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sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Laramara relança livro sobre deficiência visual em crianças

A obra conta com ilustrações para facilitar a interação social das crianças com deficiência, desde o nascimento até a inclusão escolar

por Julia Bonin para o observatorio3setor.org.br


Foto: Awachirac | Creative Commons

Na próxima quarta-feira, 21 de setembro, é celebrado o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Para enfatizar a importância da data, a Laramara (Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual) realizará o relançamento do livro “O Desenvolvimento da Criança com Deficiência Visual – Da Intervenção Precoce à Inclusão na Educação Infantil”, fundamental para a inclusão social dessas crianças. 

Laramara é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos e sem vínculos políticos ou religiosos, que tem como objetivo promover o desenvolvimento integral da pessoa com deficiência visual para a sua autonomia e inclusão social. O grupo desenvolve ações que buscam o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários, a autonomia e a participação plena na sociedade. Estas ações são realizadas com base em serviços, programas e projetos, oferecidos gratuitamente às pessoas com deficiência.

Escrito pela pedagoga e educadora Marilda Moraes Garcia Bruno, o livro aborda temas diversos, desde um compilado de sugestões de brinquedos e objetos adequados para a criança até a orientação da família e dos profissionais para lidar com as fases do desenvolvimento infantil. No relançamento, a obra conta com ilustrações que auxiliam nessa orientação. 

Além disso, o livro também acompanha uma Avaliação Funcional da Visão e do Desenvolvimento, que deve ser realizada por meio de um processo cuidadoso de observação de todas as atividades da criança em casa, na escola e na comunidade. Ao final, a autora faz uma reflexão sobre a aprendizagem de crianças cegas e com baixa visão.

“A obra é fundamental para a interação com a pessoa com deficiência visual e o sucesso da sua inclusão em casa, escola e sociedade. Ela deve estar sempre presente no trabalho do educador e família”, afirma Mara Siaulys, Fundadora e Presidente da Laramara.

quarta-feira, 16 de março de 2022

A aprendizagem de crianças com deficiências múltiplas

Andréia Pereira Gil, 12 anos, é surdocega. Não ouve e não enxerga quase nada - feixes de luz talvez, e só pelo olho direto. A alegria descoberta no vaivém do balanço é uma das maneiras que ela encontrou, na escola, de tomar contato com o mundo - apenas um dos muitos jeitos de sentir a vida

Por Débora Didonê para o Nova Escola | novaescola.org.br

Andreia Pereira Gil, deficiente mútipla, balançando no pátio da EMEF Doutor João Alves dos Santos. Foto: Kriz Knack
Andreia Pereira Gil, balançando no pátio da EMEF Doutor João Alves dos Santos. Foto: Kriz Knack

Sensações. É por meio delas que as pessoas com deficiência múltipla aprendem sobre as coisas que estão a sua volta. A professora Carolina Bosco, especialista nesses casos, estimula a descoberta da sensibilidade com diversos tipos de toque e movimento, como numa recente cena vista na EMEF Doutor João Alves dos Santos, em Campinas, a 90 quilômetros de São Paulo. Ela dá a mão para Andréia equilibrar-se numa mureta. A menina apóia-se no seu braço para descer e as duas vão de mãos dadas até o pátio. A aluna abraça uma árvore e passa a mão sobre a casca. O contato arranca de Andréia um raro sorriso.

A cena não chamaria tanta atenção se não fosse o jeito diferente de ser da jovem. Ela gira a cabeça, baba e vive com o braço direito levantado. O grande desafio em relação a Andréia é criar um modo de comunicação para que ela reconheça lugares e pessoas. Foi a tarefa assumida por Carolina. A menina também conta com a ajuda de Carmen Sílvia Dias, sua professora da 2ª série, onde tem 30 colegas. Ambas procuram maneiras de explicar por que ela vai à escola e o que todos fazem por lá.

Carolina formou-se em Pedagogia com ênfase em Deficiência Mental na Universidade de São Paulo e é pós-graduada em Arte em Educação Especial pela Universidade de Paris. Ela já havia trabalhado com alunos com deficiência múltipla (associação de duas ou mais deficiências, como mental e física ou auditiva, visual e física), mas Andréia é a primeira que atende em escola regular. Ali, elas cumprem um cronograma, religiosamente, toda segunda, quarta e sexta-feira. É quando Andréia mexe com sucata, aprende a escovar os dentes, caminha pelo pátio da escola, sente a vibração da música colocando as mãos sobre um rádio portátil e brinca no balanço. "É um trabalho de reorganização corporal, percepção tátil e de volume", diz Carolina. Aos poucos, a menina aprende a lidar com o próprio corpo.

Carmen foi a única professora da escola que se dispôs a acolher Andréia. A menina está com ela desde a 1ª série. "No começo, parecia que seria impossível controlá-la. Ela levantava no meio da aula e mexia em tudo", diz. "Não sabia usar o tato para se comunicar e logo se cansava de ficar na carteira apalpando o alfabeto móvel." Por isso, a união do trabalho de Carmen e Carolina fez a diferença. "Uma criança com deficiência precisa de dois professores", afirma Carolina. "O de classe, que atua na área da aprendizagem de maneira geral, e o especializado, que trabalha na dos distúrbios." Por isso, enquanto Carolina desperta o lado comunicativo de Andréia, Carmen cria atividades para integrá-la à turma. Na roda da conversa, onde as crianças desabafam até sobre o desgosto de ser banguelas, Carmen abriu um espaço para elas interagirem com a colega surdocega. Como Andréia está aprendendo a usar o toque para reconhecer as pessoas, cada um pensou num sinal só seu que ela pudesse sentir. Daiane Gomes de Lira, 8 anos, sempre conduz a mão de Andréia para seus cabelos crespos: é a marca que a identifica. A professora Carolina, por sua vez, faz a menina pegar em seu anel.

Também é pelo tato que Andréia começa a entender a rotina da escola. "Para iniciar qualquer atividade, mostra-se o ambiente onde ela está", diz Carolina. Na sala de aula, no começo do dia, fazem-na apalpar a porta, a lousa e o giz. Aos poucos, a menina demonstra mais confiança em quem a toca. "Já permite com mais facilidade que movimentem sua mão direita", conta a professora.

Tempos atrás, ela puxaria o braço em sinal de rejeição. Afinal, habituou-se desde criança a mantê-lo levantado para mexer a mão em frente ao olho direito, talvez para perceber as luzes que a pouca visão permite. "Para ela, é como se fosse uma sensação de prazer", diz Carolina. "Nosso desafio é fazê-la baixar o braço para ela recuperar o equilíbrio do corpo", afirma o professor de Educação Física Renato Horta Nunes, que faz a aluna andar de mãos dadas com os colegas durante as aulas.

Prazer maior que esse Andréia só encontra no balanço da escola. Quando está nele, embalada, chega a gargalhar (mesmo sem nunca ter visto ou ouvido alguém fazer isso). Estica-se e joga-se para a frente e para trás, segurando a corda com firmeza. "É como se ela reordenasse o equilíbrio do corpo", explica Carolina. Um ano atrás, a menina chegava à escola no colo da mãe ou do irmão, ficava descalça e perambulava pelos corredores sem destino. Com a chegada de Carolina, Andréia já usa uma colher para comer, segura o copo ao tomar água, lava as mãos e fica sentada em sua carteira durante as aulas.

A Matemática nas mãos

Toda escola tem obrigação de receber qualquer aluno, mas não basta simplesmente matricular as crianças com deficiência múltipla. "É preciso ter estrutura", diz Carolina. Nessa hora, entram em cena os educadores que dão o melhor de si para atendê-las.

Em Brasília, a professora de Matemática Patrícia Renata Marangon, da 6a série da EE EC-405 Sul, não teve muitas dúvidas sobre o que fazer quando, no ano passado, recebeu em sua classe Paulo Santos Ramos, aluno cego, com apenas 30% da audição num ouvido e pouco movimento nos braços. Nas primeiras aulas, ela percebeu a afinidade do garoto com números e contas e a vontade que tinha de solucionar problemas. Decidiu inscrevê-lo numa olimpíada nacional de Matemática. Paulo, então com 16 anos, conquistou uma das 300 medalhas de ouro concedidas pelo torneio, que teve cerca de 10,5 milhões de participantes.

Sem uma versão da prova em braile, Patrícia adaptou ao material concreto as figuras geométricas que apareciam em algumas questões: "Pensei numa forma de fazer Paulo raciocinar com autonomia, sem a interferência dos professores que fariam a leitura das questões". Deu certo. A compreensão das ilustrações ficou por conta da sensibilidade das mãos do garoto, que apalparam figuras feitas pela professora com palitos de dente, EVA, cartolina e papel cartão.

Paulo foi o primeiro aluno com deficiência que Patrícia recebeu. O único apoio especializado que a escola oferecia na época era o de um professor itinerante que fazia transcrições para o braile. "Foi difícil lidar com a falta de audição", diz Patrícia. Mas ela não se deu por vencida. Sentava perto do aluno, aumentava o tom de voz dentro da sala de aula e falava bem perto do ouvido do menino, o que a deixava exausta. Antes que perdesse a voz, lembrou-se de uma caixa de som e um microfone que a escola usava em eventos e passou a dar suas aulas com o equipamento.

Ele não nasceu cego. Por isso, lembra de imagens e formas. Aos 2 anos, durante as férias que passou com os pais em Cuba, levou um tombo enquanto brincava. Na volta, seu joelho não desinchava. Os pais levaram-no de um médico a outro para entender o porquê do hematoma persistente. "Foi diagnosticada a artrite reumatóide juvenil", lembra a mãe do menino, Maria Lima dos Santos. Uma em cada mil crianças tem essa doença, uma inflamação crônica que afeta as articulações, os olhos e o coração.

Aos 3 anos, o pequeno entrou na escola regular com problemas nos joelhos e nos olhos. "Quando sua letra começou a aumentar, me aconselharam a colocá-lo numa escola especial", diz Maria, que se recusava a ver seu primeiro filho, "tão lindo e perfeito", aprender braile. "Tive aversão ao braile até descobrir como seria necessário", admite ela, que chegou a afastar Paulo dos estudos por causa disso.

