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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Diferença entre o autismo e a apraxia de fala na infância

Saiba o que são e conheça ainda as características

Entender as diferenças entre apraxia da fala e o transtorno do espectro autista (TEA) é importante para um diagnóstico e tratamento correto. Ambas remetem a transtornos do neurodesenvolvimento, porém possuem distinções. Com base no Ministério da Saúde, no TEA, a criança tem déficits na comunicação e na interac¸ão social, além de padrões de comportamentos repetitivos.
 
O TEA é um distúrbio do neurodesenvolvimento com mais prevalência no sexo masculino. O diagnóstico é clínico e feito a partir das observações da criança e entrevistas com os pais, bem como a aplicação de métodos de monitoramento do desenvolvimento infantil durante as consultas. Já a apraxia de fala na infância é definida como um "grave distúrbio motor na fala (neurológico) que afeta a habilidade da criança de sequencializar os sons da fala", segundo a Associação Brasileira de Apraxia de Fala na Infância.

Diferença entre o autismo e a apraxia de fala

No autismo, a criança apresenta déficits de comunicação e interac¸ão social que também podem levar a dificuldade de desenvolvimento da fala. Já na apraxia de fala na infância, a criança entende o que quer comunicar, mas não consegue planejar os movimentos para emitir sons e formar as sílabas e frases. Nesses casos, existe um repertório de palavras limitadas e é difícil ter uma compreensão do que ela quer dizer.
 
diagnóstico de apraxia de fala na infância ocorre por volta dos 2 de idade. Os pais devem procurar um profissional de Fonoaudiologia com experiência em transtornos de fala e de linguagem, para um diagnóstico e elaboração de um plano de tratamento. Os resultados do processo de intervenção costumam aparecer a longo prazo.
 
diagnóstico de TEA também é feito por volta dos 2 a 3 anos de idade, mas os sinais podem ser percebidos ainda nos primeiros meses de vida. Apesar de não ter cura, com o diagnóstico precoce é possível trabalhar o desenvolvimento de práticas para estimular a independência da criança, promover mais acessibilidade, além de mais qualidade de vida.

Característica do autismo e a apraxia de fala na infância

Característica da apraxia de fala na infância
 
• Erros com as vogais;
• Atraso no desenvolvimento da fala;
• A criança tenta falar mas não consegue;
• Dificuldades para mastigar;
• Dificuldade motora na língua;
• Disparidade entre a compreensão e a produção de fala.
 
Características do TEA
 
• Ações repetitivas;
• Déficits no interesse no outro;
• Dificuldade de manter o contato visual;
• Dificuldade de interagir socialmente;
• Dificuldade de expressar as próprias emoções.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

O teste que pode detectar o autismo em crianças pelos olhos

Cientistas encontraram a diferença na resposta das pupilas à luminosidade, que é mais lenta em pacientes com o transtorno

Paula Felix para veja.abril.com.br

Um teste chamado reflexo pupilar à luz, que permite fazer a medição de mudanças nas pupilas dos olhos quando expostas à luminosidade, demonstrou ser um possível aliado para o rastreamento de casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças, segundo um estudo realizado pela Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos. A partir do exame, os cientistas perceberam que há diferenças significativas no tempo de resposta das pupilas para se contrair diante da luz e também para voltar ao normal com a remoção da fonte de luminosidade.

Na pesquisa, 36 crianças e adolescentes de 6 a 17 anos com diagnóstico de autismo, condição que afeta a comunicação e a interação social, foram submetidas ao teste de luz, e os resultados foram comparados a um grupo de 24 crianças típicas. Foi dessa forma que os cientistas encontraram a diferença na resposta das pupilas, que é mais lenta em pacientes com TEA. O achado foi publicado na revista Neurological Sciences.

“Sabemos que, quando intervimos em idades entre 18 e 24 meses, há um impacto em longo prazo nos resultados. Intervir durante essa janela crítica pode ser a diferença entre uma criança adquirir a fala verbal e permanecer não verbal”, explicou, em comunicado, Georgina Lynch, primeira autora do estudo. Nos Estados Unidos, a idade média para diagnóstico do transtorno é de 4 anos.

