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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O que vem depois de revogado o ‘decreto da exclusão’?

A luta por uma educação inclusiva só acaba quando não houver nenhuma referência ao “tipo de gente” que pode acessar esse direito básico

Por Mariana Rosa

A primeira vez de minha filha Alice na escola, seis anos atrás, foi também a minha primeira vez. Lembro do medo e da insegurança descalibrados, turvando as emoções daquele momento que deveria ser, sobretudo, de celebração. Afinal, uma nova etapa da vida se iniciava, e a escola era a promessa de ampliação de nossos contornos, até então restritos ao núcleo familiar. Ocorre que, quando criança, na década de 1980, não convivi com nenhum estudante com deficiência, e essa realidade permaneceu inalterada até o ensino superior. Alice não se comunica oralmente, tem limitações motoras, usa cadeira de rodas, precisa de apoio e mediação para todas as atividades cotidianas. Tal condição simplesmente não fazia parte do meu repertório de mundo antes de me tornar sua mãe. 

Foi preciso mais do que afeto para entender que a escola era lugar para ela. Teve pesquisa, estudos e convivência com pessoas com deficiência, um percurso que buscou reparar a experiência que me havia sido negada até ali. Ao longo desse processo, eu também me tornei uma mulher com deficiência, o que adicionou novas perspectivas para compor a compreensão que deveria estar instalada por princípio: 

“Todo ser humano tem direito à Educação e a escola é lugar para todas as pessoas, indiscriminadamente”

Foram seis negativas de matrícula. Seis “nãos”. “Não trabalhamos com esse tipo de criança”, “não tem vaga”, “pra que matricular se ela não vai aprender?”, “aqui não é lugar pra ela”… e por aí vai. Minha filha, quando se lança ao encontro do mundo, é tomada como um “tipo de criança” tão exótica que é afastada de sua condição humana e, consequentemente, dos portões de entrada da escola comum. Lembro que nada na conversa de apresentação de uma das escolas que visitei me dava pistas de que aquele era um lugar para ela: “aqui é o espaço para as crianças correrem pra todo lado, ali é o muro pra escalar, aqui as crianças mais falantes fazem a festa”…, dizia a coordenadora pedagógica.

Leia a matéria completa em lunetas.com.br

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Adaptação de materiais para crianças com deficiência visual

Alunos com deficiência visual têm problemas de acesso ao conteúdo escolar. Portanto, os materiais devem ser adaptados às suas necessidades

soumamae.com.br

Na escola, os materiais para crianças com deficiência visual devem ser adaptados para que elas possam ter acesso ao currículo escolar e aos conteúdos de aprendizagem. Esta é uma medida básica para atender às necessidades específicas de suporte educacional de alunos com problemas visuais significativos.

“Só porque um homem não usa os olhos, não significa que ele não tenha visão.”

-Stevie Wonder-

Encontram-se no mercado diversos materiais com facilidade de adaptação para fornecer o essencial: informação táctil com texturas, peso, etc., bem como informação auditiva e visual, neste caso com cores fortes ou contrastes para alunos com baixa visão.

Por outro lado, as novas tecnologias, inclusive as digitais, são um universo em expansão de possibilidades de acesso e inclusão. Faz parte do que se conhece como Tiflotecnologia (do grego ‘tiflo’, que significa cego), um conjunto de técnicas e estratégias por meio das quais “procedimentos e técnicas são adaptados para uso posterior pelo grupo de cegos”.

O que é a deficiência visual?

A deficiência visual refere-se à presença de deficiências funcionais significativas quando se trata de ver. Ou seja, esse conceito engloba diversos tipos de problemas visuais graves. Assim, de acordo com Natalie Barraga, uma distinção pode ser feita entre:

  • Cegueira total: a visão só permite perceber a luz.
  • Cegueira parcial: a pouca visão que se tem permite apenas perceber vultos.
  • Baixa visão: existem deficiências significativas relacionadas à acuidade visual, mas os objetos podem ser vistos a poucos centímetros de distância. Portanto, adaptações são necessárias para poder realizar diversas atividades da vida diária.
  • Visão limítrofe: o déficit visual não é excessivamente grave. Portanto, a pessoa não fica incapacitada para realizar as atividades do dia a dia, embora às vezes sejam necessárias adaptações simples para poder realizar algumas delas.

Adaptação de materiais para crianças com deficiência visual

As crianças com deficiência visual precisam ter materiais escolares adaptados às suas necessidades educacionais especiais, para garantir acesso e reprodução adequados das informações que devem aprender. Essas adaptações podem ser realizadas por meio de diversos recursos, como:

  • Ampliação.
  • Gravação.
  • Sistema braile.
  • Relevo.

Ampliação

A ampliação consiste em aumentar o tamanho do documento para facilitar o acesso a um determinado material, de forma que sua apresentação fique clara, com bom contraste e com tamanho de fonte não muito grande.

Essa técnica é usada apenas em casos específicos, pois é melhor usar as possibilidades de adaptação do computador, colocando uma letra mais legível para crianças com problemas de visão e suprimindo os fundos e contrastes ruins.

Gravação

As gravações são uma boa maneira de levar informações a alunos com deficiência visual. Trata-se, portanto, de transcrever oralmente os materiais para que os pequenos possam acessá-los pela via auditiva.

Embora o principal problema desse método seja que nem tudo pode ser registrado, como os conteúdos de matemática, física, química, etc.

Sistema braile

O braille é um sistema de pontos em relevo que se baseia na combinação de seis pontos distribuídos em uma pequena célula. Nesse caso, os materiais devem ser transcritos e adaptados para que possam ser percebidos pelo tato.

Mas nem sempre tudo pode ser adaptado, então a decisão de usá-lo ou não vai depender do tipo de informação ou do exercício. Além disso, para utilizar esta ferramenta, é necessário que a criança domine e conheça o braile.

Ilustrações em relevo

Outra forma de adequar o material para crianças com deficiência visual é por meio do uso de ilustrações em relevo para que o aluno, por meio do tato, tenha uma imagem global das informações.

Para realizar esta adaptação corretamente, uma série de considerações deve ser levada em conta:

  • Tamanho: deve ser abarcável entre as duas mãos, abrangendo toda a informação e podendo discriminá-la facilmente.
  • Simplicidade: tem que ser monotemático e com diferentes texturas e alturas.

Outras adaptações necessárias

Além de adequar os materiais escritos, também é necessário adequar o ambiente, por isso uma série de medidas devem ser tomadas quanto às mudanças físicas na sala de aula e na escola, como:

  • Ter uma mesa com espaço suficiente para manusear o material específico.
  • Organizar os elementos de forma fixa e estável e avisar em caso de alterações.
  • Eliminar obstáculos e barreiras arquitetônicas que impeçam a acessibilidade.
  • Fornecer iluminação adequada.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Pedagoga fala sobre estratégias de ensino para crianças com deficiência intelectual

Danúbia Silvestre explica que adaptar práticas pedagógicas e trabalhar o emocional é essencial

Por Lucas França com Tribuna Independente

A inclusão de crianças com necessidades especiais na escola é um direito já garantido por lei. Mas muita gente acredita que o aluno com deficiência intelectual (DI) não é capaz de aprender. Porém a pedagoga Danúbia Silvestre afirma que isso não é verdade. Ela ressalta que há estratégias de ensino que facilitam a aprendizagem desses alunos.

“Mesmo que esses alunos tenham atrasos cognitivos, eles são capazes de aprender, desde que a escola e os professores considerem suas dificuldades. Existem práticas pedagógicas que possibilitam maior interação trabalhando o emocional e mostrando que são capazes – podem até demorar mais para aprender e se alfabetizar do que outras crianças da mesma idade, no entanto elas precisam estar nesse espaço de ensino para se desenvolver”, comenta Danúbia Silvestre.

De acordo com a pedagoga, as crianças com deficiência intelectual têm dificuldades nas interações por não compreendem bem os códigos sociais.

“Um fato que chamamos a atenção é que, na maioria das vezes, essas crianças são muito dependentes dos pais ou de pessoas adultas que lhe ajudam a decifrar os sinais sociais. Mas cabe ressaltar que deficiência intelectual não é uma doença – e, por isso, não tem cura e sim níveis. É uma condição que pode ter diferentes causas. Ou seja, a escola e o professor devem inserir práticas para as diferentes necessidades desses alunos. E o trabalho multidisciplinar, com apoio do corpo escolar e contato direto com a família, é essencial”, ressalta a pedagoga.

Para Silvestre, um desafio na educação é justamente incluir esses alunos nas escolas regulares.

“Infelizmente ainda existe preconceito por parte da comunidade escolar e, às vezes, na verdade, a própria família dessas crianças, no intuito de proteger, acaba atrasando ainda mais o aprendizado que elas podem adquirir dentro de uma sala de aula e também o contato com outros estudantes. Há desafios que precisam ser superados. Muitas escolas acabam limitando ou até não aceitando esses alunos, infelizmente faltam meios e projetos pedagógicos, pois a inclusão de alunos com deficiência intelectual requer adaptações curriculares, ou mesmo das práticas pedagógicas para que seja efetiva”, pontua.

Danúbia afirma que é essencial desenvolver um plano de aula que considere as características do aluno. “Qualquer criança, com DI ou não, consegue aprender melhor quando encontra significado no que está sendo ensinado’’.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Quando a escola se adapta às crianças que precisam de atenção especial

Polos de Atendimento Educacional Especializado (AEE) reforçam, no contraturno, a educação especial

 

ração com as crianças é algo natural e ela aprende muito; ao mesmo tempo em que nos ensina. Agradeço à Prefeitura por todo apoio educacional para o desenvolvimento da Marina”, citou Glaci Vieira Cascaes Frederico.