Quando Paulo concluiu a escola especial, onde cursou as duas primeiras séries, voltou à escola comum para continuar a Educação Básica. Sugeriram que ele repetisse o ano. "Os professores afirmaram que ele se adaptaria melhor, já que tinha saído de uma turma de quatro alunos e entrado numa de 20", lembra a mãe. Ao chegar à 6ª série, o aluno, defasado, teve a sorte de deparar com a professora Patrícia, que o levou à olimpíada, apesar da descrença de alguns de seus colegas de trabalho. "Ele tem uma força de vontade que nunca vi em crianças sem deficiência", diz ela. A imprensa divulgou o desempenho do menino e seu feito teve repercussão. "Recebeu até convite de universidade para contar sua história", conta a mãe. Aos 17 anos e com cara de 12 anos (parou de crescer por causa dos remédios que tomou), Paulo não tem medo de público. Adora falar. Só uma otite pode impedi-lo, pois ela causa dor e surdez. Mas já está aprendendo libras para atravessar momentos como esse. Quem conta é Maria, que superou seu horror a braile.

"Ele quer se casar e trabalhar", diz ela. O menino que não tomava banho sozinho nem andava com a cadeira de rodas em casa hoje é praticamente atleta. Faz exercícios abdominais e flexões, fisioterapia e natação para recuperar os movimentos das pernas e evitar cirurgia.

Apaixonados pela escola

Enquanto Paulo se exercita, Matheus Gomes de Sousa, 7 anos, faz cada curva com a cadeira de rodas. "A gente pensa que ele vai capotar", conta a mãe, Rita de Abreu de Souza, de Rio Branco. Ele é espoleta e agitado desde a pré-escola, quando plantava pé de cebola na horta, brincava de escalar no morro de terra, rastejava pelo chão imitando cobra e competia em natação.

Ninguém diria. Matheus, que sofre de hidrocefalia, carrega uma válvula implantada no corpo para drenar o excesso de líquido no cérebro. Também tem deficiência mental, paralisia nas pernas e usa fraldas. Está na 1ª série da EEEF José Sales de Araújo e vai muito bem. "Lê tudo sozinho para fazer os deveres de casa", diz Rita.

Matheus não é um medalhista em Matemática, mas a professora Damiana dos Santos Gomes não vê nada de errado nisso. "É uma dificuldade com a qual estou acostumada", diz. O diagnóstico de deficiência mental nunca serviu de barreira para seu bom desempenho na escola. "Ele nem precisa de sala de recursos para desenvolver-se intelectualmente", conta ela.

O garoto depende da ajuda alheia somente para a troca de fraldas. Por causa da paraplegia, não controla a vontade de ir ao banheiro. Sua mãe cobrou esse cuidado da escola. "Falei que Matheus precisaria ser trocado nos horários certos", conta Rita. Nada disso o intimida. Se for preciso, vai à sala de aula aos domingos de tanto que gosta de estudar. Até reclamou da mãe - que é professora - para o pai quando ela cogitou tirá-lo de lá.

Matheus freqüentou a classe especial até os 4 anos, mas foi na regular que fez amigos. "Antes, ele quase não convivia com crianças", diz Rita. Já a garotada sem deficiência instigou-o a explorar o próprio corpo. "O convívio com outros modelos de comportamento estimula o lado sadio da criança", diz a especialista Carolina Bosco.

A aluna Sandy Gracioli Sartori, 5 anos, só começou a engatinhar ao entrar na EEI Fazendo Arte, em Rio Claro, a 180 quilômetros de São Paulo. Ela já venceu muitos obstáculos. Nasceu com pouco mais de 1 quilo, aos seis meses de gestação. Das mãos do obstetra, foi direto para a unidade de terapia intensiva, onde ficou 15 dias. Foi entubada. Passou por uma cirurgia de duas horas e meia. Sofreu parada respiratória e falta de oxigenação no cérebro. Usou bolsa no intestino durante dois anos.

Hoje, sua mãe, a dona-de-casa Silmara Gislaine Sartori, não permite que deixem Sandy o tempo todo na cadeira de rodas na escola. "Ela começou a engatinhar e se mexer na cama elástica porque via as outras crianças brincando", diz. Sandy só fica na cadeira para comer ou ser levada à videoteca. E muitos se animam a ajudar a empurrar a colega. Ela não gosta muito dessa disputa e, quando é contrariada, grita e enruga o rosto como quem vai chorar. "Quando ela bate palma e manda beijo, quer dizer que está gostando do ambiente", conta a professora Camila Ferreira Lopes, que aprendeu a interpretar os gestos da pequena geniosa.

Camila foi bem preparada pelas psicólogas da escola para receber Sandy na turma do maternal. Ela também conversou com a fisioterapeuta, a fonoaudióloga e os pais da menina diversas vezes. Sandy não andava nem falava, só comia alimentos pastosos e tinha o raciocínio um pouco lento. Mesmo com tantos avisos e informações, Camila ficou travada quando se viu diante da aluna. "Eu não sabia como falar com ela, como segurá-la, que tipo de brincadeira fazer", diz. Enquanto isso, a meninada de 3 anos não se deixava abalar. "A relação entre as crianças e Sandy era muito carinhosa. Não sei por que me sentia tão apreensiva."

Atividades e estratégias

Rotina da escola

Estabeleça símbolos na sala de aula para que um aluno surdocego compreenda, aos poucos, sua rotina escolar: ao entrar na sala, ele toca a porta, o quadro e o giz, sempre na mesma ordem e com a ajuda do professor ou de um colega; antes de iniciar uma atividade, ele pode passar as mãos nas folhas de um caderno. O mesmo mecanismo serve para a hora do lanche e de ir embora.

Roda de brincadeira

Observar o comportamento das crianças sem deficiência ajuda aquelas que têm deficiência múltipla a se desenvolver. Por isso, faça jogos e brincadeiras que reúnam a turma no final das aulas. Se o aluno com paraplegia, por exemplo, tem dificuldade para se movimentar, sente-o no chão (se o médico autorizar), em roda com os demais, e proponha uma atividade em que eles usem as mãos e os braços.

Incentivo ao movimento

É possível estimular a criança de pré-escola que não engatinha. Deitada numa cama elástica, ela sente as oscilações causadas pela atividade dos colegas. Vê-los engatinhando e rolando a leva a tentar os mesmos movimentos. Se o médico autorizar, deixe-a o mínimo tempo possível na cadeira de rodas. Ela se sentirá instigada a se mexer ao se sentar com os colegas num tapete ou tatame.

Histórico do aluno

Pesquise tudo sobre a criança: de onde ela vem, como é a família, como se comunica e quais as brincadeiras preferidas. Na avaliação, valorize a evolução do aluno, dentro de seus limites, e não os resultados. Afinal, em certos casos há um grande avanço entre chegar sem falar e depois participar das aulas oralmente.

Quer saber mais?

Contatos

. EMEF Doutor João Alves dos Santos, R. Manoel Tomas, 288, 13067-170, Campinas, SP, tel. (19) 3281-2694

. EE EC-405 Sul, SQS 405, Área Especial, 70239-000, Brasília, DF, tel. (61) 3901-7694

. EEEF José Sales Araújo, Av. Pastor Muniz, Conj. Universitário 2, s/no, 79915-300, Rio Branco, AC, tel. (68) 3229-4141

. EEI Fazendo Arte, Av. 32A, 112, 13506-675, Rio Claro, SP, tel. (19) 3534-7600

Bibliografia

. Deficiência Múltipla e Educação no Brasil, Mônica Kassar, 113 págs., Ed. Autores Associados, tel. (19) 3289-5930, 24 reais

. Inclusão - Um Guia para Educadores, Susan e Willian Stainback, 456 págs., Ed. Artmed, tel. (51) 3027-7000, 64 reais

sexta-feira, 4 de março de 2022

Deficiência visual cortical: a criança parece não ver, mesmo com olhos saudáveis

Ver é complexo. É preciso ter isso em mente e fugir da ideia de que simplesmente vemos com os olhos. Isso prejudica a compreensão de muitos profissionais de saúde, pais e professores sobre a deficiência visual de causas não oculares, conhecida como deficiência visual cortical (DVC).

Por Maria Amélia Franco para o visaonainfancia.com

criança com deficiência visual cortical não fixa olhar, nem se interessa por estímulos

Tenha em conta que existe ainda um espectro maior de ocorrências em outras áreas do cérebro, por isso hoje já se fala do termo deficiência visual cerebral, ou deficiência visual neurológica. Há desordens visuais associadas a danos além do córtex visual, incluindo áreas associativas do córtex, estruturas subcorticais e vias que compõe a substância branca do cérebro / Jenny Erickson :: FreeImage

Atenção

Os reflexos de fixação e os movimentos de perseguição, em sentido horizontal, vertical ou circular, se desenvolvem a partir do segundo mês. Com três meses, os bebês são atraídos por objetos brilhantes, em cores vibrantes ou que gerem forte contraste, e pessoas até 20-25 cm de distância.

Por trás da ausência de fixação e de interesse do bebê pelos estímulos podem haver diversos diagnósticos que precisam ser investigados.

Eu aprendi que a criança enxerga com o cérebro através dos seus olhos. Por isso, para ver bem ela depende que estejam preservadas as estruturas oculares, as vias visuais e diversas regiões cerebrais que processam as informações. Porém, tradicionalmente, muito da compreensão sobre a deficiência visual tem sido focada nas consequências de doenças e condições que afetam o olho ou o nervo óptico (como cataratas, glaucoma, retinopatias).

É também importante, claro! Contanto que não seja ignorada a possibilidade de um diagnóstico precoce de deficiência visual cortical e de que é possível intervir.

Embora este texto elucide muitas coisas para você, talvez seja difícil neste imenso Brasil encontrar profissionais que possam ajudar, entre médicos, terapeutas e educadores. O conhecimento a respeito é ainda limitado, mas pode ser adquirido! E falaremos muito sobre isso aqui no blog.

Como diagnosticar a deficiência visual cortical?

Em um webcast para a Perkins School for The Blind, a Dra. Christine Roman, que é autoridade sobre DVC, destaca que infelizmente não existe um protocolo ou recomendação das sociedades médicas para identificar crianças com deficiência visual cortical, como há quanto aos exames oftalmológicos, por exemplo.

No entanto, ela comenta que algumas avaliações preliminares podem ajudar a diagnosticar a DVC:

  • O exame oftalmológico não explica a maneira como o bebê ou a criança vê. Ou seja, mesmo com anatomia ocular normal, ela não olha para o rosto das pessoas e não se interessa por objetos e brinquedos dentro do seu campo visual.
  • Houve algum grande evento neurológico no desenvolvimento do bebê ou após o nascimento.  As ocorrências mais comuns associadas à DVC são a encefalopatia hipóxico-isquêmica por falta de fluxo sanguíneo cerebral e liberação de oxigênio em recém-nascidos prematuros e a termo, o traumatismo craniano e as infecções do sistema nervoso central, como meningite e encefalite.
  • A criança apresenta estes dez comportamentos característicos da DVC listados abaixo.

