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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Casal adota bebê com microcefalia rejeitado duas vezes

Moisés foi abandonado numa caixa de sapato e, em seguida, rejeitado pela primeira família que o adotou


Era como se Karen e Alessandro Isler estivessem grávidos quando viram as fotos de um bebê de quatro meses que tinha sido abandonado em uma caixa de sapato numa rua do Rio de Janeiro e, em seguida, rejeitado pela primeira família que o adotou, ao ser diagnosticado com microcefalia.

Por medo de não conseguir criar um filho com necessidades especiais – a microcefalia impede o desenvolvimento adequado do cérebro –, o marido foi contra a adoção no início. Isso até ele ver as fotos de Moisés, uma criança sorridente e cheia de vida.

“Foi com aquele sorrido que ele encorajou o meu marido. Foi um momento muito especial. Nós choramos muito e o Alessandro me disse em seguida: ‘Ele é o nosso filho e nós vamos buscá-lo”, disse Karen à revista Exame.

O casal percorreu mais de 550 quilômetros de Rio Claro, no interior de São Paulo, até o Rio. Moisés estava no colo de uma assistente social quando Karen e Alessandro chegaram para oficializar a adoção. “Nos aproximamos e ele começou a pular e sorrir muito, foi uma mistura de alegria com um toque de ‘será que nós vamos dar conta?’”.


Em sentido horário, da esquerda para a direita, Karieli, Alessandro, Moisés, Karen, Josué e o pequeno Izaac. Foto: Karen Isler/Divulgação

Já na nova casa, Moises chorou bastante nos primeiros dias. Ele demorou dez dias para se habituar à nova família. Nessa época, Karen e Alessandro já tinham uma filha de três anos. A pequena Kariely ficou encantada com o irmãozinho. “Ela não o via como deficiente e ajudava nos cuidados dele”, disse Karen.

A mãe conta que Moisés se desenvolveu como um bebê normal até o primeiro ano de vida. Depois disso, ele começou a ter crises convulsivas – eram mais de 50 por dia. “Mesmo tratando com anticonvulsivos, o desenvolvimento dele estacionou ali. Hoje, com quase 7 anos, ele tem a idade mental de uma criança de um ano.”

As convulsões diminuíram depois que Karen e Alessandro descobriram uma dieta alimentar que ajuda no tratamento da epilepsia. O casal ainda teria mais dois filhos, Josué e Izaac. Moisés, como um bom irmão mais velho, é atencioso e ajuda os caçulas em tudo o que eles precisam. “Foi o Moisés que ensinou o Josué a falar sua primeira palavra: gol. E foi Josué que ensinou Moisés a chutar uma bola. Eles vão crescer, e tenho certeza que sempre vão se apoiar uns nos outros, especialmente no Moisés”, refletiu Karen.

Fonte: Razões para Acreditar
Com informações da revista Exame

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Jovem com microcefalia estreia como modelo: 'Céu é o limite', diz mãe

Ana Victória, de 17 anos, é contratada de agência manauara.
História da jovem ficou conhecida após mãe criar grupo de apoio na web.


Ganhar o mundo por meio das passarelas e campanhas publicitárias é o sonho de muitas jovens. Para Ana Victória Lima, de 17 anos, os flashes das lentes fotográficas têm um significado ainda mais encantador: o da superação. Diagnosticada com microcefalia, a adolescente não perde a postura em frente às câmeras e afirma que atuar como modelo é uma realização. "É meu sonho", diz. A história da jovem que mora em Manaus ficou conhecida após a mãe de Ana, Viviane Lima, criar grupo de apoio na web.


Ao G1, Viviane comentou sobre os novos passos da filha e desafios da profissão que escolheu após ser convidada para um projeto de uma agência de modelos em Manaus. A jovem já recebeu várias propostas para trabalho.

Ainda durante a gravidez, Ana Victória foi diagnosticada com microcefalia. A mãe, aos 18 anos, recebeu a notícia com seis meses de gestação.

"Naquela época não se tinha esse entendimento, eu não sabia o que era microcefalia, então eu tinha que esperar para ver o que seria. Quando ela nasceu, o neurologista chegou e disse: ‘ela realmente tem microcefalia, ela não vai andar e não vai falar", contou Viviane.