Além das aulas regulares, Marina frequenta também o Atendimento Educacional Especializado (AEE). São 18 polos na rede municipal de ensino para disponibilizar, no contraturno escolar, suporte às crianças e aos estudantes público da educação especial.  “No AEE, identificamos as necessidades de cada aluno e elaboramos e organizamos recursos pedagógicos para o desenvolvimento deles”, citou a professora do polo AEE da EBM Albertina Krummel Maciel, Márcia Godinho Sandri.

Os serviços do AEE são voltados para alunos com deficiência intelectual, visual, auditiva, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e estudantes com altas habilidades/superdotação. Atualmente, 420 crianças e estudantes frequentam o AEE em São José.

Atividades lúdicas que favoreçam as habilidades cognitivas, funções executivas, a atenção, a concentração e a memorização são exemplos de atividades desenvolvidas no AEE. João Vitor da Rosa Barbosa, de 12 anos, conta que adora o AEE. “Aqui eu brinco de quebra-cabeça, massinha, jogos. Até lembro a minha mãe no dia que tem Márcia”, opinou o jovem, diagnosticado com TEA.

Atuação além do assessoramento estudantil

Profissionais especializados com formação em Pedagogia e complementação em Educação Especial coordenam os trabalhos nos polos do AEE. Esses profissionais orientam e assessoram os pais e os profissionais da unidade escolar. Identificam e elaboram estratégias pedagógicas, flexibilizando o currículo e adaptando ou adequando os materiais que possam contribuir para aprendizagem. Com esse trabalho, potencializam o desenvolvimento da autonomia dos estudantes público da educação especial e contribuem no processo de inclusão, permanência e escolarização dos estudantes.
Favorecendo assim condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular, garantindo serviços especializado de acordo com as necessidades individuais dos alunos público da educação especial. “Com nosso olhar atento, também temos habilidade para observar os alunos com possíveis deficiências e assim fazer os encaminhamentos, chamamos a família para conversar e orientar, juntamente com os professores regentes e de disciplina, bem como com a equipe pedagógica da escola”, detalhou a professora Márcia.

Assim que a professora Márcia iniciou os trabalhos na EBM Albertina Krummel Maciel, o número de crianças atendidas no AEE saltou de 11 para 36 (2018-2019). “O diagnóstico precoce é fundamental para o acompanhamento efetivo”, frisou Márcia.

Para o diretor Carlos Eduardo Vieira Areas, a escola precisa contribuir também com a inclusão social. “O papel da escola vai além do pedagógico. A gestão escolar envolve todos: profissionais, pais, alunos e comunidade escolar. Cabe a nós fazemos todas as adaptações necessárias, analisando as peculiaridades de cada um para que o aluno se sinta bem aqui na escola”, ponderou.

A professora Márcia reforçou: “não é a criança que tem que se adaptar à escola. É a escola que tem que se adaptar à criança. A gente trabalha muito isso. Independentemente de ter laudo com diagnóstico ou não, todos são nossos alunos”.

Planejamento

Com o aumento do número de crianças e de estudantes que são público da educação especial e para aprimorar ainda mais o atendimento, a Secretaria Municipal de Educação planeja ampliar para 20 o número de polos de AEE para o ano letivo 2023.

A Prefeitura de São José também está projetando a construção do Centro de Atendimento Multiprofissional em Educação Especial (CAMEE). “O Centro terá ações conjuntas entre as secretarias municipais de Educação e de Saúde para o desenvolvimento integral aos estudantes da educação especial da rede municipal de ensino de São José”, explicou a secretária municipal de Educação, Ana Cristina Hoffmann.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Como ajudar as crianças a compreender a deficiência

Conversar com as crianças sobre deficiência é dar a elas ferramentas para caminhar em direção a uma sociedade mais tolerante e igualitária

soumamae.com.br

As perguntas começam com um simples “Por quê?” ou “O que aconteceu com ele?” E, automaticamente, certos desconfortos são desencadeados no mundo adulto. Por que a deficiência preocupa tanto? Talvez seja porque está carregada de um imaginário ligado a uma diferença que é negativa e tem a ver com estigma. Neste artigo vamos contar como ajudar as crianças a compreender a deficiência.

Na mente da criança, há simplesmente algo que se destaca porque parece diferente. Trata-se de uma curiosidade que busca respostas, mas que faz parte desse espírito de exploração do mundo. No entanto, as respostas que nós, adultos, damos determinarão muito da atitude que esses pequenos assumem em relação à deficiência. Afinal, sabemos o grande peso que a socialização tem desde cedo. A sociedade atual exige de nós maior tolerância e mais respeito e compromisso com os direitos humanos.

Como falar com as crianças sobre deficiência

Em muitos casos, as crianças aprendem coisas quando são capazes de experimentá-las na própria pele. Portanto, além da fala, algumas dinâmicas podem ser promovidas para tornar o conceito mais acessível, embora a idade da criança deva sempre ser considerada.

Convide-as a pensar nas coisas que são difíceis para elas fazerem

Uma maneira simples de explicar a deficiência quando as crianças são pequenas é convidá-las a pensar nas coisas que são mais difíceis para elas. A deficiência tem uma certa semelhança, pois para realizar algumas atividades há dificuldades ou é necessário mais esforço ou até mesmo a ajuda de outros.

Assim, optou-se também por denominá-la diversidade funcional, com o objetivo de apontar que muitas pessoas aprendem a fazer as mesmas atividades, mas de forma diferente. Por exemplo, pintores sem braços são capazes de criar belas obras de arte usando os pés.


Educar as crianças sobre a deficiência por meio do brincar é uma boa opção para que elas possam identificar diferentes realidades.

Recriar uma situação através de um jogo

Na mesma linha, também podemos recriar um jogo onde impossibilitamos a criança de usar qualquer um dos seus sentidos ou qualquer parte do corpo. Por exemplo, fazer um desafio para resolver uma tarefa com os olhos vendados. O objetivo é que elas possam identificar outras realidades e simpatizar com elas.

Concentre-se nas semelhanças

Todas as crianças gostam de jogos, histórias e risos. Nesse sentido, uma boa opção é promover a convivência e a reaproximação. Tenha em mente que é muito importante educar pelo cuidado e não pelo medo.

Por exemplo, uma criança que usa cadeira de rodas pode correr. Então, vamos escolher um campo onde a cadeira dela não seja arruinada ou furada, mas não vamos parar de jogar por medo de que algo aconteça com ela. Dependendo da idade da criança, uma das formas de falar sobre deficiência pode ser por meio de histórias.

Exemplifique com conquistas de personagens ou celebridades

Dar exemplos de modelos ou pessoas famosas que se caracterizam por suas realizações e sua tenacidade é uma boa maneira de educar as crianças. Desta forma, será possível eliminar a ideia da deficiência como algo negativo e que é sofrido para promover uma imagem positiva e que permite realizar múltiplas atividades com os apoios necessários.

O que ter em mente ao falar sobre deficiência com crianças


É importante promover a empatia para que as crianças se relacionem naturalmente com as crianças com deficiência.

Algumas recomendações a ter em conta para abordar a questão da deficiência com crianças são as seguintes:

  1. Reveja seus próprios preconceitos. As crianças aprendem com os adultos e, na maioria das vezes, somos nós que transmitimos ideias carregadas de preconceito e ignorância. Em vez disso, além de refletir sobre como pensamos a deficiência, é conveniente responder “Não sei, vamos ver juntos”, quando não temos a resposta certa para suas perguntas curiosas. Explicações claras e simples devem ser dadas, ensinando respeito e não julgando os outros.
  2. Cuide de suas expressões e vocabulário. Muitas vezes, mesmo por ignorância, usamos termos que vêm carregados de uma certa conotação negativa. Por exemplo, “retardado” ou “deficiente”, entre outras, são palavras nocivas e tendem a abranger a pessoa, como se a deficiência fosse o único aspecto de sua vida.
  3. Promova a empatia e incentive as crianças a interagirem naturalmente com seus pares que têm deficiência por meio de brincadeiras.
  4. Seja o exemplo. Já sabemos que as crianças aprendem muitas coisas por observação e imitação. Portanto, sejamos os primeiros a ter comportamentos desejáveis. Por exemplo, não vamos deixar de convidar aquele colega com deficiência para a festa de aniversário. Em vez disso, vamos conversar com seus pais e perguntar como podemos facilitar sua presença. Talvez essa criança precise de algum apoio adicional, mas ela fará parte do grupo.

Vamos parar de enxergar a deficiência como um tabu

É importante ter em mente que, na maioria das vezes, o olhar social é mais incapacitante do que a própria deficiência. É essa distância entre nossos preconceitos e outras pessoas que gera mais sofrimento do que o fato de não poder ver ou não poder andar sem cadeira de rodas. As crianças tendem a ser mais ingênuas e ter uma visão mais despojada de estereótipos. Vamos aprender com elas, naturalizar as diferenças e promover a diversidade.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Pará deve incluir nas escolas acompanhamento especializado para alunos com deficiência

O Ministério Público do Estado obteve 21 liminares favoráveis para fornecimento de profissionais de suporte às crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras deficiências abrangidas por lei

Fabyo Cruz para oliberal.com
 

A Seduc realizou processo seletivo para o cargo com mais de mil candidatos. (Arquivo/Agência Brasil)

As escolas públicas municipais e estaduais devem incluir acompanhamento especializado às crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras deficiências abrangidas por lei. No período de janeiro a maio de 2022, o Ministério Público do Estado, por meio da 1ª Promotoria de Justiça da Infância e Juventude de Belém, obteve 21 decisões liminares favoráveis em ações civis públicas impetradas em desfavor das secretarias Estadual e Municipal de Educação.

Segundo o MPPA, as ações foram assinadas pela promotora de Justiça Síntia Quintanilha Bibas Maradei, titular da 1ª PJ da Infância e Juventude, com base nas diretrizes internacionais que tiveram a adesão do Brasil e na legislação brasileira recente. As demandas que chegaram à Promotoria são de pais ou responsáveis de alunos com TEA e outras deficiências que procuraram o MPPA.