10 comportamentos típicos avaliados na deficiência visual cortical

  1. Preferência por cor – crianças com deficiência visual cortical são geralmente atraídas por coisas que têm cores altamente saturadas. Vermelho e amarelo são as cores mais reportadas. Então, ela pode não se interessar pelo tradicional contraste preto e branco.
  2. Atenção ao movimento – apresentar um objeto em movimento atrai a atenção visual da criança com DVC e aumenta o tempo de observação e interesse pelo mesmo. Assim como o cintilar ou brilho de luzes e itens metálicos que dão a sensação de movimento.
  3. Demora para responder ou reagir a um estímulo (latência) – ao mostrar algo à criança com DVC, ela não olha imediatamente, só um tempo após se vira e olha.
  4. Aversão à complexidade – espaços com distrações e poluição visual tornam quase impossível para a criança com DVC perceber e processar os estímulos. Ao apresentar um só objeto por vez, sobre um fundo negro contrastante, sem informações sensoriais concorrentes (pessoas falando, música, brinquedos com som), é possível que ela se concentre em vê-lo.
  5. Alteração no campo visual – a criança com deficiência visual cerebral pode enxergar apenas em partes do seu campo de visão. É preciso avaliar onde ela percebe o estímulo. Ela pode virar um pouco a cabeça ou notar apenas coisas de um lado, e muito comumente, ter dificuldade em perceber o que está abaixo.
  6. Dificuldade com aquilo que é novo ou não lhe é familiar – é natural prestar atenção para aquilo que é novidade, seja por fugir do padrão, do comum ou pelo estado de alerta ao desconhecido. Contudo, para a criança com DVC é um “ruído” do qual ela quer “fugir”. Então elas respondem melhor a coisas que viram repetidas vezes.
  7. Ausência do reflexo de piscar quanto você a toca na ponte do nariz, ou em resposta à uma ameaça visual, como um objeto indo direto em sua direção.
  8. Dificuldade de visualização à distância – a criança com deficiência visual cortical pode não notar algo do outro lado de uma sala, mesmo com exame de vista OK. Isso porque tudo se “mistura” com o fundo, o cenário ou a paisagem. É difícil perceber cada coisa em separado, o que torna a visualização próxima mais fácil.
  9. Olhar para e buscar a luz – a criança com DVC tem muitas vezes a necessidade de olhar para as luzes e ter mais luz no ambiente. Ela não fecha os olhos defensivamente diante da luz intensa, ao contrário, a encara.
  10. Não integrar visão e ação – a capacidade de olhar um objeto e alcançá-lo como uma única ação não é evidenciada na criança com DVC. Ela olha para um alvo, desvia o olhar, e depois tenta alcançar sem olhar.

Aprender a ver é um processo

Além do reconhecimento da deficiência visual cerebral, que pode se manifestar em diferentes “graus”, outro desafio é aumentar as expectativas dos pais, médicos, terapeutas e professores sobre as possibilidades de aprendizado dessa criança.

Simplificando, compartilho as palavras da Dra. Christine Roman sobre as crianças com DVC: “(antes do diagnóstico) Elas estão realmente em uma espécie de período de privação. Elas não estão recebendo informações de seu mundo visual. E as expectativas das pessoas são baixas em relação a essas crianças, conformando-se que elas simplesmente são assim em decorrência das ocorrências tão graves que acometeram seus cérebros”.

Enfim, para elas, aprender a ver é um processo e há formas específicas de intervenção.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

13 dicas para brincar com crianças com deficiência visual

Porque brincar é um direito de TODAS as crianças, sem qualquer distinção

A pedagoga da Fundação Dorina Nowill para Cegos, Edni Fernandes Silva, lista 15 brincadeiras para estimular a diversão de crianças com deficiência visual ou de baixa visão. Afinal, toda criança tem o direito de brincar e vivenciar sua infância plena. 
 
Brincadeiras para crianças com deficiência visual
 
Durante todo o mês de abril, foi trabalhado em todo o país o “Abril Marrom”, mês de sensibilização sobre a realidade de pessoas cegas ou com deficiência visual. A data é um esforço de diversas entidades médicas, centros hospitalares para minimizar os efeitos provocados pela perda da visão.
 
Quando o assunto é infância, é preciso considerar que práticas de inclusão passam por um entendimento pleno do contexto da criança com deficiência, mas não podem, em hipótese alguma, desconsiderar que a criança jamais deve ser esvaziada de sua principal característica: a ludicidade.
 
Por isso, levar em conta as limitações dessas crianças na hora de planejar as brincadeiras dos pequenos é fundamental. Por ocasião da Semana Mundial do Brincar de 2017, a Fundação Dorina Nowill listou algumas dicas simples mas cruciais para incluir crianças com necessidades específicas:
 
Uma das pedagogas da instituição, a profissional Edni Fernandes Silva, tem algumas dicas de como brincar e estimular a brincadeira com as crianças que têm deficiência visual, garantindo um melhor desenvolvimento dos pequenos.
 
1. Reconhecimento do outro: Use toques e voz suaves ao se comunicar com a criança que tem deficiência visual, aproximando sua face do rosto dele para que ela possa percebe-lo e toca-lo.
 
2. Conhecendo o próprio corpo: Auxilie a criança a conhecer o próprio corpo com toques enquanto nomeia cada parte tocada.
 
3. Descobrindo os sonhos: Incentive que a criança siga em direção ao som de brinquedos ou da sua voz. É interessante ter brinquedos que emitam sons, como chocalhos, bolas e pelúcias com guizos.
 
4. Investindo na sociabilidade: Brinque com a criança com deficiência visual e incentive que outras pessoas também brinquem e interajam com ela. Assim, ela se tornará mais sociável e receptiva, facilitando os relacionamentos interpessoais.
 
5. Imitando sons: Imite os sons que seu bebê faz e crie estímulos para que ele possa imitá-lo. Isso auxiliará na comunicação.
 
6. Curiosidade sensorial: Se o bebê ainda não senta, coloque-o de lado para manusear o brinquedo. Invista em brinquedos com texturas diferenciadas, para estimular o tato e a percepção de diferentes objetos.
 
7. Jogo de orientação: Dê objetos à criança nomeando-os e relacionando às possíveis ações que poderão ser feitas com este item. Exemplo: “A bola. Pegue a bola. Chute a bola. Jogue a bola para cima”.
 
8. Conhecendo texturas e formatos: Procure usar brinquedos contrastantes, coloridos, luminosos, de diversas texturas e tamanhos.
 
9. Explorando a curiosidade tátil: Propiciar momentos em que a criança manipule e crie espontaneamente jogos a partir da exploração de objetos concretos.
 
10. Brincadeiras com miniatura de objetos: Elas possibilitam que a criança tenha uma melhor compreensão de objetos muito grandes ou impossíveis de serem alcançados (casinha com telhado, elefante, caminhão, avião, fogão, geladeira, entre outros).
 
11. Brincando com as mãos: Vale incentivar brincadeiras infantis com o uso das mãos, como dedo mindinho, seu vizinho; passa anel.
 
12. Jogos com bola: Se não for possível ter uma bola com guizo, envolva a bola com saco plástico, assim ela fará barulho enquanto se desloca.
 
13. Salte para o alto: Com a criança agachada, segure em suas mãos e peça para ela se levantar ”bem forte e bem alto”, ajudando com um leve “puxão“ para cima. 
 
Brincar de fantoche com as crianças favorece a expressão de emoções e fortalece os vínculos afetivos.
 

Jogos brincadeiras para fazer com crianças cegas ou de baixa visão

  • Brincadeiras de roda: Cantigas, parlendas, rimas;
  • Meu mestre mandou: Como sugestão, trabalhar o esquema corporal com as crianças, solicitando que coloquem as mãos na cabeça, joelhos, pescoço, cotovelo, barriga, pés, mãos, etc.
  • O que é, o que é?: Brincar de adivinhação utilizando as mãos para descobrir a textura e formato dos objetos. Materiais como embalagens de xampu, escova de dentes, talheres (colher e garfo), chaves, caneta/ lápis, frutas, etc.
  • Vai e vem: Brincar alternando a criança de lugar é um estímulo à coordenação visuomotora.
  • Fantoches/Dedoches: Esses brinquedos estimulam a imaginação, linguagem e o pensamento, além de  favorecerem a comunicação e expressão de sentimentos e emoções.
  • Blocos de construção: Brincar com blocos favorecem o desenvolvimento da atenção e concentração, associação de formatos  e tamanhos, desenvolvimento de movimentos amplos e finos, coordenação visual e motora e noções de equilíbrio. Esses brinquedos também propiciam à criança a satisfação de inventar, construir, desconstruir e transformar, estimulando a criatividade.
  • Massa de modelar: Estimula o desenvolvimento da coordenação motora fina e a criatividade.
  • Jogo da velha adaptado: Permite interação com quem não tem deficiência visual.
  • Jogo da memória tátil: Utiliza a percepção tátil e a memória para reunir o maior número de peças.

Brincadeiras que retomam a infância dos pais

  • Estátua;
  • Passa anel;
  • Centopeia;
  • Telefone sem fio.

Brincadeiras fáceis de fazer

  • Jogo de argolas: Estimula a percepção visuomotora, a identificação de cores para as crianças com baixa visão e a relação número / quantidade. Confecção: Colocar uma porção de areia no fundo de 10 garrafas descartáveis. Cortar tiras de papel crepom colorido e colocar uma cor em cada garrafa. Recortar números de 1 a 10 em papel preto ou fita adesiva preta e fixar cada número em uma garrafa. As argolas podem ser confeccionadas com tampas de plástico ou anéis de fitas adesivas que encaixem nas garrafas.
  • Jogo de boliche: Estimula a percepção visuomotora, a identificação de cores e a relação número x quantidade. Confecção: Colocar uma porção de areia no fundo de 10 garrafas descartáveis. Cortar tiras de papel crepom colorido e colocar em cada garrafa uma cor. Recortar números de 1 a 10 em papel preto ou fita adesiva preta e fixar cada número em uma garrafa. As bolas podem ser confeccionadas com meias velhas. E podem ter guizos em seu interior
Fonte: Lunetas

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Braile – As palavras nas pontas dos dedos

Pensando naqueles que não podem enxergar, um sistema de leitura para cegos foi criado. O sistema foi idealizado primeiramente para utilização militar, para que conseguissem ler mesmo no escuro e foi adaptado e aperfeiçoado pelo deficiente visual Louis Braile, de onde é a origem do nome.

O método foi criado em principio por 12 pontos que foram aperfeiçoados para 6 pontos. Eles são formados por duas colunas com 3 pontos cada. A junção dos seis pontos traz a possibilidade de formar 63 símbolos distintos onde são utilizados para leitura de literatura, música, matemática e atualmente também na informática.