Dois anos e meio depois, durante nova gravidez, a notícia de que a segunda filha, Maria Luiza, também teria microcefalia abalou a mãe. "Disseram que ela não teria 24 horas de vida, e hoje ela tá aí, com 15 anos", conta. Hoje, ao ser estimulada pela mãe, Ana fala como se sente: "Maravilhosa, linda, perfeita. Graças a Deus. É meu sonho", disse a jovem modelo.

Ana Victória foi destaque após projeto de sessões de fotos em agência de modelo (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)
Ana Victória foi destaque após projeto de sessões de fotos em agência de modelo (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)

Hoje, na adolescência das filhas, Viviane relembra os momentos difíceis e abre os caminhos para uma nova experiência. Ana Victória e Maria Luiza foram chamadas para uma sessão de fotos idealizada para um projeto chamado "Arte sem Preconceitos", de uma agência de modelos em Manaus. O projeto convidou 30 crianças deficientes e teve início há cerca de um mês.

Ana Victória, de 17 anos, é contratada de agência manauara (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)
Ana Victória, de 17 anos, é contratada de agência manauara (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)

"No momento que elas estavam fazendo a foto foi que a dona da agência chegou e disse 'Essa menina precisa estar na passarela'. Só que assim, a Ana Vitória sempre teve esse jeito, essa vontade de desfilar, mas eu nunca pensei nisso profissionalmente, nunca tinha pensado dessa forma", afirmou Viviane.

Mãe diz que não teme comentários preconceituosos e se emociona ao ver filha desfilando (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)
Mãe diz que não teme comentários preconceituosos e se emociona ao ver filha desfilando (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)

O destaque de Ana saiu das ideias para as lentes das câmeras. A agência iniciou um processo de preparo para que a estudante aprendesse a fotografar e desfilar. Segundo a mãe, a mudança no comportamento da filha foi inevitável.

"Quando eu vi a Ana Victória em um salto alto e desfilando desse jeito, eu pensei: o que estava guardado dentro dela era o que estava precisando para ela amadurecer", afirmou Viviane.

Futuro
Ao ser questionada sobre o futuro da filha nas passarelas, Viviane não tem dúvidas: "Eu acredito que o céu é o limite para ela. Se é o que ela quer, eu não preciso dizer nada. Não foi de mim que surgiu, foi uma descoberta da agência. Ela está abrindo as portas para essa geração com microcefalia que está nascendo e dizendo que é possível”, afirmou.

Segundo a coordenadora da agência, Creuza Rodrigues, o mercado ainda é restrito, mas ela afirma já recebeu várias propostas de trabalho ao ingressar Ana como profissional da moda.

Sonho de ir às passarelas é "difícil, mas não impossível", diz coordenadora de agência (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)"Está todo mundo estudando porque é uma novidade e tá todo mundo se adequando, porque nós temos que nos adequar a ela e não ela se adequar a nós. Então, a gente tem que estudar o perfil, para poder fazer um trabalho legal no futuro. Nós já estamos em aberto para várias marcas que estão querendo contratá-la como modelo", afirmou ao G1.

Preconceito
Após criar um grupo que ajuda mães do Brasil inteiro que possuem filhos com microcefalia, a funcionária pública afirmou que recebe diariamente muitas mensagens de carinho, mas que não fica livre do preconceito.

“Já são 17 anos que eu lido com tudo isso, então eu fui tão bem preparada para tudo e essa questão do preconceito ficou, para mim, como um medo lá atrás, quando ela nasceu, quando eu passei pelas situações que passei. Quem hoje faz comentários maldosos não sabe quem ela é e não sabe que quando ela nasceu o médico disse que ela não ia andar e não ia falar e que, para mim, ela estar em cima de uma passarela, é o que importa. O que os outros vão falar já ficou para trás na minha vida”, comentou.

Emoção
Durante a entrevista, Viviane se emociona e chora ao contar o que pensou ao ver a filha na passarela pela primeira vez. "Quando eu a vi desfilando passou na minha cabeça as limitações dela escritas em um papel, passou as noites difíceis que eu passei com ela, passou o medo que eu tive de perder, passou o medo que a gente tem de não saber o que é o dia de amanhã. Eu aprendi a viver de 24 em 24 horas, e o que eu estou vivendo hoje é o mais especial", afirmou.