Em todos os casos foram enviados ofícios à Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e Secretaria Municipal de Educação (Semec), mas, como não houve retorno às demandas, foi necessário impetrar as ações, que resultaram na concessão das 21 liminares.

“O Brasil, por meio da Lei 12.764/2012, instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, de modo que passou a garantir à criança e ao adolescente com essa condição um profissional de suporte no âmbito escolar, mais precisamente, o ‘acompanhante especializado’, que mais tarde foi estendido a todas as crianças e adolescentes com qualquer outra deficiência por meio da Lei 13.146/2015, que instituiu a Lei Brasileira de Inclusão, trazendo significativas contribuições à educação especial”, destaca nas ações a promotora de Justiça Síntia Maradei.

Nas ações o Ministério Público do Estado enfatiza que a política brasileira de educação deve assegurar um sistema inclusivo em todos os níveis, organizado para favorecer a todos os alunos, indistintamente, ou seja, reconhecendo a diversidade das pessoas, de forma que não é o aluno que deve se adaptar à escola e sim a escola que deve ser adaptar ao aluno.

Ainda de acordo com o MPPA, esse sistema é universalizado para atender à norma constitucional da educação como direito de todos e dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade. Assim como determina ser dever da família, da sociedade e do Estado, garantir o direito à saúde e à vida à criança com sua absoluta prioridade.

“Em última análise, a educação inclusiva é a educação de boa qualidade para todos, podendo ser obtida pela adaptação da escola quanto ao transtorno da criança, no sentido de garantir que seja efetivado os direitos fundamentais da criança de saúde e de educação, visando ainda a garantia da proteção do princípio do melhor interesse da criança no caso concreto”, conclui Síntia Maradei.

Por meio de nota, a Seduc informou que “realizou processo seletivo para o cargo de apoio escolar/cuidador. Mais de mil candidatos foram habilitados, estão em processo de contratação e serão chamados conforme as necessidades da Secretaria”. A reportagem solicitou posicionamento para a Semec, mas ainda não obteve retorno.

 

quarta-feira, 6 de abril de 2022

No Dia do Autismo, mães lamentam ausência de educação inclusiva

Em Vitória, Serra, Vila Velha, Cariacica e na rede estadual, direitos dos autistas continuam letra morta

FERNANDA COUZEMENCO para o seculodiario.com.br

No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, comemorado todo dia 2 de abril, mães de crianças e adolescentes com essa condição de saúde lamentam que um dos principais direitos garantidos a seus filhos, a educação inclusiva, continua sendo letra morta, dez anos após a legislação específica sobre o assunto, a Lei Federal n° 12.764/2012 (Lei Berenice Piana), que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista [TEA]. 

O TEA é caracterizado por um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta principalmente a comunicação e o comportamento. Segundo o Ministério da Educação, atinge cerca de dois milhões de pessoas no Brasil e 70 milhões no mundo, atualmente. Por meio da Lei Berenice Piana, "o gestor escolar, ou autoridade competente, que recusar a matrícula de aluno com transtorno do espectro autista, ou qualquer outro tipo de deficiência, será punido com multa de três a 20 salários mínimo". 

A punição legal expressa para a negativa de matrícula foi fundamental para que as crianças e adolescentes pudessem integrar formalmente as redes de ensino. Na prática, no entanto, o que infelizmente as famílias relatam é que, apesar da presença física nas salas de aula, a inclusão efetiva está longe de acontecer, o que faz com que muitas cheguem a abandonar os estudos por absoluta falta de condição de continuar a frequentar o ambiente escolar, que torna-se excessivamente tóxico, em muitos casos, levando até a tentativas de suicídio

"É frustrante para uma mãe levar seu filho na escola sabendo que ele vai ficar jogado, sem interagir com a aula, com as outras crianças. E tem os casos das crianças mais arredias, como o Samuel, em que ou a mãe fica lá com a criança dentro da sala, ou não leva para escola. Nossos filhos são invisíveis", desabafa Fátima Neves, mãe de uma criança autista de quatro anos, matriculada na Unidade Municipal de Educação Infantil (UMEI) Normília da Cunha, em Jabaeté, Vila Velha.

No município canela-verde, o coletivo Mães Eficientes Somos Nós (MESN) começa a fazer suas primeiras mobilizações, depois de um histórico de luta na rede municipal da Serra, onde a maioria das mães reside e já conseguiu audiência com o prefeito, Sergio Vidigal (PDT), além da rede estadual de educação, que também tem sido debatida em Grupos de Trabalho com encontros quinzenais, agendados após audiência das mães com o governador Renato Casagrande (PSB) e seus secretários de Educação e Saúde, Vitor de Angelo e Nésio Fernandes. Em todas, a situação de descaso e improviso é a mesma.

 Leia a matéria completa em seculodiario.com.br

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Alterações de Leitura e Escrita no TEA: Dicas Práticas

O texto de hoje fala sobre as alterações de leitura e escrita no Transtorno do Espectro Autista (TEA). O tema é voltado para o desenvolvimento e aprendizagem da leitura em crianças com autismo. As dicas são destinadas à orientação sobre o que fazer do ponto de vista da leitura.

A leitura como desafio

Ensinar uma criança com autismo a ler é um desafio. Mesmo que algumas delas já cheguem à escola sabendo ler e identificando visualmente as palavras; podemos perceber que muitas delas não adquiriram a habilidade de compreensão de leitura e de usar as palavras nos mais diversos contextos.

Estímulo imagético: um grande passo

A criança com autismo aprende melhor por meio de figuras e desenhos; e por meio de estimulação visual. É muito importante trabalhar palavras, letras e vocabulário por meio de figuras expressando ações, momentos, situações do cotidiano. Isso ajuda a desenvolver um vocabulário mais amplo.

Palavras que exprimam familiaridade

Outra dica é usar palavras que remetam a objetos, pessoas e locais que a criança com autismo tenha interesse. É importante que tais expressões sejam associadas a esses meios de interesse e, com isso, vocês façam a ligação dessas palavras que estejam direta ou indiretamente relacionadas. Tudo no passo a passo, sem pressa.

Métodos que auxiliem o aprendizado

É muito importante desenvolver métodos, meios e formas que ajudem a criança a desenvolver as habilidades fonológicas dela e os processos de decodificação envolvendo sons e letras.

Além disso, pode-se buscar métodos como a metodologia fônica (com palavras de interesse delas) para que o pequeno aprenda a soletrar, a separar as sílabas e tenha a consciência fonológica. Isso é essencial para que a criança consiga decodificar letra e sons de seu interesse, mas também associar letras e sons com outras formas de escrita.

Utilize referências que trabalhem o contexto do pequeno

Que tal trabalhar o vocabulário dentro do contexto dessa criança? Contudo, a intenção é ampliar esse vocabulário. Outra dica é passear com a criança no parquinho e em ambientes diversos: padaria, supermercado, festas; lugares que estimulam a brincadeira e a interação social. Com isso ela vai memorizando essas palavras novas, enriquecendo o repertório dela.

Memorizando regras ortográficas

Incentivem, na prática, formas de memorizar as regras ortográficas, usando rotas repetitivas para que a criança com autismo tenha essa sequência criada na mente delas. Com essas rotas você pode trabalhar com cores e figuras, utilizando jogos ou tablets (as crianças com autismo se dão muito bem com esses estímulos visuais).

Importante saber

– Para crianças que não fazem o traçado das letras, o tablet pode ser uma ferramenta fundamental para alfabetizar e desenvolver a escrita. O próprio aparelho oferece formas de escrita manual.

– Para casos de autismo associado à hiperatividade é preciso medicar essa criança a fim de ajudar na atenção e fazer reduzir a hiperatividade dela. O próximo passo é trabalhar com coisas altamente motivadoras para o pequeno.

– Por meio de fotos da família, a criança pode fazer relações sociais com as fotografias. Existem métodos de photovoice (utilizar fotos familiares para trabalhar capacidade e competência social). Por meio das fotos ela começa a ter noção de história social e pode trabalhar o som de letra também.

Fonte: NeuroSaber

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Alunos com deficiência ganham atenção especial da Prefeitura de São Gonçalo, RJ

Segundo o Executivo, as atividades desenvolvem coordenação motora e parte cognitiva

odia.ig.com.br

Para a mãe do Miguel Rosa, Lusimar Vidal, é nítido que o trabalho que está sendo feito com seu filho, desde o início do ano, tem dado resultados positivos. Ela ressalta a importância de também estimular a criança em casa, para ajudar ainda mais no desenvolvimento.
 
“Eu pude ver uma grande mudança no desenvolvimento dele. A escola é muito fundamental na vida dele. Eu consigo ensinar o básico, mas a escola tem essa orientação. Muitas coisas que foram feitas na sala, o Miguel foi aprendendo e eu fui estimulando em casa. Eu fiquei muito alegre, pois ele tem força de vontade, eu consigo ver isso nele, mesmo com a dificuldade, ele tenta fazer e consegue”, afirmou Lusimar Vidal.
 
A diretora Conceição Freitas entende que é difícil lidar com a expectativa dos pais, mas que é necessário que a escola e a família trabalhem em conjunto para que a criança tenha seu pleno desenvolvimento.
 
“Os pais chegam com uma ansiedade e uma angústia de que aquela criança se desenvolva como o filho do outro, e a gente aqui da equipe recebe esses pais com muito carinho. Nós sempre damos uma assistência até psicológica para a mãe, temos um carinho com a família, que tem o anseio que essa criança desenvolva tudo rapidamente, mas é um processo”, analisou Conceição Freitas.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

‘A nova política de educação especial é segregadora e excludente’

Em conversa com o Porvir, a empreendedora e jornalista Claudia Werneck fala sobre os desafios do ensino inclusivo; ela participa do evento “Educação e Protagonismo”, da Fundação Educar, que começa nesta terça-feira e tem inscrições gratuitas

por Ana Luísa D'Maschio para o porvir.orgente


Crédito: Reprodução do Facebook da Escola de Gente

O decreto que altera a política pública de ensino para crianças com deficiência, ao propor a separação dos alunos em salas e escolas especializadas, tem sido alvo de críticas de especialistas e estudiosos em educação inclusiva. Entre eles, está Claudia Werneck. Fundadora da Escola de Gente – Comunicação em Inclusão, a empreendedora e ativista em direitos humanos ressalta o caráter “segregador e excludente” dessa política.