Para conseguir fazer a leitura em braile é necessário o conhecimento dos símbolos que pelos deficientes visuais é lido através do tato, pelos dedos. O método de leitura é realizado da esquerda para a direita e é possível fazer a leitura também com a visão.

Infelizmente são raros os locais e estabelecimentos que disponibilizam para os deficientes visuais cardápios e instruções com leitura em braile. Locais onde o acesso é dificultado e impossibilita a circulação e autonomia de deficientes visuais, pois sempre necessitam de ajuda de alguém.

Já na informatização, o avanço ocorre de forma incrível. Onde capas de teclado foram criadas para leitura em braile e oferecem a oportunidade de deficientes visuais a utilizar computadores. Melhor que isso, programas que conseguem traduzir o Palavras para o braile e vice e versa, imprimindo através da voz do usuário o que estão pesquisando. Existem também opções de computadores falantes que informam cada aplicativo e caminhos para que o deficiente visual possa participar da vida virtual normalmente, inclusive redes sociais postando fotos, comentando posts e verificar todas as suas atualizações.

E para que possam ter acesso total e ter uma vida normal é possível encontrar equipamentos, brinquedos e até mesmo relógios com leitura braile. Alguns equipamentos criados para cegos utilizam invés do braile, o som. O código braile possibilita que cegos produzam, realizem projetos e tenham uma vida como qualquer outro cidadão. Aguarda-se a evolução e a adaptação do método como forma obrigatória de comunicação em todos os locais públicos, e oferecem assim a oportunidade de igualdade que todo ser humano merece.

Crianças Cegas

Logo nos primeiros meses é possível notar alguns sinais de diferença de comportamento do bebê. Sintomas como o olhar perdido e vazio, a ausência de reações quando esta próxima ao seu corpo e o fato de não seguir com os olhos os movimentos ao seu redor, estes são sinais evidentes de algum problema na visão.

O diagnóstico é dado por um especialista após avaliação e exames complementares que trarão informações sobre o grau da cegueira. Em alguns casos, crianças conseguem enxergar vultos e sombreados, ou até conseguem enxergar com o objeto bem próximo aos seus olhos. Já em outros mais graves, a criança não consegue enxergar absolutamente nada, e tem como acesso ao mundo o tato e o sexto sentido que é extremamente aguçado.

Problemas de cegueira podem ocorrer por diversos fatores. Podem ser desde o nascimento como decorrentes de algum problema de saúde, incluindo infecções oculares. Para entender como vive uma criança cega, basta fechar os olhos e se esforçar para enxergar o mundo através das mãos. O medo e os questionamentos sobre como será a vida de seu filho deficiente visual é inevitável, afinal, todos temos medo do desconhecido e das dificuldades do mundo. O primeiro passo é procurar um especialista que irá direciona-los para um acompanhamento adequado e poderá proporcionar a direção que irá precisar daqui para frente.

A criança cega necessita dos mesmos cuidados de uma criança que tem a visão perfeita. Precisa de amor, carinho, disciplina, educação, lazer, compreensão e acima de tudo, muita paciência. Ele poderá não conseguir realizar algumas tarefas, mas ser totalmente competente em outras. Muitos se identificam com a prática de esportes ou com a arte e tornam-se artistas renomados. Como não conseguem enxergar, desenvolvem minuciosamente os outros sentidos identificando com precisão sons, odores e o toque.

Existem alguns institutos e organizações que apoiam, incentivam e auxiliam crianças e adultos deficientes visuais. Ajudam a proporcionar a chance de aprendizado e o direito de ler e escrever mesmo que por métodos de braile. Inclusive devido a inclusão social obrigatória, conseguem qualificações e oportunidades profissionais, onde crescerão profissionalmente e terão seus devidos reconhecimentos.

Fonte: trocandofraldas.com.br

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Professora de SP inspira aluna cega a seguir sua mesma profissão: ‘Meus alunos têm direito a tudo’

Por Gabriel Pietro para o razoesparaacreditar.com

Há mais de dez anos, a professora Valéria Freitas da Silva Vilanova é responsável por acompanhar alunos com deficiência visual, intelectual, auditiva, entre outras, na escola onde trabalha, em Campinas (SP).

Para ela, educar é uma missão para garantir o aprendizado e a inclusão deste grupo de estudantes. Mais do que isso, ela tem inspirado os alunos, como uma menina que, aos 11 anos, deseja seguir na mesma profissão de Valéria por conta da amizade com a docente.

No Dia do Professor, comemorado no dia 15 de outubro, Valéria, 39 anos, contou ao portal G1 que ensina para 39 crianças com idades entre 6 a 14 anos na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Oziel Alves Pereira, na periferia da cidade paulista.

Para Emilly Raquel Franco, uma de suas alunas, a professora é sua referência em todos os sentidos, inclusive o profissional. Ela se diz “decidida” a seguir a profissão de Valéria, apesar da pouca idade.

Educação especial

Valéria acredita que sua boa atuação na escola funciona a partir do equilíbrio entre as esferas das famílias, da instituição de ensino e das crianças. Ela atende alunos com dificuldades de locomoção, paralisia cerebral e Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para que o aprendizado ocorra, todas essas engrenagens precisam caminhar juntas.

“A educação especial mudou minha vida, me fez vê-la de outra forma. Aprendi com as famílias e professores que já estavam nessa área, mas principalmente com as crianças. É lindo ver como eles têm potencial e são extremamente capazes de avançar, aprender e conquistar. Me fez acreditar ainda mais nessa profissão. Meus alunos têm direito a tudo”, explicou.

A educadora leciona para Emilly há seis anos, e conta estar cada vez impressionada com a altivez da pequena. “Minha carreira ficou completa ao ouvir isso”, destacou Valéria, sobre a vontade da aluna “em ser como ela”.

Para Maria da Cruz Pinheiro Franco Assunção, mãe de Emilly, a menina se desenvolveu muito desde que ingressou na escola, tanto nos estudos quanto nas relações de amizade. “Confio muito no trabalho da Valéria, ela é um anjo que entrou na vida da minha filha. Uma segunda mãe”, apontou.

Desenvolvimento pessoal

O processo de aprendizado de Emilly é acompanhado por Valéria desde o início do ensino fundamental. Nos últimos 6 anos, ela construiu um vínculo especial com a aluna, que agora cursa o 6º ano.

“Ela chegou no primeiro ano marcando presença e reivindicando seu espaço. Acompanhei todo o processo de alfabetização da Emilly e no começo ela não queria usar o braille. Aos poucos fomos ajudando ela com a construção de sua identidade e as adaptações.”

A menina se adaptou com relativa rapidez ao cotidiano escolar, graças em parte à boa relação com os colegas. “Alguns meses depois que chegou na escola, ela contou que onde estudava os colegas não brincavam com ela, que a discriminavam com apelidos pejorativos. E disse que gostava muito de onde estava agora porque tinha amigos que a chamavam de linda. Logo que ela chegou, comecei a chamá-la de ‘Emilinda’ e o apelido pegou entre os colegas”.

Mais do que ser uma professora, Valéria se considera uma “articuladora” que media as relações entre as crianças e seus variados graus de deficiência, criando um senso de grupo na turma.

“O preconceito não vêm com as crianças, muitas vezes é um reflexo dos adultos que estão a sua volta. Quando uma criança vê as outras acolhendo um aluno com deficiência, ela entra nesse movimento”, relatou.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Como incluir deficientes visuais nas aulas de Física?

 cartacapital.com.br

DOCENTE PODE USAR MATERIAIS QUE FAÇAM COM QUE O ALUNO PERCEBA AQUELE CONCEITO ATRAVÉS DO TATO

Recursos visuais são comumente utilizados por professores de Física para ajudar os alunos a compreender conceitos. Basta pensar em uma aula de óptica: esquemas mostrando o comportamento da luz ao incidir sobre um espelho ou a refração dos raios de acordo com diferentes tipos de lentes costumam preencher lousas e materiais didáticos.

Tal abordagem, entretanto, exclui alunos com deficiência visual do processo de aprendizagem. É o que alerta Eder Pires de Camargo, autor do livro Saberes Docentes para a Inclusão do Aluno com Deficiência Visual em Aulas de Física, da editora Unesp.

“Chamo a situação de um aluno cego ou com baixa visão em uma aula de Física tradicional de condição de estrangeiro, pois é análoga à de uma pessoa em um país do qual desconhece o idioma. O aluno não tem acesso à informação, não compreende os conceitos ou nem sequer constrói dúvidas”, explica o professor da Unesp de Ilha Solteira (SP), que tem deficiência visual.

Resultado de um pós-doutorado e de um projeto de atividades pela Unesp de Ilha Solteira, a obra elenca estratégias e competências que professores do Ensino Médio devem desenvolver para incluir alunos com deficiência visual: “A maioria dos conceitos não estabelece uma relação direta com a visão”.

Entre as estratégias estão aulas nas quais o professor descreve auditivamente o que ele escreve ou desenha na lousa. Já para os conceitos mais difíceis de explicar pela fala, como é o caso de uma parábola, Camargo sugere o uso da linguagem tátil-auditiva.

“O docente pode usar materiais que façam com que o aluno perceba aquele conceito através do tato, como representações de gráficos em alto-relevo e maquetes. Assim, o professor conduz a mão do aluno pela estrutura enquanto explica auditivamente o conceito.”

Preterido, o tato é uma percepção sensorial importante e pode despertar nos alunos, cegos ou não, novas sensações. “A percepção tátil é analítica: você primeiro analisa as partes para então chegar ao todo. Já a observação pela visão é sintética: capta-se o todo primeiro para depois perceber as particularidades”, explica.

Outro saber importante é conhecer a história visual do aluno, pois a situação de um estudante que nasceu cego não é a mesma daquele que perdeu a visão. “O que nasceu cego não tem experiências empíricas de muitas coisas, como a lua e a estrelas. Por isso, o professor, antes de sair dando uma aula de astronomia, precisa entender qual é a representação que esse aluno tem desses elementos.”

Já para os alunos com baixa visão, é importante identificar até onde ele consegue enxergar. Saber se consegue ver cores, linhas fortes ou imagens ampliadas pode fornecer pistas de recursos para o ensino. O livro está disponível para down-
load gratuito no site da editora.

*Publicado originalmente em Carta na Escola

sexta-feira, 27 de março de 2020

Fundação Dorina disponibiliza gratuitamente livros infantis acessíveis para entretenimento de crianças com deficiência visual

Grandes clássicos da literatura, como 'Os três porquinhos' e 'Peter Pan', estão disponíveis gratuitamente em formatos acessíveis na Dorinateca


Por Fernando Freitas para o fundacaodorina.org.br


Para evitar a propagação do novo coronavírus, as aulas têm sido temporariamente suspensas em todo o país. A medida, importante para conter o avanço da epidemia, deixou muitos papais e mamães de cabelo em pé. Afinal, como distrair as crianças agora? Uma boa solução são as atividades que estimulam o cérebro e a criatividade.