Viviane e as filhas Júlia, Maria Luiza e Ana Victória (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)
Viviane e as filhas Júlia, Maria Luiza e Ana Victória (Foto: Indiara Bessa/G1 AM)

Fonte: G1

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

“Cada dia com nossas filhas é um presente”, diz mãe de duas meninas com microcefalia

Gwen Hartley com suas filhas Clareie e Lola. Foto: Gwen Hartley
Gwen Hartley é mãe de três crianças, duas das quais – Claire e Lola – têm microcefalia. Apesar de reconhecer que o dia a dia é complicado e difícil, assegura que cada um de seus filhos é “uma bênção”. Não existe nenhum motivo para que fiquem com pena da sua família. “Há momentos difíceis, mas nunca duram muito porque temos muito mais motivos para estar felizes. Cada dia com nossas filhas é um presente e cada dia rezo para que estejam conosco mais tempo”.

Seu primeiro filho, Carl – que atualmente tem 17 anos –, nasceu sem complicações. Durante a gestação de sua segunda filha, Claire, todas as ultrassonografias mostravam resultados normais. Entretanto, quando nasceu, Gwen ficou surpreendida pois a sua cabeça era muito pequena. Embora o médico não tivesse um diagnóstico, disse aos pais que “algo estava mal”.

Depois de um tempo especialmente difícil no qual não sabiam o que acontecia com Claire, finalmente foi diagnosticada com microcefalia, tetraplegia espasmódica, paralisia cerebral, epilepsia e deficiência visual cortical.

O médico também lhes advertiu que havia 25 por cento de possibilidades de que se tivessem outro filho este poderia nascer com as mesmas doenças.

Segundo o médico, Claire não viveria mais do que um ano. Como sua condição era extrema, o doutor pediu aos pais que assinassem um documento no qual estabelecessem que, se a menina ficasse gravemente doente, não lhe administrariam nenhum medicamento ou reanimação.

Os pais se recusaram a fazê-lo e disseram que, caso sua filha tivesse os dias contados, ela seria levada para casa e cuidada por sua família. Contra todo prognóstico, Claire completou o seu primeiro ano.

Embora intuíam que poderia haver uma causa genética na doença de Claire, não obtiveram resultados lógicos nos estudos realizados em seus pais Gwen e Scott. As possibilidades de que um novo filho nascesse saudável eram de 75 por cento e, por isso, tiveram outro bebê chamado Lola.

As ultrassonografias da bebê mostravam tudo normal até a 22ª semana, quando o médico notou algo estranho. Tiveram que esperar mais quatro semanas para confirmar as suspeitas: “Foi o mês mais longo da nossa vida”, expressou Gwen. “Finalmente soubemos que Lola também nasceria com microcefalia”.

“Já sabíamos como cuidar de Claire. Ela nos faz imensamente felizes e nos ensinou coisas que nunca teríamos aprendido se ela tivesse nascido sem essa deficiência. Não queremos ser novamente quem éramos antes de ela chegar”, assegurou a mãe.

“Por alguma razão, estávamos chamados a ser pais de duas crianças com esta deficiência”, ressaltou.

“Agora, as duas meninas que supostamente não viveriam mais de um ano completarão 10 e 15 anos em 2016. E são as pessoas mais fortes que jamais conheci”, afirmou orgulhosa a mãe.

Desde que aumentaram os casos do vírus zika e durante a emergência sanitária estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), as visitas ao blog de Gwen aumentaram bastante.

A mãe Gwen Hartley espera que seu testemunho seja uma “fonte de esperança e inspiração para os pais que podem estar assustados”.

Nesse sentido, Gwen ainda afirmou que em várias ocasiões leu que alguns dizem: “A microcefalia é um defeito de nascimento terrível” originado pelo zika. Com relação a isto comentou: “Não vejo minhas filhas com terríveis má formações de nascimento. Eu as vejo preciosas. Para mim, não é um defeito congênito horrível e abominável. Aos meus olhos, são muito lindas”.