Claudia é uma das convidadas do evento “Educação e Protagonismo”, promovido pela Fundação Educar. Nesta 16ª edição, que é realizada entre os dias 14 e 15 de setembro, com transmissão online e inscrições gratuitas, além das reflexões sobre inclusão e diversidade nas escolas, o encontro inclui temas como saúde mental e educação híbrida. Fazem parte do rol de palestrantes o educador colombiano Bernardo Toro e a atleta Rebeca Andrade, primeira medalhista olímpica de ouro da ginástica artística brasileira. Toda a programação é acessível, com intérprete de libras, audiodescrição e legenda simultânea.

Porvir conversou com Claudia Werneck sobre os desafios da educação inclusiva nos períodos pré e pós-pandemia. Confira:

Porvir – O direito à educação inclusiva é garantido tanto pela Constituição Brasileira quanto pela Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU (Organização das Nações Unidas). Esse direito foi mantido durante a pandemia?

Claudia Werneck – Não. Na verdade, ele foi ainda mais precarizado. O trabalho na Escola de Gente e em outras organizações aumentou muito neste período, porque nós sabemos que esse é um direito de qualquer criança, mas um direito indisponível.

Porvir – Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas pelos estudantes com deficiência e suas famílias durante a pandemia? Como a senhora avalia o papel da família na mediação desse processo de educação remota que ainda vivemos?

Claudia Werneck – É muito difícil analisar o tamanho da complexidade que as famílias, incluindo as crianças, viveram para garantir o direito à educação na pandemia. A educação deve ser inclusiva, mas nós sabemos que isso não aconteceu. A ONU [Organização das Nações Unidas] diz que mais de 80% das crianças com deficiência vivem na pobreza e, durante a pandemia, mal contaram com equipamento tecnológico, ou tinham celulares pouco potentes, sem wi-fi. A mistura da baixa conectividade com a falta de acessibilidade nos projetos educacionais que conseguiram ser mantidos tornou a vida de estudantes com deficiência a mais difícil possível, e suas famílias tiveram muita dificuldade para colaborar. É algo complexo e que nós não conseguimos, por mais que queiramos, atingir a magnitude do isolamento educacional, social, enfrentado por essas famílias com suas crianças.

Crédito: Joe Winter Claudia Werneck, idealizadora da Escola de Gente

Porvir – Qual é o primeiro passo para tornar a comunicação mais inclusiva dentro da escola e na sociedade? É algo que depende mais de uma postura individual ou está associado a políticas?

Claudia Werneck – A comunicação inclusiva é aquela que por natureza é acessível. Ela deve ser acessível cotidianamente, na sala de aula, no recreio, nas excursões, no online e no digital, na forma como essa escola se comunica com a família… Se a família é analfabeta e a escola só se comunica por textos escritos, por exemplo, isso faz com que a escola não se torne inclusiva. Não há educação inclusiva sem comunicação inclusiva – e não há comunicação inclusiva sem comunicação acessível. Tudo depende de política pública, de investimento para acessibilidade e investimento para a inclusão. Mas, ainda assim, é preciso que as pessoas acreditem que a comunicação acessível é algo que garante a participação de todas as pessoas, independentemente das suas funções na escola, e em qualquer processo.

Porvir – Qual é o papel da escola e dos professores nesse processo?

Claudia Werneck – A profissão do professor e da professora é a mais decisiva na vida de uma pessoa. É quem nos alfabetiza, quem dá a medida da autoestima social de uma criança muito mais do que simplesmente acompanhar o processo de alfabetização. O professor e a professora são decisivos, mas eles não podem arcar com todos os compromissos isoladamente. Eles estão dentro de um sistema e todo esse sistema tem de vibrar na lógica, no orçamento, na postura e na prática da inclusão cotidianamente.

Porvir – Até onde a tecnologia foi suficiente para manutenção do vínculo com a escola e de uma rotina de aprendizagem e desenvolvimento?

Claudia Werneck – As tecnologias têm uma ética própria e raramente essa ética é inclusiva, porque as tecnologias não são acessíveis no sentido de garantir a liberdade de expressão e o direito de se comunicar, e de ser comunicado, para todas as pessoas, principalmente àquelas que têm deficiência. Acho que a tecnologia contribuiu, foi até a salvação para muitas pessoas, mas ela foi a salvação para um mesmo grupo homogêneo de pessoas. Quem estava excluído ficou ainda mais excluído com uma tecnologia que sempre se preocupou em manter as mesmas pessoas.

Porvir – Especialistas temem que a nova política de educação especial possa gerar segregação. Qual é a sua opinião a respeito?

Claudia Werneck – O que se pretende que seja uma nova política de educação especial é eminentemente segregadora e excludente, incompatível com qualquer projeto de inclusão. A Constituição garante que não se pode escolher crianças quando falamos sobre direito à educação. A Constituição não permite isso e eu sou uma pessoa que segue a Constituição.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Educação inclusiva para que te quero?

Após suspensão do Plano Nacional de Educação Especial (PNEE), importância da inclusão de alunos com deficiência volta ao centro do debate educacional

Por Tamyres Matos para o Maré de Notícias

Instituto Helena Antipoff, na Tijuca, é referência municipal no processo de inclusão de alunos com deficiência
Foto: Divulgação

Pensar a diversidade é pensar a vida e o tema é cada vez mais frequente nas discussões sobre como podemos avançar enquanto sociedade. A inclusão da pessoa com deficiência no ambiente escolar é uma das pautas relevantes neste contexto. O assunto voltou ao centro do debate educacional desde a instituição da Política Nacional de Educação Especial (PNEE) em setembro de 2020. Em dezembro do mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu o decreto e as discussões sobre a legislação têm se arrastado desde então. Recentemente, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, saiu em defesa do conjunto de medidas e criticou o que chamou de “inclusivismo” presente nas críticas.

Milton Ribeiro afirmou em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, que a convivência com crianças em graus específicos de deficiência poderia “atrapalhar” o desenvolvimento nas escolas regulares. “A palavra ‘atrapalhar’ não é a melhor, a gente se equivoca, mas um prejudica o progresso do outro. A criança com deficiência tem que ter um olhar e um cuidado especial e é isso que o nosso governo quer ter, nosso governo quer ter um cuidado especial para com a criança com deficiência”, declarou durante evento realizado em agosto pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes).

Segundo a organização internacional Human Rights Watch (em tradução literal, Observatório dos Direitos Humanos), mais de 1,3 milhão de brasileiros com deficiência estão matriculados no sistema regular de ensino. “O Plano do presidente Jair Bolsonaro pretende criar um sistema educacional segregado para pessoas com deficiência, enfraquecendo a educação inclusiva e buscando uma política retrógrada e incompatível com as obrigações internacionais de direitos humanos do Brasil”, critica texto publicado em agosto no site da organização. 

O Governo Federal nega que a PNEE represente qualquer movimento de segregação. O decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro aponta que o Estado precisa oferecer “instituições de ensino planejadas para o atendimento educacional aos educandos da educação especial que não se beneficiam, em seu desenvolvimento, quando incluídos em escolas regulares inclusivas e que apresentam demanda por apoios múltiplos e contínuos”.


Ministro da Educação, Milton Ribeiro, durante participação no programa A Voz do Brasil
Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

Diversos especialistas em educação argumentam que a alteração representa um retrocesso nas décadas de luta pela inclusão social da pessoa com deficiência, além de apontar que o novo decreto pode afastar este público da possibilidade de frequentar as escolas regulares. O ministro da Educação contra-argumentou que a escolha do local da matrícula segue sendo dos pais. Após a divulgação de nota com pedido de desculpas a respeito da utilização do termo “atrapalhar”, ele voltou a abordar o tópico ao afirmar que, dependendo do grau de deficiência, algumas crianças “criam dificuldades para elas e outros alunos”.

Para a pedagoga pós-graduada em educação infantil e transtorno do espectro autista Ligia Maria Santos do Nascimento, moradora da Vila do Pinheiro, a reflexão contida nas palavras do ministro – antes e depois da nota com pedido de desculpas – não condiz com a realidade. “Jamais uma criança com deficiência atrapalha. O que atrapalha é o preconceito das pessoas em relação  a esse assunto. Toda criança tem o direito de estudar em classes regulares, por isso que estamos na luta, principalmente para que haja respeito”, considera.

Ligia é autora do livro “EU SOU ASSIM: ‘Vejo o mundo de uma forma diferente”, fruto do contato em sala de aula com crianças e adolescentes autistas em diferentes graus, mas, em especial, com um aluno cuja trajetória compartilhou durante 5 anos. “Com o meu livro, eu quis dar voz ao meu aluno. Meu objetivo era ajudar as pessoas a compreender os processos de uma criança autista. Ajudar a entender porque elas agem de tal forma, pois eu quero contribuir para que tenhamos uma sociedade com um olhar sensível, que as pessoas possam ser mais tolerantes, tenham mais empatia antes de julgar e excluir. O que eu almejo é que tenhamos menos dedos apontados e mais mãos estendidas”, conclui a escritora.

