sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Pandemia intensifica os desafios vividos por famílias de crianças com deficiência

Falta de terapia e convívio social gera preocupação no desenvolvimento das crianças neuroatípicas e com síndromes raras

Júlia Vasconcelos para o Brasil de Fato | Petrolina (PE)

Cerca de 46 milhões de brasileiros possuem deficiência mental ou síndromes raras - GDF

É marcado nessa sexta (21) o início da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla. A data acende um alerta para as necessidades específicas deste grupo e no cenário de pandemia traz a necessidade de olhar para a realidade dessas pessoas durante este período, que impõe ainda mais dificuldades frente à falta de políticas efetivas voltadas para este público.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são quase 46 milhões de brasileiros que possuem deficiência mental ou declaram ter algum grau de dificuldade em uma das habilidades investigadas (enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus). Cada uma das especificidades dessas pessoas traz consigo uma realidade diferente, e em meio ao isolamento social, novas preocupações surgem. Para famílias que tem crianças com deficiência e doenças raras em casa, a preocupação é principalmente a saúde e o desenvolvimento delas.

Raquel Jardim mora em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco e é mãe de Joaquim, criança de três anos diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela explica que antes da pandemia, tinham uma rotina em que o filho ia para escola, tinha terapias pela tarde, e sempre gostava de ir à pracinha do bairro para brincar. "De repente tudo mudou. O autista gosta de rotina, e não gosta de estar no ócio. Eu vi Joaquim ficar muito estressado e suas estereotipias aumentaram bastante. Ele, inclusive, ganhou uma nova estereotipia".

As estereotipias são ações repetitivas comuns às pessoas com TEA para lidar com o excesso de estímulos. "Agora tudo que ele pega que é diferente, ele joga no chão. A gente perdeu muito vidro, muito espelho, por ele jogar no chão e quebrar, e isso a gente acha muito grave", lamenta a mãe. 


Joaquim tem três anos e foi diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) / Arquivo Pessoal

A professora e psicóloga graduada na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Eugênia Souza, explica que um dos principais impactos do cenário da pandemia nessas vida das crianças é a falta de interação social, importante para o desenvolvimento infantil, psicomotor e cognitivo. "Muitas crianças, para além do convívio social, também têm o convívio em terapias. O momento da terapia é um momento de interação social afetiva, em que ela está em um ambiente seguro, livre de bullying, livre de um contexto social que às vezes é adoecedor. O que tem acontecido nesse momento é o afastamento dessa convivência, e isso impacta sim no desenvolvimento delas". 

Atendimentos terapêuticos e aulas virtuais

Joaquim, que fazia acompanhamento com terapeuta ocupacional e psicopedagoga, além de fonoaudiologia, hidroterapia e terapia, continuou apenas com alguns atendimentos terapêuticos online, sem que a mãe visse surtir muito efeito, especialmente por não poder se dedicar exclusivamente à ele e ter que cumprir com as atividades domésticas e demais obrigações. "A minha grande preocupação é por conta da plasticidade cerebral, porque os estudos dizem que as crianças desenvolvem até os três, quatro anos, e Joaquim já tem três anos e sete meses e ainda não verbaliza e existem atrasos”. 

Já Carla Lima, mãe da pequena Sophia, que tem uma síndrome rara degenerativa chamada Sanfilippo, conta que a falta das terapias para sua filha tem ocasionado uma piora ainda maior em sua condição física e mental, e, inclusive, Sophia passou a comer com dificuldade. "Até a saliva ela está tendo dificuldade de engolir enquanto dorme. Estamos fazendo algumas adaptações, tentando continuar com as caminhadas à noite e correr atrás das terapias perdidas, mas não têm sido fácil de conseguir". A síndrome fez com que ela perdesse o desenvolvimento motor e mental após os três anos, e hoje, com sete anos, Sophia não fala mais. 

Tanto Joaquim quanto Sophia estudam e estão com as aulas suspensas. Ter acompanhamento online, além de ter efetividade questionável por muitas famílias, é inviável para muitos, por falta de aparatos tecnológicos, acesso a internet e até mesmo um ambiente seguro e apropriado para realizar o atendimentos ou aulas remotas. 


Carla Lima e Sophia, que tem uma síndrome rara degenerativa chamada Sanfilippo / Arquivo Pessoal

Segundo a pesquisa TIC Domicílios, feita em 2019 pelo Centro Regional e Estudos para Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), 74% da população tinha acesso à internet, enquanto um a cada quatro brasileiros não usa a internet, o que corresponde a 47 milhões de não usuários. Além disso, o celular é o dispositivo mais usado (58% acessam a internet somente pelo celular), o que dificulta o acesso à aulas online ou acompanhamentos terapêuticos.