“Vejo como as pessoas dizem: não deixemos que isso aconteça nunca mais a ninguém. Na verdade, ouvir isso machuca”, concluiu.

Fonte: acidigital.com

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Fotografias retratam a fofura de bebês com microcefalia

As fotos de bebês, em geral, nos comovem.



O fotógrafo pernambucano Joelson Souza resolveu fazer fotografias de bebês com uma característica em comum: a microcefalia. Ao retratar os bebês e suas famílias, vemos o cotidiano de famílias que, embora tenham que lidar com as dificuldades de crianças que necessitam de cuidados especiais, levam as suas vidas com muito amor.

O ensaio fotográfico, chamado "MacroAmor", foi feito em uma tarde com cinco famílias comuns e ganhou uma repercussão maior do que a esperada pelo fotógrafo.

As lentes de Joelson capturaram cenas da vida de bebês sorridentes e brincalhões com suas famílias. A ideia do fotógrafo nasceu do choque que teve com o surto de bebês com microcefalia no Nordeste do país este ano. "A microcefalia 'pegou de surpresa' centenas de famílias, especialmente aqui em Pernambuco. E dentre as diversas dificuldades que principalmente as mães passam estão o preconceito, o 'olhar torto', as reações negativas e por aí vai. Com o intuito de mostrar um pouco 'o outro lado da história', construí esse projeto", relatou Joelson em sua página no Facebook.

O fotógrafo realizou o ensaio com cinco mulheres integrantes da União de Mães de Anjos (UMA), que é um grupo de apoio a famílias de bebês e crianças com microcefalia.

Confira as fotos a seguir:

microcefalia 2

microcefalia 3

microcefalia 4







Fonte: catracalivre

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Bebês com microcefalia viram elo de belas histórias de amor e maternidade

Sem poder ter filhos biológicos, Valéria considera João Lucas o seu ‘tesourinho’
(Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)

Mães adotivas das crianças acreditam em destino. Para elas, bebês com malformação cerebral são presentes de Deus.

A vontade e o sentimento de ser mãe são tão fortes que ultrapassam qualquer critério lógico. Biologia, muitas vezes, não é o fator predominante para fazer brotar esse amor, arrebatador e inexplicável. E ele pode ser fruto de uma gestação ou do destino. Há quem acredite que a maternidade é um presente de Deus e que nada é por acaso. Assim acreditam as quatro mulheres dessa história.

Mães adotivas e biológicas, que viram suas vidas se conectarem às vidas de bebês com microcefalia.

Presente de Deus

Por já ter outros oito filhos, a mãe biológica de Maria Eduarda não teve condições de ficar com a filha. Um casal havia se interessado em adotar a menina, mas antes de descobrir que a pequena tinha microcefalia. Sem um lar, a bebê estava prestes a ser entregue em um orfanato. Foi quando a doméstica Mirian Pereira, 40 anos, resolveu mudar o futuro de Duda – como é chamada a menina.

Hoje, a pequena Maria Eduarda não tem só uma mãe, mas duas (Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)
“Ela chegou no dia certo, na data certa. Eu me curei no dia 15 de novembro e Deus me deu ela no dia 22. Deus me curou para eu cuidar dela. É meu destino cuidar e dar felicidade para ela”, acredita. Após lutar cinco anos contra uma leucemia, Mirian recebeu alta da remissão sete dias antes de Maria Eduarda entrar em sua vida.

Hoje com quase cinco meses, Duda não tem só uma mãe, mas duas. Isso mesmo, amor em dobro. Apenas com 18 anos, a nora de Mirian, Clene da Silva, se apaixonou pela menina com microcefalia e largou os estudos para se dedicar por completo a Maria Eduarda. Foi amor à primeira vista.

“É só até organizar essa rotina intensa de médicos. No próximo ano, eu volto a estudar, mas ela sempre virá em primeiro lugar. É o meu xodó. Minha vida pela dela sempre”, garante a jovem, que já apresenta uma atitude madura. “Parece que saiu do ventre dela. É incrível porque, mesmo já tendo dois filhos e ser mais velha, ela me ensina muito em relação a Duda”, completa Mirian.