Luta pela inclusão na Maré

Lotado no Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) Ministro Gustavo Capanema, na Vila do Pinheiro, o professor Luiz Costa, de 62 anos, morador do Morro do Timbau, é um dos especialistas que discordam da visão do ministro. Para o docente, Milton Ribeiro foi “infeliz e cruel” em suas falas. “O trabalho de inclusão não só é benéfico para quem é incluído, mas também para quem acolhe. Às vezes entender as diferenças demanda sutileza, se você olhar nos olhos da pessoa com dificuldade de comunicação, se você se ver dentro dos olhos dela, você vai entender que ele está te vendo, que está reagindo. A criança, quando se depara com esses desafios, se desenvolve, a humanidade fica muito mais potente”, acredita.

Com experiência de 40 anos no magistério, Luiz Costa é um velho conhecido da educação “especial”. O professor e psicólogo, inclusive, tem boa parte da sua atuação voltada para o atendimento de crianças que não têm como se locomover até a escola. Em sua rotina normal – interrompida pela pandemia -, uma vez por semana, o professor vai até cada um dos sete alunos da Maré que atende e dá 2 horas de aula. Mas essa atividade voltada às excepcionalidades não o conduz à defesa da construção de classes ou mesmo escolas que separem alunos com deficiência de alunos sem elas. 


Especiais da Maré: antes da pandemia, grupo de familiares de pessoas com deficiência encontravam-se em Vila Olímpica para trocar experiências | Foto: Douglas Lopes

“A gente (profissionais da educação) precisa se reinventar e, num primeiro momento, tem uma dor de aprendizado. A faculdade não nos forma para isso. Mesmo no caso da psicologia, minha formação não era aprofundada para a prática. Quando a gente mergulha no tema, começa a entender que a pessoa com paralisia cerebral, por exemplo, tem uma pulsão de vida incrível. Ao deixar que ela nos acolha, a gente é acolhido. Quando a criança ou adolescente nos acolhe, é algo que mexe muito com a gente, nos faz crescer como seres humanos. Existe uma diferença na forma de aprender, na forma de acessar o mundo. E isso não atrapalha, isso ensina a todos”, afirma.

Para o professor, as restrições da pandemia têm representado perdas significativas na evolução de todas as crianças. “A escola ficou com atendimento remoto para alguns, aqueles que têm mais recursos. No caso das crianças com deficiências severas, nossa atenção se voltou para as campanhas de doação. Especialmente nos casos dos alunos cujos pais estão sem emprego. Além disso, temos casos de equipamentos públicos que foram abandonados durante a pandemia, como é o caso do Ciep Elis Regina e da Vila Olímpica. Muito tempo sem a presença de alunos e pouca ou nenhuma obra de manutenção realizada”, critica.

Luiz conta, ainda, que trabalha com a arrecadação de recursos para as famílias em maior vulnerabilidade, como fralda, leite, cadeiras de rodas, entre outros tipos de suporte. Para ajudar, qualquer pessoa pode entrar em contato com o grupo Especiais da Maré.“Quando você ajuda a cuidar de alguém que não pode ou tem dificuldades de se cuidar sozinho você melhora a vida do seu entorno”, diz.

Segundo o Censo Populacional da Maré de 2019, há 1.670 domicílios em que há pelo menos um morador que seja uma pessoa com deficiência, o que corresponde a 3,5% da população das 16 favelas. No caso do Brasil, essa porcentagem chega a 6,2%, mas as bases de cálculo são diferentes. O documento, iniciativa da Redes da Maré em parceria com o Observatório de Favelas, aponta que “o problema maior é que as condições precárias de acessibilidade e de limpeza urbana, de acesso a equipamentos e profissionais de saúde, de renda e outros fatores geram dificuldades severas para a garantia do direito de ir e vir das pessoas em situação mais grave de deficiência e/ou transtorno”. A Maré conta com 48 escolas públicas, que oferecem da creche ao ensino médio.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Escola usa até alarme musical para inclusão de alunos com deficiência

Folha acompanhou aulas em unidade da rede municipal de SP; estrutura e professores fazem a diferença

 Angela Pinho para a Folha de S.Paulo
 
São Paulo - São 7h quando toca o alarme de início das aulas, e a diretora Lisandra Pingo se apressa em explicar: "Deu problema ontem com a música, já chamamos alguém para arrumar".

Música? Sim, já há algum tempo a escola municipal Irineu Marinho, na região do Ipiranga (zona sul de São Paulo), trocou o incômodo sinal sonoro por uma canção para demarcar o tempo sem incomodar alunos com autismo que, muitas vezes, têm hipersensibilidade auditiva.

Do alarme ao banheiro, do material aos livros, tudo ali foi pensado para possibilitar que alunos com qualquer deficiência aprendam junto com alunos sem nenhuma deficiência.

A experiência da escola mostra que a inclusão é possível em uma unidade comum da rede municipal desde que haja estrutura e profissionais capacitados.


Pedro, 14, ao lado da professora Vanessa Albano, que o auxilia na aula de ciência / Danilo Verpa/Folhapress

Mesmo que algo não funcione, como o alarme naquela manhã, a ideia é que todos estejam juntos, mesmo que seja necessária uma adaptação, e não juntos só depois que tudo estiver funcionando perfeitamente.

O debate sobre a inclusão de alunos com deficiência em classes regulares ganhou força após a declaração do ministro da Educação, Milton Ribeiro, de que algumas crianças com deficiência “atrapalhavam entre aspas” o aprendizado de outros alunos na mesma sala de aula.

Defensor de classes especiais para crianças com deficiência mais grave, ele afirmou que elas não aprendem nas salas comuns.

“Esses 12% [de alunos], elas são, realmente, elas se atrapalham mutuamente. Nem uma ouve, nem o outro entende. Porque uma criança, por exemplo, com um grau muito elevado de um tipo de problema, essa criança não consegue aprender”, declarou.

Na Emef Irineu Marinho, as declarações causaram indignação.

“Ao pensar na criança com deficiência, o problema é pensar que existe um problema, porque não existe problema nenhum”, diz a diretora. “A limitação, se existe, está fora da criança, de não oferecer o que ela está necessitando. Porque todos nós temos limitações.”

Desde meados dos anos 2000, a política nacional para a educação especial prevê que alunos com deficiência estudem preferencialmente em classes regulares, se necessário com atendimento especializado no contraturno.

Antes, a maioria deles ou estudava em instituições e turmas separadas ou mesmo estava fora da escola.

De 2010 a 2020, as matrículas de educação especial quase dobraram, chegando a 1,3 milhão. Quase 90% desses alunos estudam em salas regulares.

Pesquisas mostram que a integração é vantajosa para os dois grupos. Alunos sem deficiência desenvolvem maior respeito e abertura ao novo. Alunos com deficiência têm acesso a um repertório maior do que teriam em uma instituição especializada e, integrados, têm até mais chance de acesso ao ensino superior.

Leia a matéria completa em Folha de S.Paulo

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Inclusão é o único caminho

Mais de 12 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência. A construção de um ambiente educacional para todos é um compromisso que o Brasil assumiu há décadas, embora ainda existam os que os inferiorizam negando-lhes um futuro

Ana Lúcia Villela para o EL PAÍS Brasil


Uma menina com síndrome de Down com a professora. GETTY.

Assim que Renata Basso chegou ao mundo, uma médica se virou para a família da bebê e disse: “Só não vou prometer que [no futuro] ela vai fazer uma faculdade”. E ponderou: “Mas eles são muito inteligentes”. As frases foram lembradas pelo pai da criança em uma das cenas do documentário Outro Olhar - Uma Nova Perspectiva. Peço que as palavras da médica sejam lidas novamente não por presumir descuido de quem lê, mas para que o leitor dê a elas o peso para o que de fato são. O que houve nesse nascimento para que a família recebesse, de partida, a previsão de tantas negativas? Por que atribuir falta de capacidade e apontar baixas expectativas a uma criança que acaba de nascer?

Mais de 12 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência, segundo o IBGE. Renata, que tem síndrome de Down, faz parte dessa estatística. O filme conta sua história no momento em que a jovem conclui o ensino médio na escola comum. A construção de um ambiente educacional para todos é um compromisso que o Brasil assumiu há décadas. Com a Constituição de 1988, o país passou a estabelecer a educação como um direito de todos e a garantir a igualdade de condições de acesso, permanência na escola e progressão aos níveis superiores de educação.

Em 2008, esses direitos se reafirmaram com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, que consolidou o paradigma da inclusão ao valorizar as diferenças na escola. Já a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, que tem status de emenda constitucional no país, determinou o acesso às pessoas com deficiência ao ensino inclusivo “em igualdade de condições com os outros”.

Se há os que acreditam que algumas pessoas, por conta de suas características, não são capazes de acessar a educação básica e, muito menos, o ensino superior, é porque ainda persiste um entendimento de mundo que inferioriza sujeitos pela deficiência ou outros atributos. Com essa compreensão limitada, passam a achar que a sociedade pode ser dividida entre os que podem ou não aprender; os que merecem ou não a nossa aposta.

O que essas pessoas não sabem é que todos ganham com a inclusão, como revela pesquisa de 2016 do Instituto Alana e da ABT Associates, coordenada por Thomas Hehir, da Harvard Graduate School of Education. A análise, que fez uma revisão sistemática de estudos de 25 países, mostra que a inclusão melhora o desempenho acadêmico dos estudantes e abre a possibilidade de a escola ser um espaço de criação, porque cria oportunidades de aprimoramento de práticas pedagógicas.

Vale lembrar que as conquistas legais no campo dos direitos das pessoas com deficiência apoiaram a progressão desses jovens no ensino superior. Porém, os números estão aquém do total de pessoas com deficiência e na proporção com os demais estudantes, indicativo que muitos ainda enfrentam baixas expectativas sobre suas trajetórias de vida e escolar. Felizmente, a maior parte dos brasileiros reconhece que não há caminho fora da inclusão: 86% acreditam que as escolas se tornam melhores ao incluir crianças com deficiência, mostra pesquisa do Datafolha de 2019 encomendada pelo Instituto Alana.