Mesmo assim, o Governo Federal teve como uma das poucas ações divulgar uma cartilha com orientações para auxiliar pais em estratégias para o acompanhamento escolar online de crianças com deficiência durante a quarentena.

A psicóloga expressa preocupação em como a comunicação tem chegado nas famílias "Pensando nas crianças surdas, tenho pensado muito em como tem sido a qualidade das aulas online, por exemplo. Tem sido efetivo? Tenho alunas surdas na pós graduação e às vezes percebo um esforço para elas entenderem o que está sendo sinalizado porque a internet fica lenta e elas perdem o movimento da mão. A questão visual é muito importante para as pessoas surdas", comenta e afirma que estar em isolamento não é igual para todo mundo e está diretamente ligada a realidade social e econômica de cada família. 

Descaso

Patrícia do Bonfim, presidente do Grupo Raros, associação em Petrolina formada por familiares de crianças com síndromes raras, afirma que até o momento nem o Governo Federal, nem o Estadual, tomaram medidas voltadas para crianças com deficiência e/ou doenças raras. "Com relação à educação, as crianças que são da rede municipal receberam kits pedagógicos. Não sou pedagoga, mas sou mãe de uma criança com síndrome rara, e ao meu ver, esses kits, por mais que tenha um trabalho por trás, não são adaptados às necessidades especiais de cada criança. São kits apropriados para crianças típicas."

A presidenta da associação explica que àqueles que possuem plano de saúde recebem atendimento remoto, ainda que não seja na mesma qualidade. Mas os que não possuem, não contam com nenhum tipo de suporte. 

Apesar do retorno gradual de alguns atendimentos, o PE Conduz, por exemplo, transporte gratuito para pessoas com deficiência e dificuldade de mobilidade em Pernambuco, está suspenso desde março e sem previsão de retorno, mesmo com o apelo de muitas famílias que dependem exclusivamente desse meio de transporte para mobilidade. O PE Conduz, por enquanto, está com serviço apenas para os casos de hemodiálise, que incorrem em risco de vida. 

Nesse cenário, Patrícia defende que o governo deveria disponibilizar profissionais adequados pelo menos uma vez ao mês ou a cada quinze dias à domicílio, para as pessoas que não podem ficar sem os tratamentos de nenhuma maneira. “É o caso de algumas crianças e adolescentes, por exemplo, que possuem disfagia ou atrofias que precisam de fisioterapia intensa. Essas famílias estão desesperadas”.  

Mulheres como cuidadoras

Segundo uma pesquisa realizada pelo Gênero e Número e SOF Sempreviva Organização Feminista, 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia e 72% afirmaram que aumentou a necessidade de monitoramento e companhia a alguém. Entre as mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos ou pessoas com deficiência, quase 3/4 afirmaram isso. 

O papel de cuidadora, já atribuído às mulheres, se intensificou. Para as mães de crianças com deficiência, sem suporte de cuidadores, secretárias, mediadoras escolares e com rede de apoio reduzida, a carga mental é pesada. "Vi minha saúde ser afetada e tive crises de ansiedade. Nunca consegui tirar tempo para mim mesma. As pessoas dizem para eu assistir uma série na Netflix, e isso é uma coisa que eu não consigo, porque não tenho tempo", conta Raquel, apontando que a única coisa que ainda consegue fazer é publicar em seu Instagram, canal que ela, que também é ativista, escolheu utilizar como blog para conscientizar seus seguidores sobre o autismo. 

Para Carla, a situação não é diferente. “Não tenho tempo pra mim, vivo em função dela. Ela depende de mim para tudo: comer, vestir, tomar banho, trocar fralda, cuidar da segurança. Amo cuidar dela, embora seja cansativo”. Além disso, Carla ainda lida com dificuldades de aceitar que a síndrome de sua filha não tem cura, e acredita que as mães dessas crianças deveriam ter acompanhamento psicológico rigoroso. 

As duas contam com o apoio dos pais das crianças, ao que Raquel prontamente diz: “ele é um pai de verdade. Ele não me ‘ajuda’. Ele faz o que tem que fazer, entende as obrigações dele. Ele é o meu suporte”. 

