Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação e uma Subsecretaria de Fomento às Escolas Cívico-Militares.

“Essa secretaria abrangia a perspectiva inclusiva, pois trata-se de uma modalidade, não um ensino à parte. No final do ano passado, começou a ser desenhada uma outra concepção de educação especial, que retorna à uma visão dividida por deficiência”.

Em 1º de junho, o MEC homologou o Parecer nº 5/2020, aprovando orientações com vistas à reorganização do calendário escolar e à possibilidade de cômputo de atividades não presenciais, para fins de cumprimento da carga horária mínima anual, em razão da pandemia do coronavírus. Essa foi a única diretriz nacional no campo da educação e não houve uma diferenciação para alunos com deficiência.

“Eles colocam inclusive a própria continuidade do trabalho dos alunos com deficiência dentro da proposta geral dos estudantes da escola, explica Regina. “Ao mesmo tempo, o parecer cita em separado a questão da educação especial. Mas o atendimento especializado, hoje, é complementar e não substitutivo do ano em que essa criança está”, conclui Regina.

Em sua opinião, as propostas que têm uma visão de outras linguagens e tecnologias para atender todas as crianças podem beneficiar toda a classe, principalmente nestes tempos de pandemia com aulas remotas. “De repente, chega-se à conclusão de que é importante usar mais imagens ou colocar um áudio junto com a proposta porque há famílias que não sabem ler, por exemplo”. Ou seja, recursos de acessibilidade impactam pessoas com e sem deficiência, de forma democrática.

Embora haja uma gama de produtos de tecnologia assistiva, Rita Bersch destaca que, para identificar o melhor recurso a um determinado tipo de deficiência, deve-se levar em consideração conhecimento técnico e oferecer apoio para que a pessoa tenha autonomia para escolher a melhor solução às suas necessidades.

“A pessoa com deficiência é protagonista nesse processo de entender a situação de vida, o que é preciso ser melhorado ou quais atividades deseja realizar e não consegue por conta de uma dificuldade física ou sensorial. Nosso papel é dar apoio para que ela tenha o máximo de autonomia possível”

Categorias de tecnologia assistiva

  • Auxílios para a vida diária
    Materiais e produtos para auxílio em tarefas rotineiras, como comer, cozinhar, vestir-se, tomar banho e executar necessidades pessoais, manutenção da casa etc.
  • Comunicação aumentativa e alternativa
    Recursos, eletrônicos ou não, que permitem a comunicação expressiva e receptiva das pessoas sem a fala ou com limitações. São muito utilizadas as pranchas de comunicação com os símbolos, além de vocalizadores e softwares dedicados para este fim.
  • Recursos de acessibilidade ao computador
    Equipamentos de entrada e saída (síntese de voz, Braille), auxílios alternativos de acesso (ponteiras de cabeça, de luz), teclados modificados ou alternativos, acionadores, softwares especiais (de reconhecimento de voz), que permitem pessoas com deficiência usarem o computador.
  • Sistemas de controle de ambiente
    Sistemas eletrônicos que permitem pessoas com limitações moto-locomotoras controlar remotamente aparelhos eletroeletrônicos, sistemas de segurança, entre outros, localizados em sua casa e arredores.
  • Projetos arquitetônicos para acessibilidade
    Adaptações estruturais e reformas na casa e/ou ambiente de trabalho, através de rampas, elevadores, adaptações em banheiros entre outras, que retiram ou reduzem as barreiras físicas, facilitando a locomoção da pessoa com deficiência.
  • Órteses e próteses
    Troca ou ajuste de partes do corpo, faltantes ou de funcionamento comprometido, por membros artificiais ou outros recurso ortopédicos (talas, apoios etc.) para auxiliar nos déficits ou limitações cognitivas, como os gravadores de fita magnética ou digital que funcionam como lembretes instantâneos.
  • Adequação postural
    Adaptações para cadeira de rodas ou outro sistema de sentar, visando o conforto e distribuição adequada da pressão na superfície da pele (almofadas especiais, assentos e encostos anatômicos), bem como posicionadores e contentores que propiciam maior estabilidade e postura adequada do corpo através do suporte e posicionamento de tronco/cabeça/membros.
  • Auxílios de mobilidade
    Cadeiras de rodas manuais e motorizadas, bases móveis, andadores, scooters de três rodas e qualquer outro veículo para melhorar a mobilidade pessoal.
  • Auxílios para cegos ou com visão subnormal
    Inclui lupas e lentes, Braille para equipamentos com síntese de voz, grandes telas de impressão, sistema de TV com aumento para leitura de documentos, publicações etc., para grupos específicos.
  • Auxílios para surdos ou com déficit auditivo
    Inclui equipamentos/aparelhos para surdez, telefones com teclado – teletipo (TTY), sistemas com alerta táctil-visual, entre outros.