Esses dados poderiam servir de baliza para tomadas de decisão em momentos críticos como agora. O Decreto 10.502/2020, que abre margem para escolas exigirem avaliações para estudantes com deficiência efetuarem matrícula na escola comum, é, atualmente, uma das principais preocupações de nós, que nos comprometemos com a construção de um mundo que garanta a participação de todos. A escola é lugar de oportunidades e não de avaliação de capacidades. São anos de histórias bem sucedidas, com pesquisas apontando o que fazer para melhorar, no entanto, tivemos que interromper os esforços para combater retrocessos e proteger o que já é de direito das crianças.

A boa notícia é que a construção dessa realidade em que ninguém é deixado de fora resiste e pulsa em escolas pelo Brasil e continua sua trilha no mercado de trabalho. Aspectos como motivação da equipe podem ser impactados positivamente quando há colaboradores com síndrome de Down nas empresas, mostra um estudo de 2015 da consultoria McKinsey & Company em parceria com o Instituto Alana.

No Alana apostamos em contar histórias como a de Renata para ampliar o olhar do público em temas tão urgentes como a inclusão. Neste semestre, lançaremos “Um Lugar para Todo Mundo”, uma investigação de histórias de famílias que lutam pelo direito de seus filhos frequentarem uma escola que não os separa de outras crianças por conta de suas características. Esse é um novo convite para atuarmos, juntos, por uma educação de qualidade para todos, mas para cada um também. Só assim poderemos avançar.

No filme sobre Renata, a jovem expressa a vontade de ser atriz. O meu desejo – e o compromisso que assumimos como país – é que ela e todas as pessoas com deficiência possam crescer em um mundo em que possam ser tudo o que quiserem, sem que ninguém tire sua potência e determine seu destino ao nascer ou ao longo da vida.

Ana Lúcia Villela é fundadora e presidente do Instituto Alana

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

É possível incluir? Quatro escolas mostram que sim!

por Ana Luiza Basilio para cartacapital.com.br

Sem dúvidas, a questão da inclusão escolar deve ser avaliada sob a ótica da política pública. É necessário um compromisso do Estado para que as unidades escolares disponham dos recursos necessários para ofertar uma educação em condição de igualdade para todos.

Ainda assim, algumas escolas já vêm desenvolvendo trabalhos significativos nesse sentido, promovendo a releitura de seus espaços e práticas para que as ações pedagógicas se deem com base na diversidade humana e, portanto, deem conta das especifidades de cada indivíduo.

No Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, o Carta Educação apresenta a experiência inclusiva de quatro escolas que participam do programa Diversa, do Instituto Rodrigo Mendes. A iniciativa, que começou em 2012, tem como objetivo apoiar as redes de ensino no atendimento de estudantes com deficiência no ensino regular. Confira!

1. Identidade vs Preconceito

Este é o nome do projeto desenvolvido pelo Colégio Estadual Igléa Grollmann, localizado em Cianorte, no Paraná, desde 2013. Sua formatação coincidiu com a chegada de dois estudantes com deficiência na instituição, Maria Clara, que tem Síndrome de Down, no nono ano, e Luan, que apresenta transtorno do espectro autista (TEA), no sexto.

Para apoiar a integração dos alunos nas novas turmas e nos ambientes escolares, os professores e a equipe gestora apostaram na interdisciplinaridade como estratégia pedagógica, com total respaldo no projeto político pedagógico, que já tem como diretriz principal a apropriação de conteúdos para que os estudantes sejam capazes.

Por isso, todas as áreas de conhecimento se voltaram para a oferta de conceitos científicos sobre preconceito, discriminação, segregação e etnocentrismo, com o intuito de relacioná-los com as atitudes cotidianas.

Na turma de Maria Clara, as disciplinas se pautaram pelo material “Alterações cromossômicas do PAR 21 e o direito de ser e pertencer“, caderno pedagógico que traz sugestões de atividades e aspectos teóricos para embasar o trabalho com estudantes com Síndrome de Dowm.

Segundo relato da escola para a plataforma do programa Diversa, o material suscitou reflexões em todas as áreas. Em História, por exemplo, foram propostas discussões como: por que os mongóis medievais eram considerados bárbaros? O que significam os conceitos de barbárie, civilização e preconceito? O que você entende pelos termos mongol e mongoloide?

Em Geografia, explorou-se o espaço e o território da Mongólia. Em Ciências, foram aprofundados tópicos sobre DNA com discussões sobre a Trissomia 21. Nas aulas de Matemática, a educadora utilizou as estatísticas de pessoas com deficiência no Brasil para falar sobre tratamento da informação. Em Língua Portuguesa, os estudantes fizeram a leitura, interpretação e reescrita dos contos “A vida íntima de Laura” e “A vendedora de fósforos”, de Clarice Lispector. Por fim, para as atividades de Educação Física, os professores elaboraram jogos colaborativos e de socialização.

Para aprofundar as reflexões, ainda foram apresentados à turma os filmes, “O oitavo dia”, “Animais unidos jamais serão vencidos”, “Corrente do bem” e “Meu nome é Rádio”.

Com Luan, a estratégia pedagógica se baseou na interação social, com a oferta de atividades em equipe como danças, jogos e confecção de materiais.

2. Minitênis

A escola Terezinha Souza, em Belém (PA), driblou os desafios pedagógicos e os altos custos da modalidade escolhida como estratégia para promover a inclusão: o tênis.

A unidade partiu para a reutilização de materiais como giz, pneus usados, garrafas pet, tubos de PVC e fita adesiva para estruturar o minitênis e ofertá-lo aos estudantes do ensino fundamental.

Para atender às necessidades de doze alunos com deficiência – entre transtorno do espectro autista, deficiência intelectual, auditiva e múltipla e síndrome de Down e de Turner -, os professores de Educação Física se uniram aos de Artes e aos profissionais do Atendimento Educacional Especializado. A ideia era trabalhar para valorizar as potencialidades de cada estudante. (veja relato completo sobre a atividade)

As regras do jogo, que foi realizado em mini quadras demarcadas pelos próprios alunos, foram flexibilizadas a fim de acolher as diversas capacidades motoras.

3. Bocha inclusiva

A escola Municipal Dom Orione, em Belo Horizonte (MG), tinha como desafio incluir o estudante Pedro, 12 anos, que apresenta tetraplegia, nas aulas de Educação Física. Sem estratégias pedagógicas definidas, o aluno acabava ficando na companhia de um monitor ou na biblioteca enquanto os demais iam para a quadra poliesportiva.

A partir de uma formação inclusiva direcionada aos profissionais da unidade, se percebeu que participação do garoto poderia contribuir para sua formação geral e melhora em seus aspectos motores, cognitivos, afetivos e sociais.

A modalidade escolhida foi a bocha adaptada, estruturada a partir de adaptações no espaço, regras próprias e uso de bolas moldáveis, calhas e ponteiras.

O projeto partiu de três estratégias principais: criação de uma estratégia de comunicação para que todos pudessem se comunicar com Pedro; parceria com o programa Superar da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SMEL) de Belo Horizonte, que é referência em modalidades esportivas adaptadas, para criar as ações que seriam replicadas; e a implementação da bocha inclusiva nas aulas de Educação Física. (confira o relato completo da atividade)

4. Capoeira: esporte gingado

A capoeira inclusiva chegou à Escola Municipal Antônio Heráclio do Rego, em Recife, por uma parceria estabelecida entre Fernando de Melo, um aluno cadeirante, que já jogava capoeira em sua comunidade, e o professor Márcio Luiz de Matos, que já tinha dado aulas de capoeira em uma clínica psiquiátrica e topou o desafio de estender o trabalho à comunidade escolar.

Figuraram entre as estratégias de construção da atividade o envolvimento das famílias para que, juntamente com a comunidade escolar, superassem quaisquer preconceitos para com a prática; a oferta de uma palestra para abordar a história da capoeira, seus movimentos, a musicalidade e sua a importância para o desenvolvimento físico e mental, além da socialização; e a roda em si, que valorizou as potencialidades de cada um.


FERNANDO PARTICIPA ATIVAMENTE DA RODA DE CAPOEIRA.
CRÉDITOS: PAT ALBUQUERQUE

A atividade foi pensada em parceria com as profissionais do atendimento educacional especializado (AEE) e responsável por incluir Fernando, contribuir com a auto estima dos demais estudantes e quebrar as barreiras de idade e gênero, ainda muito presentes nas instituições.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Os gargalos da inclusão no Ensino Médio

 por tory para cartacapital.com.br

A pedagoga Soraya Rebouças, 48 anos, já trabalhava há dez anos com Educação Inclusiva quando seu filho nasceu com uma síndrome rara. Por escolha dela, Guilherme estudou em escolas regulares desde a Educação Infantil, perseverou e, hoje, aos 17 anos, é um dos 42,4 mil alunos com deficiência matriculados no Ensino Médio regular em todo o Brasil.

Guilherme está no 2º ano dessa etapa em um colégio particular em São Bernardo do Campo (SP), gosta das aulas de Literatura e pensa em seguir carreira na área de Humanas. Mesmo enfrentando problemas como o bullying de alguns colegas e o pouco tempo dos professores, a mãe considera que a experiência foi positiva para o filho.

“Hoje, ele é um menino que não tem vergonha de ser quem é. Isso foi a inclusão que deu para ele”, conta Soraya, que é também consultora na área e trabalha na rede municipal de São Bernardo como professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE).

Cada vez mais presentes nas salas de aula regulares nos ensinos Infantil e Fundamental, os alunos com deficiência ainda têm dificuldades para chegar ao Ensino Médio. Atualmente, são 42,4 mil alunos com algum tipo de deficiência física ou intelectual estudando em classes comuns do Ensino Médio público ou privado.

Contudo, embora o total tenha aumentado 219% entre 2007 e 2012, ainda é grande a defasagem na transição do Ensino Fundamental. Segundo dados preliminares do Censo Escolar 2013, elaborado pelo Ministério da Educação (MEC), em 2012 havia 485 mil alunos com deficiência frequentando o Ensino Fundamental.