Entretanto, essa não é a realidade de todas as mães. Eugênia Souza afirma ter percebido que na maioria esmagadora das vezes esse papel de cuidar é atribuído às mães, também com crianças típicas, mas especialmente com crianças atípicas, e que as poucas figuras masculinas vistas nas instituições pelas quais ela passou eram vistas apenas como uma ajuda às mães. “Isso tem relação com a nossa cultura machista, que identifica a mulher como a figura cuidadora. E eu percebi nessas mulheres um lugar de adoecimento mental. Para além do cansaço físico, mental e emocional, por estarem sobrecarregadas, isso acabava resultando em quadros depressivos e de ansiedade”. 

Edição: Vanessa Gonzaga

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Como é a decisão de volta às aulas para os pais de crianças com deficiência

Dr. José Luiz Setúbal para o institutopensi.org.br

Como é a decisão de volta às aulas para os pais de crianças com deficiência

Os alunos com deficiência perderam o acesso a terapias e rotinas importantes neste ano escolar. Os pais esperam poder voltar à sala de aula em breve. Enquanto funcionários do governo, administradores escolares, professores e pais discutem sobre o possível retorno à escola em outubro, um grupo diz que sente que não está sendo incluído na conversa: os pais de crianças com deficiência.

Muitas crianças com deficiência recebem apoio e terapia adicional por meio de sua escola ou programa de aprendizagem. Além do apoio estrutural, pais e especialistas afirmam que as crianças com deficiência também se beneficiam por estarem perto de seus pares, da mesma idade e, por terem uma rotina diária.

Pais de crianças com autismo relatam que as mudanças abruptas provocadas pela pandemia do coronavírus afetaram fortemente seus filhos, em vários depoimentos em recente webinar realizado pelo Instituto PENSI sobre o tema.

“Meu filho odeia até mesmo falar com sua tia favorita no FaceTime. Você espera que ele participe de uma aula de Zoom…? Não funciona “, disse uma mãe, cujo filho de cinco anos foi diagnosticado com autismo no ano passado. O ensino a distância quase não funcionou para muitas crianças neurotípicas, muito menos para crianças com deficiências. A verdade é que muitas crianças se adaptaram a uma nova realidade, independentemente de serem neurotípicas ou atípicas e muitas outras não conseguiram. Em muitos casos, terapias “críticas” e suporte adicional também foram fornecidos com o Zoom, o que os pais disseram ser difícil para seus filhos.

Como as famílias que cuidam de crianças com necessidades especiais estão lidando com a pandemia?

Nos EUA, existe uma lei que estipula que qualquer aluno com deficiência receba um plano “elaborado para atender às necessidades específicas daquele aluno”. Psicólogos, conselheiros licenciados e conselheiros de orientação escolar podem estar envolvidos nesses planos. As terapias fornecidas pela escola podem variar de acordo com a orientação do estado e do distrito, e algumas escolas têm requisitos mais rígidos do que outras. Em geral, os alunos podem acessar uma ampla gama de terapias por meio de suas escolas públicas. Mas esta realidade não existe por aqui, nem em escolas privadas, onde poucas têm o preparo para lidar com crianças com deficiência, ainda mais em uma situação como a pandemia.

Muitas mães também disseram que tiveram que se afastar do trabalho ou deixar o trabalho completamente para ajudar seus filhos durante esse período, uma vez que seus filhos raramente se envolveriam em terapias ou trabalhos escolares se não fossem supervisionados. Durante a pandemia, relatórios mostram que as mães em geral carregam mais uma “carga mental”, inclusive cuidando mais dos filhos, potencialmente à custa de suas carreiras.

Mães que trabalham com crianças, adolescentes e filhos adultos compartilham como lidam com a pandemia

Vários grupos, incluindo a Academia Americana de Pediatria (AAP), recomendam que os alunos com deficiência voltem à escola quando e onde for seguro. As diretrizes recém-lançadas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americanos enfatizam o retorno das crianças com deficiência às aulas, alegando que as crianças com deficiência não podem ter acesso por meios virtuais à instrução especializada, serviços relacionados ou suporte adicional exigido por seus Programas de Educação Individualizada (IEPs), mais uma vez, muito longe de nossa realidade.

Muitos pais disseram que, embora esperassem que seus filhos pudessem voltar à escola este ano para recuperar o acesso às terapias e socialização necessárias, eles temiam que seus filhos tivessem dificuldade em seguir as diretrizes de segurança. “Manter uma máscara é uma luta, vou me virar e (minha filha) está mastigando e tirando”. São comentários que ouvimos de muitos pais no nosso webinar, que sentem que também estão preocupados com o fato de as crianças seguirem as diretrizes de segurança.