Nesse sentido, a leitura de clássicos infantis é uma ótima opção de entretenimento para os pequenos. E para aqueles que têm deficiência visual, a Fundação Dorina Nowill para Cegos pode ajudar, já que a sua biblioteca virtual, a Dorinateca , dispõe gratuitamente de um vasto acervo com opções de livros acessíveis nos formatos falado, digital acessível e braille para impressão.

“Entre os diversos gêneros que temos disponíveis, estão os clássicos que toda criança gosta. Desde contos de fada, como da Branca de Neve até aventuras como as de Robin Hood, que sempre estiveram no imaginário infantil e são atemporais”, explica Kely Magalhães, gerente de Serviços de Apoio à Inclusão da Fundação Dorina.


A gestora também reforça a importância do acesso aos formatos acessíveis de leitura para as crianças cegas e com baixa visão. “Ler proporciona condições de acesso à formação educacional e cultural, além de ampliar as possibilidades de trilhar um futuro mais independente, de maneira autônoma e plenamente cidadã”, afirma.

Vale ressaltar que a Fundação Dorina já distribuiu 3.000 unidades da Coleção Clássicos para diversas escolas e bibliotecas do país, beneficiando pelo menos 30.000 crianças. Confira abaixo a lista dos títulos da Coleção Clássicos e saiba como ter acesso a eles pela Dorinateca .

Coleção Clássicos:
1 – Bela Adormecida, de Simone Bibian
2 – Branca de Neve, de Jacira Fagundes
3 – Chapeuzinho Vermelho, de André Luiz P. Alves
4 – Cinderela, de Anna Claudia Ramos
5 – João e Maria, de Roberto de Carvalho
6 – Os três porquinhos, da Editora Globo
7- Peter Pan, de Julio Lira
8 – Pinóquio, de Viviane Brasil e Mary Aparecida Marques
9 – Rapunzel, de Regina Drummond
10 – Robin Hood, de Maurício Veneza

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

UNO cria versão em braille para que cegos também possam jogar


Para deficientes visuais, um simples e lúdico jogo de cartas é uma diversão impossível – tratam-se, afinal, de passatempos que dependem exclusivamente da visão dos jogadores para serem jogados. Ou assim eram: a Mattel, fabricante dos baralhos de UNO, acaba de lançar uma nova versão inclusiva do jogo, com descrição em braile das cartas para que os deficientes visuais também possam se divertir.

Assim, o jogo deixa de depender somente das cores das cartas para funcionar, e passa a poder ser jogado por quem perdeu a visão. A atualização é uma parceria entre a Mattel e a National Federation of the Blind, a maior e mais antiga organização pelos direitos dos cegos nos EUA. Além da descrição das próprias cartas em braile, o jogo também trará uma apresentação em braile na caixa e informações sobre os jogos no verso de cada uma das cartas.


Essa não é a primeira atualização inclusiva do clássico jogo: em 2017 a fabricante lançou um UNO para daltônicos, com a marcação dos selos iconográficos do código universal de cores, o ColorADD, indicando a cor de cada carta. Nos EUA o UNO para cegos será vendido por 10 dólares, mas infelizmente ainda não há maiores informações sobre o lançamento da nova versão do jogo no Brasil.

Fonte: Hypeness

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Deficientes visuais e suas dificuldades: um retrato da realidade

No Brasil, há cerca de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual. Apesar disso, a nossa sociedade ainda não está pronta para atendê-los em suas necessidades cotidianas, como nas ruas, escolas, prédios públicos, entre outros espaços. E você, conhece deficientes visuais e suas dificuldades?

Neste post, conheça os possíveis obstáculos enfrentados por essas pessoas em nosso país. Boa leitura!

No começo da vida

Do nascimento até os 3 anos, os bebês desenvolvem seus sentidos e seu sistema motor. A criança deficiente visual (cega ou com baixa visão) enfrenta dificuldades para apreender o mundo externo e se adaptar ao meio.

Assim, ela precisa contar com o apoio de pessoas que a ajudem a explorar o que está a sua volta a partir dos seus órgãos dos sentidos. É importante desenvolver atividades de estimulação prazerosas várias vezes ao dia. Quando não estimulado, o neném tende a ficar “grudado” no colchão, mantendo a maior parte do corpo em contato com a superfície. Com isso, o seu futuro desenvolvimento motor é prejudicado.

Quanto mais cedo as brincadeiras forem iniciadas, mais ele se sentirá confortável em qualquer posição (barriga para baixo, de lado e de costas). Os adultos devem ser capazes de despertar nele o desejo de conhecer e aprender, transformando suas mãos em órgãos também de percepção.


Na infância

Na escola, a adaptação depende do trabalho conjunto da equipe escolar, de profissionais especializados e da família. A criança deficiente visual não deve ser superprotegida. Se ralar os joelhos e ficar suja, como qualquer coleguinha, isso não deve ser visto como problema.

No que se refere à alfabetização, o aluno aprende em Braille, que é o inscrito em relevo explorado por meio do tato. Tal sistema requer o desenvolvimento de habilidades motoras finas, flexibilidade nos punhos e agilidade nos dedos. Além disso, a leitura tátil é considerada três vezes mais cansativa do que a visual.


Na adolescência

Nessa fase da vida, a prática esportiva ajuda na socialização e na aceitação, além de melhorar a autoestima e, claro, a saúde.

Quanto à sexualidade, os jovens têm impulsos sexuais e potencial para vivê-los como qualquer ser humano. Nesse caso, o jogo da paquera depende mais das palavras e do toque. No entanto, por um lado, são superprotegidos pelos pais e, por outro, sofrem preconceitos.


Deficientes visuais e suas dificuldades na vida adulta

O desemprego afeta grande parte das pessoas — inclusive aquelas que têm deficiência visual. A capacitação profissional para o domínio das novas tecnologias, sem dúvidas, amplia o acesso ao mercado de trabalho.

Embora encontrem diferentes obstáculos, muitas delas ocupam cargos em diferentes setores que exigem escolaridade e treinamento equivalentes aos de qualquer indivíduo que enxerga.

Um exemplo que impressionou o mundo foi o do fotógrafo piauiense João Maia. Mesmo com baixa visão, ele fotografou, em 2016, os Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro. Usando sua audição na hora de enquadrar os colegas deficientes, ele espera ser uma inspiração para quem se julga incapaz de fazer algo.

O humorista Geraldo Magela, também conhecido como “o Ceguinho”, é famoso por fazer piadas e contar “causos” de deficientes visuais. Sua página no Facebook tem mais de 320 mil seguidores e, atualmente, ele tem investido na produção de conteúdo para WhatsApp.

Agora que você já sabe mais sobre deficientes visuais e suas dificuldades, promova a inclusão dos que tem algum tipo de deficiência. Com o avanço da tecnologia, há produtos modernos e funcionais para garantir uma rotina cada vez mais independente.

Fonte: Ortoponto

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Professora se dedica ao ensino de crianças e adolescentes com deficiência, em Campina Grande

Luciana Rodrigues tem formação em Libras e Braille; ela leciona na rede municipal de ensino.


Por Waléria Assunção, TV Paraíba | G1

Professora tem formação em Libras e Braille — Foto: TV Paraíba/Reprodução
Professora tem formação em Libras e Braille — Foto: TV Paraíba/Reprodução

Vinte e oito anos da vida de Luciana Rodrigues foram dedicados à sala de aula. A professora ensina em uma escola municipal, localizada no bairro Estação Velha, em Campina Grande. O turno da tarde é dedicado ao ensino de crianças e adolescentes com deficiência.

A educadora possui formação na Língua Brasileira de Sinais (Libras), para se comunicar com alunos surdos e em Braille, para auxiliar no processo de aprendizagem de estudantes com deficiência visual.
“É especial realmente. Eu gosto muito do que faço. É a minha vida", contou Luciana, que não conteve a emoção.
“Eu estou vendo o avanço deles e me sinto muito gratificada”, destacou Luciana. A dedicação dela faz com que os alunos vençam as próprias limitações nos estudos.

Os pais dos alunos reconhecem a dedicação da professora. “Me sinto muito realizada. Vejo os cuidados dos professores daqui, especialmente em Luciana, que tem dedicado tempo e amor”, declarou Rávila Georgia.

Ensinar a ler e escrever foi a profissão que Luciana escolheu por amor. Sentimento percebido pelos gestos, no olhar e nas palavras de quem ensina e de quem aprende.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A aprendizagem de crianças com deficiências múltiplas

Andréia Pereira Gil, 12 anos, é surdocega. Não ouve e não enxerga quase nada - feixes de luz talvez, e só pelo olho direto. A alegria descoberta no vaivém do balanço é uma das maneiras que ela encontrou, na escola, de tomar contato com o mundo - apenas um dos muitos jeitos de sentir a vida


Por Débora Didonê para o Nova Escola | novaescola.org.br

Andreia Pereira Gil, deficiente mútipla, balançando no pátio da EMEF Doutor João Alves dos Santos. Foto: Kriz Knack 
Andreia Pereira Gil, balançando no pátio da EMEF Doutor João Alves dos Santos.
Foto: Kriz Knack 

Sensações. É por meio delas que as pessoas com deficiência múltipla aprendem sobre as coisas que estão a sua volta. A professora Carolina Bosco, especialista nesses casos, estimula a descoberta da sensibilidade com diversos tipos de toque e movimento, como numa recente cena vista na EMEF Doutor João Alves dos Santos, em Campinas, a 90 quilômetros de São Paulo. Ela dá a mão para Andréia equilibrar-se numa mureta. A menina apóia-se no seu braço para descer e as duas vão de mãos dadas até o pátio. A aluna abraça uma árvore e passa a mão sobre a casca. O contato arranca de Andréia um raro sorriso.

A cena não chamaria tanta atenção se não fosse o jeito diferente de ser da jovem. Ela gira a cabeça, baba e vive com o braço direito levantado. O grande desafio em relação a Andréia é criar um modo de comunicação para que ela reconheça lugares e pessoas. Foi a tarefa assumida por Carolina. A menina também conta com a ajuda de Carmen Sílvia Dias, sua professora da 2ª série, onde tem 30 colegas. Ambas procuram maneiras de explicar por que ela vai à escola e o que todos fazem por lá.