Ediclea Mascarenhas Fernandes, professora da Uerj e coordenadora do Núcleo de Educação Especial e Inclusiva da universidade, explica que a passagem do Fundamental para o Médio é um ponto de estrangulamento já conhecido no sistema educacional, no qual há mais chances de os alunos – com deficiência ou não – abandonarem a escola.

“São pontos problemáticos para todos. Para o aluno com deficiência, esse é mais forte, pois ele precisa mais de apoio e de adequações curriculares”, explica. “E, infelizmente, não temos ainda nas escolas os apoios necessários para que eles possam cumprir seu progresso no sistema de ensino.”

A maior complexidade dos conteúdos trabalhados no Ensino Médio, a ênfase no vestibular e o grande número de professores são outros fatores que influenciam a baixa saída de alunos na última etapa da Educação Básica.

“A qualidade da educação para eles é ainda pior do que para os estudantes sem deficiência. Pela falta de suporte, acabam desistindo”, analisa Eniceia Gonçalves Mendes, coordenadora do programa de extensão em formação continuada da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial.

Outras barreiras de infraestrutura, como a falta de banheiros adaptados para cadeirantes e a ausência de intérpretes em Língua Brasileira de Sinais (Libras) para os surdos ou de orientadores de mobilidade para alunos com comprometimentos motores, também dificultam o acesso ao Ensino Médio. “Tudo isso está previsto na legislação. As políticas escritas nós já temos, o que precisamos agora é que elas sejam cumpridas”, defende Ediclea.

No entanto, algumas instituições relatam dificuldades para pôr em prática o trabalho de inclusão. Um desses obstáculos, alegado principalmente por escolas privadas, é o custo trazido pelos alunos com deficiência, que em geral demandam adaptações. Na Escola da Vila, centro de ensino particular em São Paulo conhecido pelo trabalho com alunos com deficiência, o valor é diluído entre todos os outros pais.

“Para a nossa comunidade é importante a inclusão, mas outras escolas privadas podem ter problemas, inclusive financeiros”, conta a diretora Sonia Maria Barreiro. A cobrança de taxas ou mensalidades diferentes dos estudantes com deficiência é hoje alvo de questionamentos judiciais – a Lei de Diretrizes Básicas da Educação (Lei nº 9.394/96) fixa como dever do Estado garantir atendimento educacional especializado e gratuito aos educandos nessa condição.

A formação de professores é outro grande entrave, seja nas escolas públicas, seja nas particulares. Um dos motivos é que os cursos de licenciatura e de Pedagogia não se modificaram para atender o novo público que está chegando às escolas.

“Sem dúvida é difícil (a inclusão) porque ainda não temos na formação dos professores uma preparação para isso”, lamenta a professora Ediclea, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. No entanto, algumas iniciativas já estão em vigor.

Desde 2006, todos os alunos dos cursos de licenciatura da Faculdade de Educação da Uerj precisam cursar uma disciplina de 60 horas sobre Educação Inclusiva. Assim, explica Ediclea, o professor de Química, Física ou Biologia terá formação teórica e prática sobre como trabalhar com alunos com necessidades especiais.

“Ele saberá adaptar um texto para o estudante cego ou elaborar uma avaliação diferenciada para o que tem necessidades motoras”, exemplifica.

O envolvimento dos professores, na visão de Soraya, é determinante para o desempenho do filho com deficiência. “Quando o professor olha para ele positivamente e busca metodologias diferenciadas, ele consegue avançar”, conta essa mãe e educadora.

Para Macaé Evaristo, secretária de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do MEC, o Ensino Médio ainda é um desafio. Apesar dos avanços, a dispersão dos alunos com deficiência é grande na comparação entre os primeiros anos do Fundamental e os do Médio.

“Construir um sistema educacional inclusivo cada vez mais significa eliminar barreiras, não só de acesso, mas de permanência e de aprendizado”, defende Macaé, citando o aumento das matrículas de alunos com deficiência no Ensino Superior, que passou de 2.173 no começo de 2000 para 20.287 em 2010.

A Política de Educação Especial na Perspectiva da Inclusão, criada pelo MEC em 2008, prevê a instalação de salas com recursos multifuncionais nas escolas públicas e o chamado Atendimento Educacional Especializado, realizado no contraturno, preferencialmente na própria unidade de ensino, por professores especialistas.

A tarefa de incluir um aluno com deficiência, porém, não deve ser apenas do docente de Educação Especial. “Acolher a todos precisa ser uma filosofia da escola”, defende Eniceia, da UFSCar.

Na visão de Silvia Viegas, coordenadora gestora do Núcleo de Educação da Diferença da Escola Viva, os alunos com deficiência chegam para ajudar a pensar o lugar de outra maneira: “Eles nos desafiam, movimentam a escola. Essas experiências são muito ricas para os alunos e também para nós educadores”.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Acessibilidade na escola: entenda como a tecnologia pode auxiliar

por Darcy Furquim para o escolasdisruptivas.com.br

De acordo com o último Censo demográfico do IBGE, 7,5% da população que tem deficiência está entre 0 e 14 anos, algo que só reforça a importância dos gestores implementarem a acessibilidade na escola de fato.

Independentemente se a deficiência é visual, auditiva, física, mental ou múltipla, você precisa ficar de olho no que tem de mais moderno para amparar essas crianças e adolescentes e fazer com que eles se sintam parte do grupo. Uma boa solução é investir em inovações, pois ajudam a contornar os desafios diários, complementam as práticas tradicionais e melhoram as formas de comunicação.

Neste post, trouxemos alguns dos principais recursos tecnológicos que toda instituição de ensino deveria ter. Acompanhe a leitura e confira!

Livros em áudio

A utilização de livros infantis e didáticos é um recurso pedagógico recorrente em salas de aula, pois permite soltar a imaginação, aprender lições do cotidiano, desenvolver o senso de contar histórias, entre outros aspectos. No entanto, pensando em um ensino inclusivo, os livros precisam estar de acordo com a integração de alunos com algum tipo de deficiência.

A melhor alternativa nesses casos, principalmente para crianças e adolescentes que apresentam deficiência visual, é o audiobook, tendo em vista a possibilidade de acompanhar as descrições das imagens e enredos inteiros por meio de áudios. Ter essas histórias gravadas faz com que os alunos se sintam mais engajados e possam acompanhar melhor a dinâmica das aulas.

Aplicativos e softwares

O ensino do século XXI está recheado de opções bem-interessantes para promover a acessibilidade na escola, porém, vale introduzir aplicativos e softwares especializados para facilitar o dia a dia dos jovens com deficiência. Existem programas, por exemplo, capazes de sintetizar a voz, tal como o Liane TTS, e, assim, estabelecer uma comunicação mais ágil para que o conteúdo da aula seja aproveitável.

Já outros softwares, como o DosVox, Virtual Vision e Jaws, fazem com que deficientes visuais possam ter um nível aceitável de independência e consigam acompanhar o ritmo dos demais alunos. Com esses programas, é possível desempenhar inúmeras tarefas, reconhecer textos do pacote Office e traduzir linguagens também.

No caso de alunos com síndrome de Down, o software Jeripe é uma ótima opção, tendo em vista que funciona como um jogo para estimular o raciocínio, construir noções de lógica e contribuir com a inclusão. Para os jovens com dificuldades auditivas, existe o Dicionário da Língua Brasileira de Sinais, um programa com recursos de vídeo em Libras para vários vocábulos.

Equipamentos adaptáveis

Evidente que a acessibilidade na escola passa também pela adaptação de equipamentos, a fim de deixar a tecnologia cada vez mais inclusiva e fazer com que os estudantes possam aprender dentro do próprio ritmo, mas sem se perder dos demais. Para tanto, vale utilizar teclados alternativos que otimizem as tarefas dos alunos, algo que se torna ideal para pessoas com certos problemas em digitar.

Quem tem deficiência física ou mobilidade reduzida deve ter por perto aparelhos ou adaptações para tornar a experiência de aprendizagem nos computadores mais simples. Para trazer mais interatividade, pode-se colocar uma mesa digital na sala, pois ela tem característica multidisciplinar com jogos e aplicativos acionados pelo toque.

Em relação aos periféricos, existem mouses com adaptadores para que, dependendo da deficiência física, seja possível executar tarefas no computador com tranquilidade. Caso seja preferível ter notebooks ou dispositivos móveis em sala, pode-se ajustar as configurações para que os recursos de acessibilidade, presentes no sistema operacional, possam conduzir os alunos e ajudá-los a ter um desempenho melhor.

Impressoras 3D

Se na construção civil as impressoras 3D já estão causando um estardalhaço na questão de praticidade, imagina a disrupção na educação que podem proporcionar, não é mesmo? Com esse recurso tecnológico, é possível imprimir livros com relevo e fazer do ensino em braile algo muito mais comum em sala, permitindo que os alunos cegos possam entender o que se passa sem quaisquer problemas.

Por meio de impressoras com essa finalidade, você pode imprimir mapas, o que tornaria as aulas de Geografia ainda mais interessantes para os alunos. É possível transformar imagens em objetos tridimensionais e fazer com que a assimilação de conteúdos, que seriam exclusivamente visuais, possa ganhar uma roupagem acessível.

Recursos de locomoção

Qualquer gestão escolar que se preze precisa levar em consideração não apenas os recursos tecnológicos dentro da sala de aula, mas todo o entorno. Pensar em acessibilidade na escola é conferir meios pelos quais os alunos possam se locomover até a sala, sem problema nenhum, e consigam ter uma vida acessível como a dos outros.

Para que isso ocorra, a estrutura da escola precisa estar adaptada para inúmeros fatores que possam acontecer, respeitando cada deficiência evidentemente. Por isso, é de bom tom que as instalações da escola tenham elevadores sonoros, plataformas de elevação, piso tátil muito bem sinalizado, entre outros aspectos que influenciem a locomoção.