Nem todas as escolas exigirão que os alunos com deficiência usem máscaras, já que muitas salas de aula para alunos com deficiência são menores, com menos de uma dúzia de alunos por sala e mais professores ou auxiliares disponíveis. No entanto, alguns alunos que normalmente alternariam entre uma sala de aula para crianças com deficiência e uma sala de aula padrão agora podem passar o dia todo na sala de aula menor.

“Mesmo que (minha filha) possa voltar para a escola em tempo integral, ainda estou pensando em estudar em casa”, relatou a mãe cuja filha costuma dividir o dia entre a sala de aula para alunos com deficiência e a sala de aula padrão. “Estou preocupada que ela fique em uma sala de aula em vez de alternar entre classes especiais e classes geradas; ela se sai bem em uma sala com outras crianças e como modelo de crianças neurotípicas”. São dúvidas comuns e legítimas e que são também muito difíceis de serem aconselhadas com uma base técnica.

Alguns pais relataram surpresa ao ver seu filho com autismo se ajustar bem a medidas como o distanciamento social e uso de máscara enquanto frequentava um programa de escola por tela. Outros comentaram que ir para a escola implica ter de usar máscara, implica não ter alguns dos seus amigos na aula com ele, implica ter que lavar as mãos incessantemente e ter uma sala de aula menor. Apesar de todas essas restrições, ele ainda é muito mais feliz do que em casa.

Muitas pessoas perguntam se as mães não estão com medo. Uma delas afirmou que sente medo, mas também tem medo se vai ao supermercado, à farmácia, mas não consegue viver sem ir lá, e é o mesmo para ele. Não deve ser negado a ele o que vai apoiá-lo e ajudá-lo a viver.

Com esta dúvida termino esta postagem. Vivemos tempos de muitas incertezas, e gostaria de estar aqui escrevendo uma orientação bem mais dirigida, como faça isso ou aquilo, pois a ciência é clara, temos segurança em dizer qual é o melhor caminho para seu filho ou filha, mas infelizmente nesta questão ainda não temos uma resposta definitiva.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Lego cria blocos de construção adaptados para crianças com deficiência visual

Novidade será lançada inicialmente em sete países, incluindo o Brasil

Lego resgatado ajuda a passar o tempo
Criança brinca com peças de Lego - Arquivo pessoal

A marca de brinquedos de construção Lego anunciou, nesta quinta-feira (20), uma nova linha de blocos adaptados para crianças com deficiência visual."As peças foram fabricadas de forma que os blocos de ajuste (e outras peças) contenham as letras e números individuais do alfabeto braille, mantendo-se compatíveis com o sistema Lego", explicou o grupo em um comunicado.O objetivo é incentivar as crianças com deficiência visual a explorar novas formas de aprender, além de ler e escrever. Esses novos blocos, nas mesmas cores que os habituais, poderão ser utilizados sem problemas por outras crianças.

Confira também:

Brasil, Dinamarca, França, Alemanha, Noruega, Reino Unido e Estados Unidos são os primeiros sete países a receber o lançamento desta nova linha de kits de montagem. Depois, a linha chegará em outros 20 países até o início de 2021.

O Lego destinou 25% de seus lucros em 2019 a uma fundação que financia projetos para ajudar crianças em situação de dificuldade.

Fonte: f5.folha.uol.com.br

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Criança autista tem direito ao LOAS?

O art. 1º, § 2º, da Lei nº 12.764/12 (Lei Berenice Piana) determina expressamente que a pessoa diagnosticada com Autismo é considerada pessoa portadora de deficiência, assim diante desta normativa, este é detentor da possibilidade de requerer o beneficio assistencial.

Mas como já sabemos, para a concessão desse benefício além de requisito deficiência exige-se o requisito miserabilidade, a qual deve ser avaliada pelo prisma dos componentes do grupo familiar, para provar a situação de indignidade e dificuldade financeira que vivem, por meio de gastos com moradia, remédios, alimentação, vestuário, consultas médicas entre outros.

O nosso tribunal (TRF2) reconheceu direito do autor em ação, diagnosticado com autismo, e representado em juízo por sua mãe, a receber benefício previdenciário. O relator ressaltou que a concessão de benefício assistencial à pessoa com deficiência é um direito constitucional:

“Ao instituir o benefício de prestação continuada no inciso V do seu artigo 203, a Constituição da República teve por escopo garantir o mínimo existencial aos idosos e aos portadores de deficiência que não possuem meios de prover a própria subsistência e privilegiou, assim, a dignidade da pessoa humana.”