Agora, o grupo de Lynch pretende ampliar os estudos com 300 ou mais crianças de 2 a 4 anos para se chegar a um dispositivo portátil que agilize a triagem de pacientes pediátricos com suspeita do transtorno. A pesquisadora também elabora a solicitação da aprovação de pré-mercado da Food and Drug Administration (FDA) para permitir que o equipamento possa ser utilizado em clínicas pediátricas.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

TEA e deficiência auditiva: diagnóstico diferencial e comorbidade

 espacoreligare.com.br

Sabe-se que o número de diagnósticos do Transtorno do Espectro Autista tem aumentado consideravelmente nos últimos anos, sendo que em 2020, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) apontou que a prevalência é de 1 em 54 pessoas.

Por ser um diagnóstico multidisciplinar e comportamental, por diversas vezes, pode ser confundido com outras condições. Dessa forma, é de suma importância considerar e investigar qualquer contexto além do comportamental, como aspectos neurofisiobiológicas.

Uma das questões que devem ser investigadas ao longo do processo de diagnóstico de TEA é a audição, que por vezes, é considerada diagnóstico diferencial com o espectro, quando existente alguma alteração auditiva.

Ambos diagnósticos podem ser caracterizados pelo atraso do desenvolvimento de fala e linguagem, questões sociais e até mesmo agitação motora e por isso, eventualmente são confundidos. O que vai diferir no diagnóstico são os exames auditivos, sendo eles: EOA – emissão otoacustica; PEATE – potencial auditivo de tronco encefálico; audiometria e a imitanciometria. Porém, vale ressaltar que apesar de serem situações diferentes – TEA e deficiência auditiva -, ambas podem coexistir em uma única pessoa, sendo essa, uma comorbidade.

Quando nos deparamos somente com a deficiência auditiva, todos os facilitadores são necessários para a aquisição de um desenvolvimento de forma global, como pistas táteis e visuais. Mas e quando além da deficiência auditiva, existe a comorbidade do TEA? O trabalho fica ainda mais desafiador, visto que no espectro o contato visual é restrito e comumente, há resistência ao toque.

Dessa forma, a reabilitação inicial indicada, também é auditiva, sendo essa, com aparelhos de amplificação sonora individual (AASI), implantes cocleares ou até mesmo próteses osteoancoradas, para que de alguma forma, exista um acesso à criança. Principalmente, tendo em vista que o diagnóstico mais precoce é o da deficiência auditiva, podendo ser identificado até na maternidade, por meio do Teste da Orelhinha (triagem auditiva neonatal).

A partir desse passo inicial, seguem-se com todas as demais intervenções, sendo elas auditivas e de desenvolvimento global, como fonoterapia, fisioterapia, musicoterapia e etc.

Ainda assim, vale ressaltar que quanto mais precoce for o diagnóstico da deficiência auditiva e do TEA, ou de ambos, mais precocemente são iniciadas as intervenções e por isso, maiores as chances de a plasticidade cerebral contribuir de forma positiva no desenvolvimento global dessas crianças incluindo fala, linguagem, cognição e questões afetivo-emocionais.

Carolina Campos Salvato
CRFª220427

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Dicas de festa junina para crianças com autismo

Junho significa fogueira, bandeirinhas, dançar quadrilha, pé de moleque, pipoca, bombinhas, fogos de artifícios e roupas de caipira.

A maioria dos pais de crianças com autismo adorariam ver seus filhos participando da quadrilha da escola e da Festa Junina. No entanto, sabemos que para essas crianças muitos obstáculos podem aparecer e impedir que este momento seja feliz e livre de problemas.

Devemos considerar que as crianças com autismo e outros transtornos podem apresentar sensibilidade a certos estímulos, como texturas, cores, cheiros, ruídos altos, os quais tornam difícil tanto vestir a roupa de caipira, quanto participar da Festa Junina.

Veja algumas dicas para tornar esta festa uma experiência gostosa e sem dificuldades para as crianças com autismo e seus pais:

▪ Colocar a roupa de caipira dias antes da festa. Certifique-se de que seu filho se sinta bem com a textura da roupa. Caso a criança fique incomodada com a fantasia, improvise usando camisa xadrez e calça ou saia jeans. Treine antes, também, colocar a maquiagem e o chapéu. Deixe seu filho usar a roupa de caipira em casa para se acostumar bem antes do dia especial. Caso o seu filho não tolere permanecer com o chapéu na cabeça ou prender o cabelo, não insista!