No entanto, Cleane não nega que há resquícios de uma infância que ainda não foi totalmente esquecida. Sempre muito enfeitada e cheirosa, ela faz de Duda a sua boneca viva com o que ganham de doações. É roupinha combinando e acessório para cabeça. Até dois tipos de mochila a pequena tem. Claro, todas da cor rosa. “Essa é para passear e essa para os dias de médicos. Ela arruma, tira foto e compartilha com as amigas nas redes sociais. Essa é a alma de criança que ainda fala dentro dela”, entrega Mirian, com sorriso orgulhoso.

Com duas mães e um bebê mais que mimado – no bom sentido – há ciúmes, mesmo que seja “bobinho”. Cleane diz que Duda prefere o seu braço, enquanto Mirian garante que a menina só dorme com ela. “Ela só conhece meu braço, tem dia que só quer ele”, diz a jovem. Mesmo concordando, a dona de casa rebate. “Vai falando, vou deixar passar por hoje”, diz Mirian em tom de brincadeira.

Enquanto isso, Maria Eduarda dormia tranquilamente.

Valéria [direita] divide amor de João Lucas com Neide, mãe biológica do menino
(Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)

Um amor de vizinha

Com as portas da casa sempre abertas para receber qualquer um, a dona de casa Valéria Gomes, 45 anos, é a vizinha boa praça, a “mãezona” da comunidade. No feijão, sempre vai mais água para alimentar quem chegar. “A gente não vive de luxo, o dinheiro é contado, mas sempre tem tudo para todo mundo. Minha casa é aberta, quem chegar aqui come. Eu tenho prazer de ter uma casa que é vista assim”, conta.

Ainda jovem, Valéria teve uma infecção no útero e nas trompas após duas gestações que não vingaram. “Tenho em mim que Deus me preparou para isso. Ele não deixou eu ter para cuidar de quem precisava”, acredita.

O primeiro a bater em sua porta foi Gildo. Com apenas dois meses, o menino com deficiência mental foi abandonado pela mãe no meio da madrugada. Hoje, 18 anos depois, o rapaz esbanja saúde e felicidade. Orgulho de Valéria, o que não falta na casa são fotos de Gildo sorrindo.

O jovem agora tem um irmão mais novo, João Lucas, de sete meses. Assim como Maria Eduarda, o menino foi diagnosticado com microcefalia associada ao vírus da zika. João é filho de sua vizinha de quarteirão. “Chamo ele [Gildo] de meu tesourão e João de meu tesourinho”.

Bastante humilde, a dona de casa Neide Ferreira, 41 anos, não sabia como cuidar de uma criança com necessidades especiais em meio a seus outros 12 filhos. “Eu fui lá para ajudar de alguma forma. Pensei em trazer Aninha [gêmea de João que nasceu sem a microcefalia], mas quando cheguei lá percebi que ele que precisava de mim, ele me encantou”, relembra Valéria.

Para Neide, Valéria é como uma irmã (Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press)

“Lembro que ele voltou para ficar uma noite comigo e teve febre emocional com saudades de Valéria. Daí eu percebi que Deus colocou uma pessoa na minha vida, em um momento tão difícil, para me ajudar e ajudar meu filho”, desabafa a mãe biológica, que permanece presente na vida do menino.

De vez em quando, tímidas lágrimas caem do rosto de Valéria, mas se engana a pessoa que achar que são o resultado de outro sentimento que não seja a felicidade e o orgulho. “Eu sou mãezona mesmo, meu coração é bem grande. Até Deus permitir eu vou cuidar dos meus dois filhos com todo amor. Esse amor que é tão forte e vem de dentro. São meus filhos”, conclui.

Fonte: G1

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

‘Sou plena, feliz e existo porque minha mãe não optou pelo aborto’, diz jornalista com microcefalia

Por Ricardo Senra


Ana Carolina Cáceres, de 24 anos, moradora de Campo Grande (MS), desafiou todos os limites da microcefalia previstos por médicos. Eles esperavam que ela não sobrevivesse. Hoje, Ana tem 24 anos. Neste depoimento, ela defende uma discussão informada sobre o aborto.