Carolina formou-se em Pedagogia com ênfase em Deficiência Mental na Universidade de São Paulo e é pós-graduada em Arte em Educação Especial pela Universidade de Paris. Ela já havia trabalhado com alunos com deficiência múltipla (associação de duas ou mais deficiências, como mental e física ou auditiva, visual e física), mas Andréia é a primeira que atende em escola regular. Ali, elas cumprem um cronograma, religiosamente, toda segunda, quarta e sexta-feira. É quando Andréia mexe com sucata, aprende a escovar os dentes, caminha pelo pátio da escola, sente a vibração da música colocando as mãos sobre um rádio portátil e brinca no balanço. "É um trabalho de reorganização corporal, percepção tátil e de volume", diz Carolina. Aos poucos, a menina aprende a lidar com o próprio corpo.

Carmen foi a única professora da escola que se dispôs a acolher Andréia. A menina está com ela desde a 1ª série. "No começo, parecia que seria impossível controlá-la. Ela levantava no meio da aula e mexia em tudo", diz. "Não sabia usar o tato para se comunicar e logo se cansava de ficar na carteira apalpando o alfabeto móvel." Por isso, a união do trabalho de Carmen e Carolina fez a diferença. "Uma criança com deficiência precisa de dois professores", afirma Carolina. "O de classe, que atua na área da aprendizagem de maneira geral, e o especializado, que trabalha na dos distúrbios." Por isso, enquanto Carolina desperta o lado comunicativo de Andréia, Carmen cria atividades para integrá-la à turma. Na roda da conversa, onde as crianças desabafam até sobre o desgosto de ser banguelas, Carmen abriu um espaço para elas interagirem com a colega surdocega. Como Andréia está aprendendo a usar o toque para reconhecer as pessoas, cada um pensou num sinal só seu que ela pudesse sentir. Daiane Gomes de Lira, 8 anos, sempre conduz a mão de Andréia para seus cabelos crespos: é a marca que a identifica. A professora Carolina, por sua vez, faz a menina pegar em seu anel.

Também é pelo tato que Andréia começa a entender a rotina da escola. "Para iniciar qualquer atividade, mostra-se o ambiente onde ela está", diz Carolina. Na sala de aula, no começo do dia, fazem-na apalpar a porta, a lousa e o giz. Aos poucos, a menina demonstra mais confiança em quem a toca. "Já permite com mais facilidade que movimentem sua mão direita", conta a professora.
Tempos atrás, ela puxaria o braço em sinal de rejeição. Afinal, habituou-se desde criança a mantê-lo levantado para mexer a mão em frente ao olho direito, talvez para perceber as luzes que a pouca visão permite. "Para ela, é como se fosse uma sensação de prazer", diz Carolina. "Nosso desafio é fazê-la baixar o braço para ela recuperar o equilíbrio do corpo", afirma o professor de Educação Física Renato Horta Nunes, que faz a aluna andar de mãos dadas com os colegas durante as aulas.

Prazer maior que esse Andréia só encontra no balanço da escola. Quando está nele, embalada, chega a gargalhar (mesmo sem nunca ter visto ou ouvido alguém fazer isso). Estica-se e joga-se para a frente e para trás, segurando a corda com firmeza. "É como se ela reordenasse o equilíbrio do corpo", explica Carolina. Um ano atrás, a menina chegava à escola no colo da mãe ou do irmão, ficava descalça e perambulava pelos corredores sem destino. Com a chegada de Carolina, Andréia já usa uma colher para comer, segura o copo ao tomar água, lava as mãos e fica sentada em sua carteira durante as aulas.

A Matemática nas mãos

Toda escola tem obrigação de receber qualquer aluno, mas não basta simplesmente matricular as crianças com deficiência múltipla. "É preciso ter estrutura", diz Carolina. Nessa hora, entram em cena os educadores que dão o melhor de si para atendê-las.
Em Brasília, a professora de Matemática Patrícia Renata Marangon, da 6a série da EE EC-405 Sul, não teve muitas dúvidas sobre o que fazer quando, no ano passado, recebeu em sua classe Paulo Santos Ramos, aluno cego, com apenas 30% da audição num ouvido e pouco movimento nos braços. Nas primeiras aulas, ela percebeu a afinidade do garoto com números e contas e a vontade que tinha de solucionar problemas. Decidiu inscrevê-lo numa olimpíada nacional de Matemática. Paulo, então com 16 anos, conquistou uma das 300 medalhas de ouro concedidas pelo torneio, que teve cerca de 10,5 milhões de participantes.
Sem uma versão da prova em braile, Patrícia adaptou ao material concreto as figuras geométricas que apareciam em algumas questões: "Pensei numa forma de fazer Paulo raciocinar com autonomia, sem a interferência dos professores que fariam a leitura das questões". Deu certo. A compreensão das ilustrações ficou por conta da sensibilidade das mãos do garoto, que apalparam figuras feitas pela professora com palitos de dente, EVA, cartolina e papel cartão.

Paulo foi o primeiro aluno com deficiência que Patrícia recebeu. O único apoio especializado que a escola oferecia na época era o de um professor itinerante que fazia transcrições para o braile. "Foi difícil lidar com a falta de audição", diz Patrícia. Mas ela não se deu por vencida. Sentava perto do aluno, aumentava o tom de voz dentro da sala de aula e falava bem perto do ouvido do menino, o que a deixava exausta. Antes que perdesse a voz, lembrou-se de uma caixa de som e um microfone que a escola usava em eventos e passou a dar suas aulas com o equipamento.

Ele não nasceu cego. Por isso, lembra de imagens e formas. Aos 2 anos, durante as férias que passou com os pais em Cuba, levou um tombo enquanto brincava. Na volta, seu joelho não desinchava. Os pais levaram-no de um médico a outro para entender o porquê do hematoma persistente. "Foi diagnosticada a artrite reumatóide juvenil", lembra a mãe do menino, Maria Lima dos Santos. Uma em cada mil crianças tem essa doença, uma inflamação crônica que afeta as articulações, os olhos e o coração.
Aos 3 anos, o pequeno entrou na escola regular com problemas nos joelhos e nos olhos. "Quando sua letra começou a aumentar, me aconselharam a colocá-lo numa escola especial", diz Maria, que se recusava a ver seu primeiro filho, "tão lindo e perfeito", aprender braile. "Tive aversão ao braile até descobrir como seria necessário", admite ela, que chegou a afastar Paulo dos estudos por causa disso.

Quando Paulo concluiu a escola especial, onde cursou as duas primeiras séries, voltou à escola comum para continuar a Educação Básica. Sugeriram que ele repetisse o ano. "Os professores afirmaram que ele se adaptaria melhor, já que tinha saído de uma turma de quatro alunos e entrado numa de 20", lembra a mãe. Ao chegar à 6ª série, o aluno, defasado, teve a sorte de deparar com a professora Patrícia, que o levou à olimpíada, apesar da descrença de alguns de seus colegas de trabalho. "Ele tem uma força de vontade que nunca vi em crianças sem deficiência", diz ela. A imprensa divulgou o desempenho do menino e seu feito teve repercussão. "Recebeu até convite de universidade para contar sua história", conta a mãe. Aos 17 anos e com cara de 12 anos (parou de crescer por causa dos remédios que tomou), Paulo não tem medo de público. Adora falar. Só uma otite pode impedi-lo, pois ela causa dor e surdez. Mas já está aprendendo libras para atravessar momentos como esse. Quem conta é Maria, que superou seu horror a braile.

"Ele quer se casar e trabalhar", diz ela. O menino que não tomava banho sozinho nem andava com a cadeira de rodas em casa hoje é praticamente atleta. Faz exercícios abdominais e flexões, fisioterapia e natação para recuperar os movimentos das pernas e evitar cirurgia.

Apaixonados pela escola

Enquanto Paulo se exercita, Matheus Gomes de Sousa, 7 anos, faz cada curva com a cadeira de rodas. "A gente pensa que ele vai capotar", conta a mãe, Rita de Abreu de Souza, de Rio Branco. Ele é espoleta e agitado desde a pré-escola, quando plantava pé de cebola na horta, brincava de escalar no morro de terra, rastejava pelo chão imitando cobra e competia em natação.
Ninguém diria. Matheus, que sofre de hidrocefalia, carrega uma válvula implantada no corpo para drenar o excesso de líquido no cérebro. Também tem deficiência mental, paralisia nas pernas e usa fraldas. Está na 1ª série da EEEF José Sales de Araújo e vai muito bem. "Lê tudo sozinho para fazer os deveres de casa", diz Rita.

Matheus não é um medalhista em Matemática, mas a professora Damiana dos Santos Gomes não vê nada de errado nisso. "É uma dificuldade com a qual estou acostumada", diz. O diagnóstico de deficiência mental nunca serviu de barreira para seu bom desempenho na escola. "Ele nem precisa de sala de recursos para desenvolver-se intelectualmente", conta ela.
O garoto depende da ajuda alheia somente para a troca de fraldas. Por causa da paraplegia, não controla a vontade de ir ao banheiro. Sua mãe cobrou esse cuidado da escola. "Falei que Matheus precisaria ser trocado nos horários certos", conta Rita. Nada disso o intimida. Se for preciso, vai à sala de aula aos domingos de tanto que gosta de estudar. Até reclamou da mãe - que é professora - para o pai quando ela cogitou tirá-lo de lá.

Matheus freqüentou a classe especial até os 4 anos, mas foi na regular que fez amigos. "Antes, ele quase não convivia com crianças", diz Rita. Já a garotada sem deficiência instigou-o a explorar o próprio corpo. "O convívio com outros modelos de comportamento estimula o lado sadio da criança", diz a especialista Carolina Bosco.

A aluna Sandy Gracioli Sartori, 5 anos, só começou a engatinhar ao entrar na EEI Fazendo Arte, em Rio Claro, a 180 quilômetros de São Paulo. Ela já venceu muitos obstáculos. Nasceu com pouco mais de 1 quilo, aos seis meses de gestação. Das mãos do obstetra, foi direto para a unidade de terapia intensiva, onde ficou 15 dias. Foi entubada. Passou por uma cirurgia de duas horas e meia. Sofreu parada respiratória e falta de oxigenação no cérebro. Usou bolsa no intestino durante dois anos.

Hoje, sua mãe, a dona-de-casa Silmara Gislaine Sartori, não permite que deixem Sandy o tempo todo na cadeira de rodas na escola. "Ela começou a engatinhar e se mexer na cama elástica porque via as outras crianças brincando", diz. Sandy só fica na cadeira para comer ou ser levada à videoteca. E muitos se animam a ajudar a empurrar a colega. Ela não gosta muito dessa disputa e, quando é contrariada, grita e enruga o rosto como quem vai chorar. "Quando ela bate palma e manda beijo, quer dizer que está gostando do ambiente", conta a professora Camila Ferreira Lopes, que aprendeu a interpretar os gestos da pequena geniosa.