▪ Praticar em casa a dança ou quadrilha. Coloque a música e treine com seu filho os passos da dança. Caso a criança tenha acompanhante terapêutico (A.T.), combine com a equipe da escola como será no dia. Ajustes podem ser feitos para melhor adequar a situação para a criança. Por exemplo, a criança ficará com a A.T. desde o início da festa para evitar recusa na hora da dança, ou é melhor ficar com os pais até a hora da dança?

▪ Mostrar imagens sobre a festa junina e o que irá acontecer no dia pode ser muito útil. Peça para a equipe da escola tirar fotos da criança ensaiando a dança. Monte uma história com as imagens descrevendo o que irá acontecer no dia da Festa Junina. Lembre-se de explicar na história que a criança irá para escola no dia da festa não para estudar, mas para dançar, brincar nas barraquinhas e comer várias coisas gostosas. Por isso, ela não irá usar uniforme. Mudanças na rotina podem ser complicadas. As crianças podem não entender porque estão indo para a escola no final de semana e sem uniforme. O aglomerado de gente pode ser difícil para a criança e comportamentos inadequados podem ocorrer em decorrência da mudança da rotina.

▪ Assistir vídeos de fogos de artifícios. O barulho alto pode ser um estímulo aversivo para algumas crianças. Se este for o caso, inicie com o vídeo em volume baixo e, aumente gradualmente o volume à medida que a criança for aceitando o ruído dos fogos. Treine também, as bombinhas (estalinhos). Explique para a criança que a bombinha é apenas um barulho alto, mas que não machuca.

▪ Não há problema em ficar em casa. Se você achar que o seu filho não vai aproveitar a Festa Junina, você pode fazer a sua própria festa. Decore a sala com bandeirinhas, faça pipoca e dance ao ritmo da música caipira.

A Festa Junina deve ser um momento divertido para toda a família! Por isso, sempre que necessário, considere as alternativas para o seu conforto e do seu filho.

Fonte: Stimulus ABA

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Covid-19 é dez vezes mais letal em pessoas com síndrome de Down, indica estudo

Pesquisadores sugerem que indivíduos com essa condição genética devem ser prioridade para a vacinação

Por Carolina Fioratti para o super.abril.com.br

Idosos, diabéticos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares são tidos como grupos de risco da Covid-19 desde o começo na pandemia. Mas também há outros fatores que podem ser agravantes da doença e ainda estão sendo estudados. A síndrome de Down (SD), que aumenta a suscetibilidade da pessoa à pneumonia, entra nessa lista.

Pesquisadores da Universidade de Oxford, em parceria com outras instituições britânicas, analisaram dados de 8,26 milhões de adultos do Reino Unido. Dentro desse conjunto, havia informações sobre 4053 indivíduos com síndrome de Down. Os cientistas compararam os casos de coronavírus entre as pessoas que tinham a síndrome e aquelas que não tinham, e concluíram que a SD aumenta em dez vezes o risco de morrer por consequência da Covid-19 (e multiplica por cinco os casos de hospitalização relacionados a essa doença). O estudo foi publicado em outubro na revista científica Annals of Internal Medicine.

De acordo com pesquisadores, a própria genética de pessoas com síndrome de Down acaba tornando-as mais suscetíveis ao Sars-CoV-2. Os indivíduos com SD possuem três cópias do cromossomo 21, uma a mais do que o normal. Dentro do cromossomo 21, existe um gene chamado TMPRSS2, e aí é que está o problema: para invadir as células, o coronavírus se conecta a uma enzima que é codificada justamente por esse gene. As pessoas com síndrome de Down produzem maior quantidade dessa enzima, o que acaba facilitando a ação do vírus.

Esta hipótese foi analisada em junho por pesquisadores do Centro de Regulação Genômica de Barcelona, ​​na Espanha. O estudo, que não passou por revisão por pares, indica que as células de pessoas com síndrome de Down expressam 1,6x mais TMPRSS2 do que as de pessoas sem a alteração genética.