“Quando li a reportagem sobre a ação que pede a liberação do aborto em caso de microcefalia no Supremo Tribunal Federal (STF), levei para o lado pessoal. Me senti ofendida. Me senti atacada.
No dia em que nasci, o médico falou que eu não teria nenhuma chance de sobreviver. Tenho microcefalia, meu crânio é menor que a média. O doutor falou: ‘ela não vai andar, não vai falar e, com o tempo, entrará em um estado vegetativo até morrer’.

Ele – como muita gente hoje – estava errado.

Meu pai conta que comecei a andar de repente. Com um aninho, vi um cachorro passando e levantei para ir atrás dele. Cresci, fui à escola, me formei e entrei na universidade. Hoje eu sou jornalista e escrevo em um blog.

Escolhi este curso para dar voz a pessoas que, como eu, não se sentem representadas. Queria ser uma porta-voz da microcefalia e, como projeto final de curso, escrevi um livro sobre minha vida e a de outras 5 pessoas com esta síndrome (microcefalia não é doença, tá? É síndrome!).

Com a explosão de casos no Brasil, a necessidade de informação é ainda mais importante e tem muita gente precisando superar preconceitos e se informar mais. O ministro da Saúde, por exemplo.

Ele disse que o Brasil terá uma ‘geração de sequelados’ por causa da microcefalia.

Se estivesse na frente dele, eu diria: ‘Meu filho, mais sequelada que a sua frase não dá para ser, não’.

Porque a microcefalia é uma caixinha de surpresas. Pode haver problemas mais sérios, ou não. Acho que quem opta pelo aborto não dá nem chance de a criança vingar e sobreviver, como aconteceu comigo e com tanta gente que trabalha, estuda, faz coisas normais – e tem microcefalia.

As mães dessas pessoas não optaram pelo aborto. É por isso que nós existimos.

Não é fácil, claro. Tudo na nossa casa foi uma batalha. Somos uma família humilde, meu pai é técnico de laboratório e estava desempregado quando nasci. Minha mãe, assistente de enfermagem, trabalhava num hospital, e graças a isso nós tínhamos plano de saúde.

A gente corta custos, economiza, não gasta com bobeira. Nossa casa teve que esperar para ser terminada: uma parte foi levantada com terra da rua para economizar e até hoje tem lugares onde não dá para pregar um quadro, porque a parede desmancha.

O plano cobriu algumas coisas, como o parto, mas outros exames não eram cobertos e eram muito caros. A família inteira se reuniu – tio, tia, gente de um lado e do outro, e cada um deu o que podia para conseguir o dinheiro e custear testes e cirurgias.

No total, foram cinco operações. A primeira com nove dias de vida, para correção da face, porque eu tinha um afundamento e por causa dele não respirava.

Durante toda a infância também tive convulsões. É algo que todo portador de microcefalia vai ter – mas, calma, tem remédios que controlam. Eu tomava Gardenal e Tegretol até os 12 anos – depois nunca mais precisei (e hoje sei até tocar violino!).

Depois da raiva, lendo a reportagem com mais calma, vi que o projeto que vai ao Supremo não se resume ao aborto. Eles querem que o governo erradique o mosquito, dê mais condições para as mães que têm filhos como eu e que tenha uma política sexual mais ampla – desde distribuição de camisinhas até o aborto.

Isso me acalmou. Eu acredito que o aborto sozinho resolveria só paliativamente o problema e sei que o mais importante é tratamento: acompanhamento psicológico, fisioterapia e neurologia.

Tudo desde o nascimento.

Também sei que a microcefalia pode trazer consequências mais graves do que as que eu tive e sei que nem todo mundo vai ter a vida que eu tenho.

Então, o que recomendo às mães que estão vivendo esse momento é calma. Não se desespere, microcefalia é um nome feio, mas não é esse bicho de sete cabeças, não.

Façam o pré-natal direitinho e procurem sobretudo um neurologista, de preferência antes de o bebê nascer. Procurem conhecer outras mães e crianças com microcefalia. No próprio Facebook há dois grupos de mães que têm um, dois, até três filhos assim e trabalham todos os dias tranquilas, sem dificuldade.

Caso o projeto de aborto seja aprovado, mas houver em paralelo assistência para a mãe e garantia de direitos depois de nascer, tenho certeza que a segunda opção vai vencer.

Se ainda assim houver pais que preferirem abortar, não posso interferir. Acho que a escolha é deles. Só não dá para fazê-la sem o mais importante: informação.