Camila foi bem preparada pelas psicólogas da escola para receber Sandy na turma do maternal. Ela também conversou com a fisioterapeuta, a fonoaudióloga e os pais da menina diversas vezes. Sandy não andava nem falava, só comia alimentos pastosos e tinha o raciocínio um pouco lento. Mesmo com tantos avisos e informações, Camila ficou travada quando se viu diante da aluna. "Eu não sabia como falar com ela, como segurá-la, que tipo de brincadeira fazer", diz. Enquanto isso, a meninada de 3 anos não se deixava abalar. "A relação entre as crianças e Sandy era muito carinhosa. Não sei por que me sentia tão apreensiva."

Atividades e estratégias


Rotina da escola
Estabeleça símbolos na sala de aula para que um aluno surdocego compreenda, aos poucos, sua rotina escolar: ao entrar na sala, ele toca a porta, o quadro e o giz, sempre na mesma ordem e com a ajuda do professor ou de um colega; antes de iniciar uma atividade, ele pode passar as mãos nas folhas de um caderno. O mesmo mecanismo serve para a hora do lanche e de ir embora.

Roda de brincadeira
Observar o comportamento das crianças sem deficiência ajuda aquelas que têm deficiência múltipla a se desenvolver. Por isso, faça jogos e brincadeiras que reúnam a turma no final das aulas. Se o aluno com paraplegia, por exemplo, tem dificuldade para se movimentar, sente-o no chão (se o médico autorizar), em roda com os demais, e proponha uma atividade em que eles usem as mãos e os braços.

Incentivo ao movimento
É possível estimular a criança de pré-escola que não engatinha. Deitada numa cama elástica, ela sente as oscilações causadas pela atividade dos colegas. Vê-los engatinhando e rolando a leva a tentar os mesmos movimentos. Se o médico autorizar, deixe-a o mínimo tempo possível na cadeira de rodas. Ela se sentirá instigada a se mexer ao se sentar com os colegas num tapete ou tatame.

Histórico do aluno
Pesquise tudo sobre a criança: de onde ela vem, como é a família, como se comunica e quais as brincadeiras preferidas. Na avaliação, valorize a evolução do aluno, dentro de seus limites, e não os resultados. Afinal, em certos casos há um grande avanço entre chegar sem falar e depois participar das aulas oralmente.

Quer saber mais?

Contatos
. EMEF Doutor João Alves dos Santos, R. Manoel Tomas, 288, 13067-170, Campinas, SP, tel. (19) 3281-2694
. EE EC-405 Sul, SQS 405, Área Especial, 70239-000, Brasília, DF, tel. (61) 3901-7694
. EEEF José Sales Araújo, Av. Pastor Muniz, Conj. Universitário 2, s/no, 79915-300, Rio Branco, AC, tel. (68) 3229-4141
. EEI Fazendo Arte, Av. 32A, 112, 13506-675, Rio Claro, SP, tel. (19) 3534-7600
Bibliografia
. Deficiência Múltipla e Educação no Brasil, Mônica Kassar, 113 págs., Ed. Autores Associados, tel. (19) 3289-5930, 24 reais
. Inclusão - Um Guia para Educadores, Susan e Willian Stainback, 456 págs., Ed. Artmed, tel. (51) 3027-7000, 64 reais

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

As cores das flores: curta sobre criança com deficiência visual

Crianças com deficiências visuais, motoras, auditivas e intelectuais enfrentam uma série de dificuldades, mas são capazes de aprender como todas as outras. Pensando em passar essa mensagem, a ONCE – Organização Nacional de Cegos da Espanha desenvolveu um vídeo institucional bastante sensível e emocionante chamado As Cores das Flores.

As cores das flores: curta sobre criança com deficiência visual

No vídeo, a professora de uma escola passa um tema de casa à turma: uma redação sobre as cores das flores. Ao receber a tarefa, um dos alunos que possui deficiência visual, sai da aula pensando em como resolver o desafio. Após isso, aparecem alguns flashes da vida do garotinho, momentos com os pais indicam que eles acreditam na sua capacidade. O mais bacana da mensagem é que em nenhum momento é colocado em dúvida se o menino realizará a tarefa. A expectativa é de como irá realizá-la.

Assista:


Muito lindo, né gente?

Toda criança é capaz de aprender do seu jeito, por isso a importância da confiança no potencial de cada uma. Assim teremos um mundo com mais diversidade e inclusão <3

Fonte: www.blogmodainfantil.com.br

quarta-feira, 26 de junho de 2019

LEGO Braille Bricks: projeto traz peças customizadas para ajudar no desenvolvimento de crianças com deficiências visuais

Peças foram desenvolvidas em colaboração entre as associações da Dinamarca, Brasil, Reino Unido e Noruega, e primeiros protótipos estão rodando nesses mesmos países para testes


por Soraia Alves para o b9.com.br

A LEGO Foundation e o Grupo LEGO anunciaram suporte ao LEGO Braille Bricks, projeto pioneiro que ajudará crianças cegas e com baixa visão a aprender Braille de maneira divertida usando peças LEGO customizadas para o Braille.

O projeto foi apresentado durante a Conferência de Marcas Sustentáveis em Paris. O conceito do LEGO Braille Bricks foi primeiramente proposto para a LEGO Foundation em 2011, pela Associação Dinamarquesa, e novamente em 2017, pela Fundação Dorina Nowill para Cegos do Brasil, cuja mobilização “Braille Bricks for All” teve repercussão internacional e possibilitou o acordo para a produção do produto.


Desde então, as peças foram desenvolvidas em colaboração entre as associações da Dinamarca, Brasil, Reino Unido e Noruega, e os primeiros protótipos estão rodando nesses mesmos países para testes.

Segundo Philippe Chazal, Tesoureiro da União Europeia de Cegos: “Com milhares de audiolivros e programas de computador disponíveis, cada vez menos crianças estão aprendendo a ler em Braille. Isso é particularmente crítico quando entendemos que as pessoas que usam o Braille com mais frequência são mais independentes, possuem um nível mais alto de educação e melhores oportunidades no mercado de trabalho”, explica. A ideia é que o LEGO Braille Bricks ajude a impulsionar o interesse em aprender o Braille.

O LEGO Braille Bricks será moldado com a mesma quantidade de pontos em relevo usados nas letras e números do alfabeto Braille, permanecendo totalmente compatível com o sistema LEGO.

Para garantir que a ferramenta seja inclusiva e permita que os professores, alunos e membros da família sem a deficiência também interajam, cada peça também terá uma letra ou um caractere impresso. Essa combinação traz uma abordagem totalmente nova e divertida para que crianças cegas e deficientes visuais se interessem em aprender Braille, permitindo que desenvolvam uma ampla gama de habilidades necessárias para prosperar e ter sucesso em um mundo dinâmico.


Diretor de Arte Sênior da LEGO, Morten Bonde, que sofre de um distúrbio genético nos olhos que está tornando-o gradualmente cego, trabalhou como consultor interno no projeto: “Fico emocionado ao ver o impacto que este produto tem no desenvolvimento da confiança acadêmica e na curiosidade de crianças cegas e deficientes visuais em seu período de alfabetização”, conta.

O produto está sendo testado em dinamarquês, norueguês, inglês e português, enquanto o alemão, espanhol e francês serão avaliados no terceiro trimestre de 2019.

A versão final do kit deverá ser lançada em 2020 e distribuída gratuitamente para instituições selecionadas por meio de parceiros participantes nos mercados onde os testes estão sendo realizados. Serão aproximadamente 250 peças cobrindo o alfabeto completo, números de 0 a 9, símbolos matemáticos selecionados e inspiração para o ensino e jogos interativos.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Modelos de aprendizado e sua relação com necessidades educacionais especiais

Por Leandro Rodrigues para o Instituto Itard

modelos de aprendizagem

As pessoas aprendem de maneiras diferentes. Algumas aprendem melhor vendo, outras ouvindo, algumas até pelo toque. Saber em quais modelos de aprendizado nos encaixamos melhor ajuda a aprender e lembrar coisas novas. Saber qual o melhor modelo de aprendizado do seu aluno com deficiência é fundamental.

Existem três modelos básicos de aprendizado:

  • Auditivo (ouvindo a informação)
  • Visual (vendo a informação)
  • Cinestésico ou Tático-Motor (tocando, participando)
  • Quando pais ou professores aprendem qual o modelo de aprendizado ideal de seus filhos e alunos eles podem ajudá-lo a aprender mais efetivamente. Importante também é saber o quanto você mesmo se encaixa em cada modelo.

Os pais normalmente ensinam da forma que gostam de aprender, que pode ser diferente da forma ideal para a criança. Isso pode der frustrante tanto para os pais quanto para criança. Por exemplo, imagine que você aprende muito bem ouvindo e tenta explicar futebol verbalmente para seu filho que é mais visual e realmente precisa ver as jogadas para entender!

Apesar de termos modelos de aprender que são ideais para nós, ainda podemos aprender de outras maneiras. As pessoas têm variações nos níveis de preferência de cada modelo – alguns são altamente auditivos, outros altamente visuais, alguns altamente táteis, enquanto outros aparentam uma preferência moderada por todos os três tipos de aprendizado.

Agora imagine que uma criança com deficiência visual, por exemplo, terá suas opções de aprendizagem limitadas por causa da deficiência. Essa criança deverá ser encorajada a explorar seus outros sentidos ao máximo: audição e tato. Você ficaria surpreso ao ver uma pessoa cega ouvir um audio-book na velocidade rápida e entender tudo o que for dito.

Apesar de termos modelos de aprender que são ideais para nós, ainda podemos aprender de outras maneiras. As pessoas têm variações nos níveis de preferência de cada modelo – alguns são altamente auditivos, outros altamente visuais, alguns altamente táteis, enquanto outros aparentam uma preferência moderada por todos os três tipos de aprendizado.

Em qualquer idade, seu filho ou aluno irá aprender com mais facilidade usando seu modelo de aprendizagem ideal, mas isso não significa que ele não pode e não vai aprender de outras formas. Na verdade, ele deve ser encorajado a usar e melhorar todas as formas de aprendizagem.

Quanto mais sentidos nós usamos para aprender alguma coisa mais informação absorvemos! Uma boa diretriz é permitir que seu filho ou aluno use seu modelo de aprendizagem ideal para aprender informações essenciais (ex.: segurança no trânsito), e que pratique os outros modelos com coisas que não são tão importantes (ex.: as palavras das músicas que você canta no carro).