Além disso, o próprio sistema imunológico das pessoas com síndrome de Down pode ser visto como algo negativo durante uma infecção pelo novo coronavírus. O organismo dessas pessoas não desenvolve as células T de forma adequada e os níveis de células B circulantes são baixos. Além disso, o corpo produz interferon – uma primeira linha de defesa contra os vírus – de forma intensa. Em um primeiro momento, a resposta do interferon pode ser positiva contra a Covid-19, mas sua atividade elevada pode causar uma desregulação do sistema imune, desencadeando a chamada tempestade de citocinas, que pode tornar o quatro fatal em cerca de uma semana.

Em um estudo publicado no jornal acadêmico Cell Reports, pesquisadores mostraram que o medicamento baricitinibe foi capaz de bloquear essa alta onda de interferon em camundongos com trissomia do 21. A Food and Drug Administration, agência reguladora dos EUA, liberou o remédio, em combinação com o remdesivir, para uso emergencial em pacientes com Covid-19. Mas vale ressaltar que não houve testes em larga escala em humanos ou qualquer comprovação de que o medicamento funciona para além dos ratos.

Diante dessas pesquisas, a Trisomy 21 Research Society International, uma organização científica que estuda a condição genética, tem solicitado que pessoas com SD, principalmente as maiores de 40 anos, tenham preferência para a vacinação. No dia 2 de dezembro, o Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização do Reino Unido também recomendou que esse grupo fosse priorizado. No entanto, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) ainda não adicionou a SD na lista de condições que aumentam os riscos de Covid-19. De acordo com o CDC, ainda não há evidências suficientes para tal.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Atendimento fonoaudiológico precoce garante maior evolução para crianças autistas

 Gabrielle Yumi para o paineira.usp.br

A idade de início da terapia está relacionada à maior evolução clínica (Foto: Freepik)

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) se refere a um grupo de condições neurodesenvolvimentais caracterizado por uma quantidade de sintomas e níveis de habilidade. Apesar de afirmações de que o diagnóstico de TEA ocorre mais frequentemente hoje, ainda é válida a discussão de que talvez isso seja apenas resultado de melhores métodos de diagnóstico. Para além disso, é confirmado que os sintomas começam a aparecer nos primeiros 2 anos de vida e afeta as habilidades sociais do indivíduo. Intitulado “Atendimento fonoaudiológico a crianças com distúrbios do espectro do autismo: um estudo longitudinal”, a tese de Letícia Segeren buscou analisar os dados relacionados às crianças e adolescentes que realizaram avaliação e atendimento nos últimos 21 anos no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica nos Distúrbios do Espectro do Autismo (LIFDEA) da USP.

Ao agrupar os dados, a pesquisadora percebeu que estavam assimétricos, tornando impossível realizar uma análise aprofundada com todos eles. Assim, dividiu-os em dois estudos. O primeiro estudo contempla todos os prontuários de pacientes que realizaram terapia fonoaudiológica entre janeiro de 1997 e dezembro de 2017. Ao analisar as informações, observou-se que a taxa de abandono do tratamento é alta e que a idade de início da terapia não está relacionada à maior manutenção do tratamento. A média de idade encontrada de início da terapia foi de seis anos.

Letícia explica: “O objetivo era ver se a idade que os pais trazem a criança está relacionada à melhor adesão, mas não observamos essa relação. Já no estudo dois, queríamos saber se o fato de o paciente começar o tratamento mais cedo está relacionado com uma maior evolução e concluímos que sim”. Assim, quanto menor a idade da criança, maior é o número de atos comunicativos por minuto que ela apresenta durante uma sessão, assim, melhor o desenvolvimento. 

No segundo estudo, foram selecionados os pacientes que realizaram atendimento no LIFDEA entre os anos de 2011 e 2017 e para os quais foram obtidos dados completos referentes ao protocolo do Perfil Funcional da Comunicação (PFC) aplicados semestralmente. O PFC analisa como está ocorrendo a comunicação e quais são as funções comunicativas que ocorre. 

Assim, a pesquisadora encontrou correlação positiva entre o número de respostas no PFC, o escore do desempenho sociocomunicativo e os atos comunicativos com funções mais interativas. A evolução clínica foi observada em protocolos com três anos de intervenção, sendo que no estudo dois a média de idade no início da terapia foi de cinco anos e meio.

