sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Mães de crianças com deficiência abrem empresas e aumentam renda familiar

 Rodolfo Luis Kowalski para o bemparana.com.br

 
Claudirene França e o trabalho na sua loja de doces e bolos artesanais, O Mundo Doce da Clau (Foto: Franklin de Freitas)

Quando teve seu primeiro filho, chamado Emanoel, Claudirene França não podia imaginar o quanto sua vida mudaria.

Nos primeiros anos tudo correu normalmente. O menino, conta a mãe, apresentava alguma dificuldade quando saía de casa, mas os pais, que moravam no interior do Paraná (e hoje moram em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba), achavam que esse ‘estranhamento’ se devia ao fato do rapaz não ter muito contato com outras crianças. Foi quando decidiram ter mais um filho, para que Emanoel pudesse ter uma companhia.

Durante as consultas com a ginecologista antes do nascimento de Márcia, a nova criança, porém, a médica começou a perceber que o menino tinha algo de diferente. E quando ele tinha de seis para sete anos, finalmente foi diagnosticado com autismo. Uma notícia que, num primeiro momento, foi um choque.

“Quando ele foi pra escola começou a ter dificuldade de aprender, começou a ser estereotipado na sala de aula. Ele ficava de costas pros alunos na sala, não queria fazer educação física, depois começou a não querer ir pra escola e a se machucar”, recorda ela. “Com o laudo, tudo mudou. Fiquei com muito medo, porque [antes] achava que era só dificuldade, que uma hora tudo passaria.. Mas eu nem sabia o que era autismo, não conhecia. Não sabia de nada, nada”.

Para poder ajudar o filho, ela tomou uma decisão que muitas mães acabam tendo de tomar para cuidar de filhos com deficiência e acompanhá-los nas consultas médicas. Dessa forma, precisou parar de trabalhar fora de casa, uma decisão que, inevitavelmente, impactou na renda familiar e, para ajudar o marido, que vinha se desdobrando para dar conta das despesas, ela teve uma ideia.

“Quando parei de trabalhar fora de casa, pensei em fazer algo e sempre gostei de fazer bolo de chocolate, cenoura, e sempre fui elogiada. Aí teve uma Páscoa, ainda estava grávida da Márcia [segunda filha de Claudirene] e vendi bastante. Gostei de trabalhar, conversar com as pessoas, ganhar meu dinheiro”, conta a mãe.

Recomeço e novos sonhos — O sonho de Claudirere sempre foi pagar um tratamento alternativo pra o filho, mas a situação financeira fazia tudo parecer muito distante. Até que, em 2020, ela teve a oportunidade de participar do Programa Empreenda, uma iniciativa social e gratuita que empodera pessoas com deficiência e suas famílias, incentivando a autonomia e promovendo o desenvolvimento por meio do empreendedorismo gastronômico.

Com a capacitação, ofertada pela ASID Brasil em parceria com a Risotolândia, novas portas se abriram. Nascia “O Mundo Doce da Clau” (@omundodocedaclau), que vende doces e bolos artesanais, além de outros quitutes. Um negócio que deu tão certo que a família já cogita abrir uma loja física daqui algum tempo. Não bastasse, a nova rotina ainda tem ajudado o jovem Emanoel, atualmente com 11 anos, a evoluir ainda mais.

“O Emanoel me ajuda bastante. Faz entregas no condomínio, recepciona os clientes. Está conversando mais com as pessoas, me ajuda a vender. Ele se animou também, vejo que ele, até pelo curso, ele fala que era para nós. Vestiu a camisa mesmo, me ajuda a organizar a casa, tirar lixo, guardar a louça. Eu nem preciso pedir. Ele está desenvolvendo muito isso, de empatia, ver as necessidades das pessoas”, comemora Claudirene.

‘Antes de falar de venda, falamos sobre elas se conhecerem’
Coordenadora de projetos da ASID Brasil, Caroline Ferronato conta que o Programa Empreenda nasceu em 2019, após um estudo mostrar que nas famílias com deficiência é muito comum algum familiar deixar de atuar no mercado de trabalho para se dedicar a essa pessoa com necessidades especiais - o que acontece principalmente com as mães, que tem de levar o filho no médico, na escola e ainda dar uma atenção especial em casa, o que muitas vezes acaba sendo incompatível com a rotina que o mercado de trabalho exige.

“Ela larga o emprego, foca no filho e fica dependendo de benefícios do governo, da ajuda de familiares”, explica Ferronato. “O programa é uma oportunidade para essa família gerar renda, ter mais autonomia, empoderamento. Inclusive, a primeira coisa que fazemos no curso é atuar com psicólogos, trabalhar a questão de autoconhecimento mesmo. Antes de falar de venda, negociação, falamos sobre elas se conhecerem”, explica.

Via de regra, quando começam a participar do programa as mães são muito tímidas, reservadas.

Quando questionadas sobre o que são ou o que querem, por exemplo, sempre colocam os filhos na frente delas próprias, não conseguem apresentar quem realmente são. “No final do projeto, já falam o que gostam, o que fazem. Outro grande ponto é o desenvolvimento do negócio delas. Todas as mães tiveram um aumento de renda, começaram a ter acesso a bens materiais e não raro envolvem os filhos no negócio, que apresentam grande desenvolvimento intelectual, evolução do potencial”, conta a coordenadora da ASID Brasil, revelando que cerca de 40 mães já foram formadas e abriram seus negócios com o apoio do Programa Empreenda.

Compartilhando experiência e garantindo o desenvolvimento
No Programa Empreenda, a ASID Brasil é responsável pela capacitação das famílias na parte de empreendedorismo. Já o grupo Risotolândia, sediado em Araucária, ajuda na parte gastronômica, oferecendo o expertise de quem já atua há mais de 65 anos no ramo gastronômico.

“Nós temos módulos aplicados pelos nossos nutricionistas, que ensinam boas práticas de manipulação, técnicas de gastronomia. É uma questão de compartilhar o conhecimento”, afirma Kamille Dantas, gerente de RH do Grupo Risotolândia, explicando ainda porque o foco do programa, por ora, é em Araucária e no CIC, em Curitiba.

“A nossa matriz está aqui em Araucária, estamos próximos também da região do CIC, e é uma forma de devolução pra sociedade. Estamos aqui, fazemos parte desse município, somos um dos maiores empregadores dessa região, queremos contribuir”, diz, convocando ainda outros empresários e empresas a seguir esse exemplo. “Existem outras organizações com expertises diferentes e que podem contribuir. Queremos que esse exemplo possa ser replicado. Existem tantas possibilidades de negócios para fazer uma sociedade girar de forma diferente com um olhar para a inclusão.”

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