Quanto à comprovação de miserabilidade, o relator também entendeu que o estudo social apresentado no processo evidencia a situação de vulnerabilidade social apresentada pela família, composta pelo autor e sua mãe.

Conclui-se que “o benefício requerido assume relevante papel para a sobrevivência e desenvolvimento do segurado, com dignidade e qualidade de vida.”

Fonte: jornalcontabil.com.br

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Pesquisa analisa efeitos do isolamento social em mães de crianças e adolecentes com deficiência

Questionário estará disponível até final do ano e pode ser respondido mais de uma vez


Usar máscara em casa pode ajudar a brecar contágio do coronavírus ...

Abel Victor e Josafá Neto | Rádio UFS - O Grupo TALT (Técnica Aplicada Lavínia Teixeira), do Departamento de Educação em Saúde da UFS, está realizando uma pesquisa para entender os impactos do isolamento social, em decorrência da pandemia do novo coronavírus, em mães de crianças e adolescentes com deficiência no país.

O objetivo é verificar como os efeitos da sobrecarga do cuidado se refletem nos níveis de ansiedade, estresse e depressão e analisar, além de crenças espirituais, qualidade e perspectiva de vida do público-alvo do estudo no período da crise sanitária mundial.

Com duração média de cinco minutos, os formulários digitais vão estar disponíveis até o final deste ano e podem ser respondidos mais de uma vez. Isso permite, segundo a coordenadora do TALT, professora Lavínia Teixeira, o acompanhamento, ao longo da pandemia, dos efeitos do confinamento na saúde mental do grupo social investigado.

Lavínia Teixeira é professora de Educação em Saúde da UFS. Foto: Josafá Neto
Lavínia Teixeira é professora de Educação em Saúde da UFS. Foto: Josafá Neto

“A gente fica pensando como devem estar essas mães que tinham rotinas de levar às crianças para salas de cuidado, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicopedagogia e tinham acesso a diversos profissionais especializados para fazer os atendimentos aos filhos. E agora, elas se encontram em uma situação em casa o tempo inteiro e precisam dar o cuidado integral aos filhos. Aí, surgiu a inquietação de saber como está impactando tudo isso na vida dessas mães," explica Lavínia Teixeira.

A pesquisadora ainda afirma que o estudo pode orientar, além de ações na Universidade, propostas de políticas públicas de promoção à saúde das cuidadoras em nível local, com potencial de escala. “A partir dos resultados que a gente obtiver, a gente vai tentando ampliar isso para demais localidades. Isso é um andar de formiguinha. A gente vai primeiro pedacinho por pedacinho para tentar conseguir chegar a essa meta final, que são essas políticas também direcionadas para as mães.”

O estudo também busca dar visibilidade às mães de crianças e adolescentes com deficiência. “Eu estava comentando com umas alunas anteriormente que as mães funcionam como cabides das pessoas com deficiência. E elas são invisíveis mesmo. Existem até profissionais que não chamam pelo nome. É: ‘ou, mãe, mãezinha, vem cá, mãezinha de não sei quem’. Existe esse olhar desumano para essas mães”, pontua.

Fundado no ano de 2007, o Grupo TALT está vinculado ao Departamento de Educação em Saúde do campus Antônio Garcia Filho, em Lagarto. O objetivo da iniciativa é promover a inclusão social de crianças e adolescentes com deficiência através da arte.

O que são pessoas com deficiência?

Segundo o Ministério da Saúde, pessoas com deficiência são “aquelas que têm impedimento de médio ou longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o que, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.

Dados do Censo Demográfico do IBGE, em 2010, indicam que quase 45,6 milhões de brasileiros declararam ter pelo menos um dos tipos de deficiência (visual, auditiva, motora e mental/intelectual) apurados pela pesquisa. Desse total, mais de 518 mil estavam em Sergipe. Além disso, mais de 5,4 milhões de pessoas, entre 0 e 19 anos, no Brasil, e quase 82 mil, no estado, disseram possuir algum tipo de deficiência.

Para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é considerada criança o indivíduo com até 12 anos incompletos e adolescente aquele entre 12 e 18 anos de idade. Já em casos excepcionais, a lei brasileira se aplica a pessoas com até 21 anos de idade.

Um bilhão de pessoas no mundo tem um tipo de deficiência, segundo a ONU. O número representa um indivíduo em cada sete no planeta. De acordo com o Unicef, 150 milhões de indivíduos com menos de 18 anos no globo têm algum tipo de deficiência.