Letícia afirma a atualidade da questão e sua importância: “Quanto antes começar o atendimento, melhor. Existem estudos que mostram todos os benefícios que a intervenção precoce traz, então um dos objetivos deste estudo foi evidenciar na prática que, quanto antes a criança chega, melhor a evolução dela”.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Mães têm cuidados redobrados com filhos com deficiência durante a pandemia

Deficiência em si não coloca a criança no grupo de risco, mas a infecção pode se agravar devido a problemas pré-existentes como doenças respiratórias


Por Eduardo Silva para o 32xsp.org

Moradoras do Jaraguá, Vilma e Júlia tiveram mudanças na rotina desde o início da pandemia (Arquivo pessoal)

“Eu to brincando, me divertindo, todo dia eu brinco.” Assim tem sido o dia a dia da Júlia Coelho, 11. Ela tem síndrome de down e tinha uma rotina bastante movimentada com aulas na escola, de segunda a sexta-feira, e aulas no balé, que frequentava duas vezes por semana.

Mas após o início da pandemia do novo coronavírus (covid-19), ela passou a fazer atividades e brincadeiras apenas no apartamento onde mora com a mãe e a irmã mais velha, no distrito do Jaraguá, na zona oeste de São Paulo.

“Desde que foi decretado o término das aulas, a Júlia não saiu mais de casa. Eu tentei criar uma nova rotina para que ela não fique ociosa o dia inteiro ou, então, só mexendo no celular”, conta a mãe Vilma Simão da Costa, 49, que é professora de educação infantil.

De acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), uma pessoa não é mais vulnerável à covid-19 apenas por ter uma deficiência. Contudo, ela pode ser enquadrar no grupo de risco caso apresente quadros de restrições respiratórias, condições autoimunes ou doenças neurológicas, do coração, pulmão ou rim.

Pessoas com a síndrome de Down podem ter uma incidência maior de disfunções da imunidade, cardiopatias congênitas e doenças respiratórias. Portanto, devem ser consideradas do grupo de risco.

Como precaução, na casa da Júlia, os cuidados foram redobrados desde o início do isolamento social. “A questão da imunidade sempre foi uma preocupação. Eu sabia que a Júlia fazia parte do grupo de risco, então isso me fez ficar mais em casa e ter mais prevenção desde o início. Automaticamente, toda família também teve”, conta Vilma.
“A gente não está indo para a casa de ninguém, nem ninguém está vindo aqui. Mas estamos matando a saudade e tendo contato com a família pelo celular e pelas redes sociais: ligando, fazendo vídeo-chamadas e postando fotos nos status. É dessa forma que a gente tá mantendo esse vínculo”
Vilma Simão da Costa, professora de educação infantil e mãe da Júlia
 A mudança na rotina também interrompeu os atendimentos de estimulação e habilitação que a garota tinha uma vez por semana no Instituto Jô Clemente (antiga APAE de São Paulo), na Freguesia do Ó, na zona norte. Por ficar em um posto de saúde com circulação de outros pacientes, o local apresentava um risco maior de contaminação da covid-19.

Enquanto isso, na pausa entre os estudos em casa e as aulas online de balé, mãe e filha se reúnem todos os dias para fazer atividades juntas durante uma hora. “Nós já fizemos bolo, escultura com gesso, barraca, pintura no banheiro… Acho que ela se adaptou muito bem a essa nova rotina”, relata a mãe.

Com as brincadeiras, Vilma também busca orientar a filha sobre os cuidados com a higienização para se proteger do coronavírus. Um dos resultados foi o vídeo abaixo em que Júlia ensina como lavar corretamente as mãos.


“Desde que a pandemia começou, eu me preocupei em conversar com a Júlia e contar historinhas. Recebi um livro online sobre o coronavírus e os cuidados de higiene, aí fui aos poucos conversando com ela, para que ela entendesse [a situação] de uma forma mais lúdica e natural”, completa a professora.

Cuidados redobrados


Gisele foi até Pinheiros, na zona oeste, buscar um medicamento para Stela (Arquivo pessoal)

Há três semanas, a artesã e moradora do Itaim Paulista, Gisele Soares, 39, precisou se deslocar até o outro lado da cidade, em Pinheiros, para buscar um medicamento para a filha Stela, 15, que tem paralisia cerebral.

O percurso, que dura cerca de 3 horas, considerando ida e volta, dessa vez foi feito com medidas extras de proteção, como uso de máscara e álcool em gel para higienização das mãos.