Metodologias educativas

Por fim, mas tão importante quanto os demais itens citados, torna-se enriquecedor para o aprendizado de crianças e adolescentes a utilização de estratégias pedagógicas que promovam a inclusão de todos na sala. Para se ter uma ideia da relevância disso, existe um projeto da Microsoft que consiste em disseminar a linguagem de programação entre deficientes visuais.

Basicamente, o recurso mostra uma nova linguagem de programa tátil em que utiliza blocos modulares com cores, tamanhos e formatos distintos que dispõem de comandos específicos. A intenção é trazer para o ambiente escolar uma experiência de ensino que possa estimular a lógica, a criatividade e, naturalmente, o senso crítico para criar programas de qualidade.

Além disso, existe também a metodologia STEM, que traz para a escola algumas técnicas responsáveis por englobar aspectos voltados para a Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, pensando no desenvolvimento dos alunos nos princípios básicos das disciplinas. Entre os vários benefícios, podemos observar mais dinamismo nas tarefas, entendimento apurado e bastante trabalho em equipe.

Para finalizarmos, entenda que os gestores precisam se atualizar constantemente, visando proporcionar não apenas acessibilidade na escola, mas adaptação às tendências de mercado e, por consequência, a garantia da permanência dos alunos em sala de aula.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Pedagoga fala sobre alfabetização de surdos em escolas de Cosmópolis

Dia Nacional da Educação de Surdos: "Eles aprendem sim, tem condições para isso, para se alfabetizar da maneira deles e isso tem que ser respeitado", defende a pedagoga Carmela Ferreira

Letícia Leme para o cosmopolense.com.br

No dia 23 de abril comemora-se em todo o país o Dia da Educação de Surdos, bem como o Dia do Deficiente Auditivo. A data foi pensada com o intuito de direcionar a população a refletir sobre a importância do assunto, assim como também prover meios de inclusão para os portadores da deficiência. Buscando então, uma melhora na qualidade de vida dessas pessoas.

Carmela Ferreira é formada em pedagogia em formação de professores para a educação especial, e trabalha em uma das escolas municipais de Cosmópolis onde, atualmente, atende duas crianças surdas. Carmela atua como intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) e auxilia no aprendizado desses alunos. “Eu fico no período da sete da manhã até as onze e quarenta com esses alunos na sala de aula, interpretando a aula, auxiliando nas atividades dentro do ambiente escolar mesmo. Eles frequentam toda a rotina da escola, tem aula de educação física, aula de inglês, aulas de música. Eles frequentam tudo e estou sempre acompanhando”, explica.

Apesar das escolas para surdos já existirem no Brasil desde o governo de Dom Pedro II (1857), a língua de sinais só foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no país em 2002, 145 anos depois. No entanto, a inserção de Libras, como disciplina curricular obrigatória nos cursos de professores para o exercício dos magistérios médio e superior, só aconteceu em 2005.

Que a educação para surdos é desafiadora não é segredo para ninguém. Inclusive, o assunto ganhou destaque em 2017 quando virou tema da redação do Enem, onde os candidatos precisaram argumentar sobre os desafios para inclusão educacional de surdos no Brasil. O fato de ser pouco trabalhado nas escolas e mídias, fez com que grande parte dos alunos tivessem dificuldades para dissertar. O que chama ainda mais atenção para a questão que a data (23/04) visa trabalhar: inclusão.

A fim de explicar como é desenvolvida a educação para surdos nas escolas de Cosmópolis, Carmela cedeu uma entrevista ao Portal Cosmopolense, onde expõe os métodos utilizados e principais desafios enfrentados na sala de aula. Confira:

Carmela durante as aulas

Como é desenvolvido seu trabalho nas escolas? Os alunos utilizam a língua de sinais para se comunicar, então eu auxilio em cima da língua de sinais, ajudo a professora na adaptação de currículo, de algum material, de atividade que for necessário e assim aplicamos. A aula é normal, a professora está explicando, eu estou perto deles acompanhando os alunos, só que passando em libras. A professora vai fazer a leitura da história com a turma, enquanto isso eu estou fazendo a interpretação em libras e depois ela vai mostrando para toda a turma o livro e nessa parte eles também participam. Atividade de matemática, ela vai ensinando a sequencia numérica de zero a dez. Conforme ela vai explicando eu vou junto fazendo em libras. Depois quando ela dá a folhinha da atividade, eu vou perto auxiliando. A professora também da suporte, mas quando é algum sinal que a criança não entende, neste caso estou junto para auxilia-la. Tudo funciona junto, tudo ao mesmo tempo (…) Acaba sendo uma atenção especial porque eu estou com eles, diretamente interpretando. Enquanto os outros estão se atentando a professora eles estão se atentando a mim e a professora, é um trabalho bem conjunto.

Esses alunos precisam ter um conhecimento prévio de Libras ou eles aprendem na escola? Geralmente as crianças aprendem nas escolas mesmo, não é uma regra ter um conhecimento prévio. Só que o quanto antes a criança for inserida para aprender a língua de sinais, mais rápido vai ser o desenvolvimento dela. Geralmente as famílias descobrem a surdez com uns três anos, daí vai a questão da aceitação, tanto é que até a família aceitar e ir em busca de ajuda, a criança já está na fase de falar, então aí vai atrasando um pouco mais essa questão do aprendizado da língua de sinais, porque depois que a criança entra na escola geralmente que ela tem esse primeiro contato.

Enquanto professora, quais os principais desafios na educação para surdos? A introdução do bilinguismo, que é a Libras ser a primeira língua do surdo, a gente sabe que elas tem que ser ensinada, só que nas escolas se cobra muito a oralidade, se cobra muito a consciência fonológica. Então a criança (ouvinte) aprende  as famílias silábicas – o  BA-BE-BI-BO-BU – ouvindo, e o surdo não. A Libra é uma língua visual, então o principal desafio é esse, a consciência de que o surdo precisa ter acesso a libras como primeira língua dele, por mais que isto esteja sendo trabalhado, estamos caminhando bem devagar, porque infelizmente a nossa língua é oral. Os surdos estão conquistando espaço, mas o principal desafio que eu vejo hoje é esse, entender essa necessidade de se ensinar primeiramente a Libra e o português como língua secundária, onde o aluno aprende a palavra de forma escrita.

O trabalho que você desenvolve com essas crianças tem um bom retorno? Digo, pedagogicamente. O retorno não é tão rápido, porque agora que eles estão iniciando a alfabetização, eles aprendem a libra como primeira língua deles. Então o português a gente ensina da forma escrita, dessa forma eles precisam aprender que tudo tem um nome, que o sinal que a gente usa na língua de sinais, por exemplo para bola, tem um nome. Então ele precisa compreender, precisa de uma certa forma decorar que bola se escreve B-O-L-A. O que não é tão simples, porque a gente aprende ouvindo, por sílabas, pelas letras, a gente sabe que as sílabas de bola é o B com O, que forma o BO, agora para eles não é tão prático assim, então por isso que é um processo um pouco mais demorado, eles aprendem, dão retorno sim, vão evoluindo, mas as vezes não da forma que a gente espera. É muito de criança para criança. As vezes o ouvinte demora até mais que um aluno surdo, depende muito, do estímulo que tem em casa, dos atendimentos que faz por fora, se tem acompanhamento de fonoaudióloga, se tem acompanhamento de línguas de sinais.

Você mencionou sobre o papel da família no processo de aprendizado. Como a família pode atuar de forma que venha contribuir com esse processo? Aliás, qual é o papel da família? A família precisa ser parceira, tem que haver uma parceria entre escola e família sempre. A família precisa aprender Libras para se comunicar com a criança. Os pais precisam levar ao atendimento com a fonoaudióloga, psicóloga. Um desses alunos que eu atendo frequenta o Sepri na Unicamp, que onde é desenvolvida a língua de sinais, eles recebem atendimento psicológico e fonoaudiológico, juntamente com a pedagogia. Lá a família também aprende Libras e também recebe o acompanhamento psicológico. Enquanto as crianças estão em um outro atendimento com a pedagoga e com o instrutor surdo, eles se devolvem bem mais, o processo é bem mais rápido. A família aceitando, a família buscando e trabalhando junto com a escola, ajuda e muito. Então a família precisa aprender a se comunicar com esse filho, com essa criança. Porque a maioria das crianças surdas, são filhas de pais ouvintes, então eles precisam aprender a se comunicar, senão a criança vai ficar sempre isolada e vai ter essa comunicação só na escola? A parceria da  família é fundamental nesse processo.

E o que você considera como “tabu”, no que diz respeito a educação para surdos? Algo que você enquanto pedagoga diria: Não é bem assim. Acho que o principal tabu é em questão do aprendizado mesmo, eles tem uma língua própria, só que ela [língua] tem as características dela. Então eles aprendem sim, tem condições para isso, para se alfabetizar da maneira deles. Eu acho que isso que tem que ser respeitado. Por exemplo, a produção de texto deles nunca vai ser igual a nossa, mas é uma particularidade deles e isso tem que ser respeitado, e a gente as vezes quer que seja da nossa forma e não é assim. Eles têm muito potencial, profissionalmente falando, eu tive alguns alunos que hoje estão aí trabalhando tem rendimento, eles ‘se viram’, tem o grupo deles, saem ao cinema, dentre outros. Tudo dentro das limitações deles, assim como temos as nossas.

E como avalia a educação para surdos no Brasil? Eu acredito que a educação para surdos no Brasil está avançando cada vez mais, acho que eles [surdos] estão ganhando mais espaço, eles estão ganhando mais direito e eu acho que só tende a avançar. A questão da regularização dos intérpretes nos espaços públicos, nas escolas, nas igrejas, eu acho que está avançando cada vez mais, está ganhando força. Ainda falta muito a conseguir, acho que se tem muito ainda a se batalhar, mas há um avanço.