Quanto mais, melhor. Sempre. É o que me levou ao jornalismo, a conseguir este espaço na BBC e a ser tudo o que eu sou hoje: uma mulher plena e feliz.


*Este depoimento é resultado de uma conversa entre o repórter da BBC Brasil Ricardo Senra e Ana Carolina Cáceres. E começou com um comentário da jovem no perfil da BBC Brasil no Facebook.

Fonte: BBC.com

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

‘Você fica em choque’, afirma mãe de bebê com microcefalia

Patrícia e o filho Lorenzo de um mês em Campinas (Foto: Patrícia Campassi/ Arquivo pessoal)

Patrícia, de 21 anos, recebeu a notícia na 30ª semana de gravidez. Caso é investigado pela prefeitura já que pode ter ligação com zika vírus.
“Foi muito difícil, porque os ultrassons do começo estavam normais. Você descobre com 30 semanas, quando está quase pra nascer, que o cérebro dele não desenvolveu e as sequelas que ele vai ter. Você fica em choque. Eu estou ainda”, desabafa Patrícia Pereira Campassi, de 21 anos, mãe de Lorenzo, que tem microcefalia. Ele nasceu há um mês e meio em Campinas (SP).

Segundo a Prefeitura, Lorenzo é um dos quatro casos notificados de microcefalia, uma má formação congênita, que são investigados pela Vigilância Epidemiológica da cidade. As ocorrências podem ter relação com o zika vírus, que é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo da dengue e da chikungunya.

Alergia

A mãe, que já tem uma filha de 5 anos, conta que a gravidez seguia normalmente até a oitava semana. No entanto, tudo começou a mudar depois de uma suposta alergia alimentar.

“Era um grosseirão, dor no corpo e, logo depois, veio a coceira. Febre eu não tive. Eu fui para a maternidade, estava na epidemia de dengue e o médico nem me avaliou direito e disse que era intoxicação alimentar. Eu fiquei assim por uma semana”, lembra.

Patrícia afirma que depois fez dois ultrassons, que não deram nenhum tipo de alteração, mas na 30ª semana veio a notícia da microcefalia.

“Eu até questionei o médico na época, ele disse que demora um pouco para aparecer. Aí, quando começa a desenvolver e vê que o corpo tá crescendo e o crânio não, aí descobriram que ele nasceria com microcefalia”, destaca.

Não ligaram com zika vírus

A mãe conta que ficou em choque e fez vários exames depois de receber a notícia, mas que nunca nenhum médico citou uma possível ligação com dengue ou zika vírus.

“Fui em geneticista, em infectologista, fiz vários exames. Contei a história que tive a alergia e tudo e na época, não ligaram com a dengue e com zika vírus”, afirma.

Patrícia explica que só nesta semana após uma visita a um neuropediatra que foi levantada a possível ligação com o zika vírus. “Eu estive num neuro, no acompanhamento do meu filho e contei a história e ele falou que hoje tem certeza que foi o zika vírus”, ressalta.

Muito amor

A mãe destaca que é preciso que as gestantes sejam alertadas sobre o perigo de ser picada pelo Aedes aegypti. Ela afirma também que é importante que elas sejam orientadas sobre o que é a microcefalia e como cuidar da criança.

“Eu vi vários casos de mães querendo até mesmo abortar a criança. Mas, eu acredito que se Deus me enviou ele, eu tenho capacidade de cuidar e todas as mães também. Não é fácil, têm dias que eu choro, mas é força, porque a gente ama muito. É muito diferente o amor que eles passam. Tem dia que tô chorando e só de olhar pra ele, me dá força”, desabafa.

Para as mães que estão vivendo a mesma situação, Patrícia afirma que é preciso superar o choque inicial e dar amor e carinho para que o bebê se desenvolva no seu tempo.

“Eu levo uma frase comigo que eu ouvi um dia e que carrego e passo pra todo mundo: Filhos especiais, somente para pais especiais. É difícil porque eu me emociono muito. Eu nunca pensei que isso fosse acontecer comigo e a gente faz planos. Eu tenho um filho real, especial, eu vou cuidar de acordo com as necessidades dele”, finaliza.