“Sempre ando com álcool em gel na bolsa. Quando volto, as coisas ficam do lado de fora e vou direto para o banho”, conta Gisele, que deixa a filha em casa aos cuidados da avó quando precisa sair. “Aqui eu sou a ‘faz tudo’, então quando saio para alguma emergência, aproveito para passar no mercado ou comprar materiais para fazer meus produtos artesanais.”

Stela tem problemas respiratórios, por conta disso, desde o último mês, Gisele também passou a ter cuidados redobrados dentro de casa.
“Os cuidados são constantes, como lavar as mãos várias vezes ao dia. Quando passo pano no chão, uso cândida também. Antes eu só passava um desinfetante comum”
Gisele Soares, artesã e mãe da Stela
Também moradora do Itaim Paulista, a autônoma Juliana Freitas, 36, é mãe da Maria Eduarda, 7, que tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A rotina das duas, que envolvia idas à escola e às sessões de terapia, também precisou ser interrompida por causa da pandemia.

Juliana Freitas diz que a terapia da filha Maria Eduarda foi interrompida por causa da pandemia (Arquivo pessoal)

“Minha filha começou a se adaptar com a escola e as atividades escolares a partir do fim do ano passado e o retorno neste ano. Só que agora a pandemia quebrou a rotina. Quando as aulas retornarem, acredito que vai demorar um pouco pra ela voltar ao ritmo de antes”, comenta Juliana.

A terapeuta ocupacional Vanessa Gibelli, 43, explica que, mesmo dentro de casa, é necessário ter uma atenção redobrada por parte dos cuidadores de crianças com maior dependência, já que o vírus se transmite pelo toque ou pelo ar.

“Pensando que as crianças levam as mãos a boca com mais frequência, seja por estereotipias (movimentos repetitivos) ou não, o adulto é quem se torna o maior cuidador da higiene desta criança e de seus próprios cuidados”, diz.

O mesmo vale para os cuidados em áreas externas. “Ao ir ao mercado ou a uma área externa, e tocar em algo que possa ter sido contaminado, você pode trazer o vírus para dentro de casa ou gerar um risco à criança ao tocá-la sem ter tido todos os cuidados necessários de higiene”, relata Vanessa.

Sabendo disso, na casa da Juliana e da Maria Eduarda, elas tomam todo o cuidado possível. “Quando eu preciso sair e volto pra casa, minha filha quer me abraçar, mas eu peço pra ela esperar um pouco. O álcool em gel fica na entrada da sala, então eu sempre uso e deixo toda a roupa suja no banheiro”, conta.

O período de quarentena também pode deixar as crianças com TEA mais irritadas ou ansiosas.
“A Duda tem muita energia, mas agora ela está mais cansada porque não pode sair pra rua, e não tem nenhum lugar pra brincar… Ela não está agitada, gritando ou chorando. Mas, como qualquer pessoa, acaba ficando meio estressada”
Juliana Freitas, autônoma e mãe da Maria Eduarda
Vanessa Gibelli explica que a quebra significativa da rotina e a ausência das terapias presenciais podem gerar uma maior desregulação das questões sensoriais da criança com TEA. “Isso tem reflexos sobre como a criança vai reagir”, diz.

“Se ela é verbal, pode se mostrar mais irritada verbalmente ou chorosa. Se ela é não-verbal, pode apresentar algum tipo de agressividade, com comportamentos autolesivos (se bater ou se morder) ou heterolesivos (bater em coisas ou em outras pessoas)”, explica.

Vanessa Gibelli é terapeuta ocupacional e trabalha com crianças com deficiência (Arquivo pessoal)

A terapeuta também alerta que a ansiedade também pode afetar os adultos: “É inevitável que o nível de ansiedade mexa com todos, inclusive com os pais – que, por sua vez, vão, de alguma forma, refletir no comportamento da criança”.

Para isso, ela orienta que, além de adotar uma rotina dentro de casa, também é importante que o cuidador faça atividades que tragam sensações de bem-estar. “Seja uma terapia, uma dança, pintura, filme… Independentemente do que seja a forma de relaxamento, é necessário fazer algo que lhe faça bem para, assim, estar bem para o outro”, finaliza.