Aprendizado baseado nos interesses

Quem aprende ouvindo vai gostar de ouvir as músicas gravadas; quem aprende vendo vai gostar de ler as palavras enquanto as escuta sendo cantadas; quem aprende de forma cinestésica vai gostar de dançar ou atuar de acordo com a música.

Interessante prestar atenção ao que seu filho ou aluno tem mais interesse. Teve um caso de uma mãe de criança autista não verbal encontrar a solução para estabelecer a comunicação com seu filho através de orcas (sim, o animal). Assista ao filme baseado em fatos reais “O Farol das Orcas” (tem na Netflix).

Eu, Leandro, em minhas pesquisas para ensino de crianças com deficiência, descobri que duas coisas são fundamentais: a Análise e a Empatia. É justamente disso que estamos falando aqui: aprendizado baseado nos interesses. Para saber os interesses do seu aluno você precisará conhecê-lo profundamente (Análise) e estabelecer uma afetividade com ele (Empatia), só assim ele confiará em você e aceitará sua informação. Essa informação deverá estar personalizada de acordo com os interesses pessoais do aluno. Isso é extremamente importante e vou falar mais sobre isso em outros posts.

Quando a criança é pequena

Todas as crianças pequenas aprendem de forma cinestésica (tátil-motor). Bebês colocam tudo na boca e usam o tato para explorar seu mundo. Preferências pelos modelos visuais e auditivas podem surgir depois. As escolas tradicionalmente usam métodos visuais e auditivos para ensinar, principalmente em séries mais altas. As crianças que aprendem fácil através desses métodos normalmente tem sucesso na escola, enquanto as crianças que aprendem de forma tátil-motora costumam ter dificuldade na escola. Nossa grande maioria – não apenas crianças – aprende melhor quando está ativamente envolvido em nosso próprio aprendizado.

Obviamente, todas as experiências futuras de aprendizado são afetadas pelas primeiras experiências, que temos na primeira infância. Se forem positivas e satisfatórias a fundação é formada para uma vida de entusiasmo em relação a aprendizagem. Ter atenção aos modelos de aprendizado quando as crianças ainda são pequenas vão ajudar a fazer com que aprender seja positivo e agradável. Por exemplo, uma pessoa que aprende melhor vendo e precisa se lembrar de uma informação passada em uma palestra (modelo auditivo) sabe que vai precisar fazer anotações, esquemas ou ler um livro sobre o assunto para reforçar o conteúdo da palestra.

DICA: Observe sua criança brincar. Ela já demonstra uma inclinação par algum modelo de aprendizado? Lembre-se de que crianças pequenas ainda estão se desenvolvendo e em sua maioria são muito táteis – elas querem e precisam estar ativamente envolvidas para conseguir entender as coisas. Tente fazer com que sua criança tenha várias oportunidades de usar todos os tipos de aprendizagem para que possa desenvolver seu potencial máximo.

Qual seu modelo de aprendizado ideal?

Observe as listas a seguir, elas contêm alguns comportamentos comuns encontrados em pessoas que se encaixam em cada modelo de aprendizado. Qual você acha que é sua forma ideal de aprender?

Modelo Auditivo:
  • Gostam de discussões verbais
  • Precisam falar em voz alta para memorizar algo
  • Precisam que as coisas sejam verbalmente explicadas
  • Tem dificuldade com instruções escritas
  • Falam sozinhos quando estão aprendendo algo novo
  • Repetem um número de telefone para memorizá-lo

Modelo Visual:
  • Lembram de detalhes visuais
  • Preferem ver o que estão aprendendo
  • Gostam de ter papel e lápis perto
  • “Rabiscam” enquanto estão ouvindo
  • Tem dificuldade de acompanhar palestras
  • Gostam de escrever instruções ou números de telefone

Modelo Cinestésico:
  • Preferem realizar atividades
  • Gostam de realmente fazer o que está sendo falado ou aprendido
  • Gostam de se mover enquanto estão ouvindo ou falando
  • Costumam gesticular
  • Gostam de tocar as coisas quando aprendem sobre elas
  • Lembram “quem fez o que” ao invés de “quem disse o que”

Tradução: Sarah Bezerra
Adaptação: Leandro Rodrigues
Fonte: Understanding Learning Styles – Canadian Child Care Federation

sexta-feira, 1 de março de 2019

Crianças deficientes visuais realizam atividades sensoriais na Chácara Turma da Mônica

REDAÇÃO - O ESTADO DE S.PAULO

Ao lado da personagem Dorinha, elas conheceram o restaurante temático da turma


Crianças interagem com a personagem Dorinha.
Crianças interagem com a personagem Dorinha. Foto: Vinicius Campos / Divulgação

Doze crianças com deficiência visual visitaram a Chácara Turma da Mônica, primeiro restaurante temático da turma, localizado na zona oeste de São Paulo, na última quinta-feira, 21. As crianças são de Santos, litoral de São Paulo, e participam do Lar das Moças Cegas, instituição que promove a evolução social de deficientes visuais e completa 76 anos no mês de abril.

As crianças foram recebidas por Dorinha, integrante da 'Turma da Mônica' desde 2004, que é deficiente visual. O nome da personagem foi inspirado em Dorina Nowill, mulher que perdeu a visão ainda criança, mas enfrentou o problema e foi um exemplo de força de vontade e simpatia.

Por meio de atividades sensoriais, as crianças se divertiram ao lado de Dorinha e apuraram sentidos como tato, olfato e paladar. Na atividade ‘Cozinha da Magali’, por exemplo, fizeram lanchinhos no espeto utilizando frutas para sentir suas texturas e aromas.

Dorinha é uma personagem da Turma da Mônica com deficiência visual.
Dorinha é uma personagem da Turma da Mônica com deficiência visual. Foto: Vinicius Campos / Divulgação

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Deficiência visual cortical: a criança parece não ver, mesmo com olhos saudáveis

Ver é complexo. É preciso ter isso em mente e fugir da ideia de que simplesmente vemos com os olhos. Isso prejudica a compreensão de muitos profissionais de saúde, pais e professores sobre a deficiência visual de causas não oculares, conhecida como deficiência visual cortical (DVC).


Por Maria Amélia Franco para o visaonainfancia.com

criança com deficiência visual cortical não fixa olhar, nem se interessa por estímulos
Tenha em conta que existe ainda um espectro maior de ocorrências em outras áreas do cérebro, por isso hoje já se fala do termo deficiência visual cerebral, ou deficiência visual neurológica. Há desordens visuais associadas a danos além do córtex visual, incluindo áreas associativas do córtex, estruturas subcorticais e vias que compõe a substância branca do cérebro / Jenny Erickson :: FreeImage
Atenção
Os reflexos de fixação e os movimentos de perseguição, em sentido horizontal, vertical ou circular, se desenvolvem a partir do segundo mês. Com três meses, os bebês são atraídos por objetos brilhantes, em cores vibrantes ou que gerem forte contraste, e pessoas até 20-25 cm de distância.
Por trás da ausência de fixação e de interesse do bebê pelos estímulos podem haver diversos diagnósticos que precisam ser investigados.

Eu aprendi que a criança enxerga com o cérebro através dos seus olhos. Por isso, para ver bem ela depende que estejam preservadas as estruturas oculares, as vias visuais e diversas regiões cerebrais que processam as informações. Porém, tradicionalmente, muito da compreensão sobre a deficiência visual tem sido focada nas consequências de doenças e condições que afetam o olho ou o nervo óptico (como cataratas, glaucoma, retinopatias).

É também importante, claro! Contanto que não seja ignorada a possibilidade de um diagnóstico precoce de deficiência visual cortical e de que é possível intervir.

Embora este texto elucide muitas coisas para você, talvez seja difícil neste imenso Brasil encontrar profissionais que possam ajudar, entre médicos, terapeutas e educadores. O conhecimento a respeito é ainda limitado, mas pode ser adquirido! E falaremos muito sobre isso aqui no blog.

Como diagnosticar a deficiência visual cortical?

Em um webcast para a Perkins School for The Blind, a Dra. Christine Roman, que é autoridade sobre DVC, destaca que infelizmente não existe um protocolo ou recomendação das sociedades médicas para identificar crianças com deficiência visual cortical, como há quanto aos exames oftalmológicos, por exemplo.

No entanto, ela comenta que algumas avaliações preliminares podem ajudar a diagnosticar a DVC:

  • O exame oftalmológico não explica a maneira como o bebê ou a criança vê. Ou seja, mesmo com anatomia ocular normal, ela não olha para o rosto das pessoas e não se interessa por objetos e brinquedos dentro do seu campo visual.
  • Houve algum grande evento neurológico no desenvolvimento do bebê ou após o nascimento.  As ocorrências mais comuns associadas à DVC são a encefalopatia hipóxico-isquêmica por falta de fluxo sanguíneo cerebral e liberação de oxigênio em recém-nascidos prematuros e a termo, o traumatismo craniano e as infecções do sistema nervoso central, como meningite e encefalite.
  • A criança apresenta estes dez comportamentos característicos da DVC listados abaixo.

10 comportamentos típicos avaliados na deficiência visual cortical 

  1. Preferência por cor – crianças com deficiência visual cortical são geralmente atraídas por coisas que têm cores altamente saturadas. Vermelho e amarelo são as cores mais reportadas. Então, ela pode não se interessar pelo tradicional contraste preto e branco.
  2. Atenção ao movimento – apresentar um objeto em movimento atrai a atenção visual da criança com DVC e aumenta o tempo de observação e interesse pelo mesmo. Assim como o cintilar ou brilho de luzes e itens metálicos que dão a sensação de movimento.
  3. Demora para responder ou reagir a um estímulo (latência) – ao mostrar algo à criança com DVC, ela não olha imediatamente, só um tempo após se vira e olha.
  4. Aversão à complexidade – espaços com distrações e poluição visual tornam quase impossível para a criança com DVC perceber e processar os estímulos. Ao apresentar um só objeto por vez, sobre um fundo negro contrastante, sem informações sensoriais concorrentes (pessoas falando, música, brinquedos com som), é possível que ela se concentre em vê-lo.
  5. Alteração no campo visual – a criança com deficiência visual cerebral pode enxergar apenas em partes do seu campo de visão. É preciso avaliar onde ela percebe o estímulo. Ela pode virar um pouco a cabeça ou notar apenas coisas de um lado, e muito comumente, ter dificuldade em perceber o que está abaixo.
  6. Dificuldade com aquilo que é novo ou não lhe é familiar – é natural prestar atenção para aquilo que é novidade, seja por fugir do padrão, do comum ou pelo estado de alerta ao desconhecido. Contudo, para a criança com DVC é um “ruído” do qual ela quer “fugir”. Então elas respondem melhor a coisas que viram repetidas vezes.
  7. Ausência do reflexo de piscar quanto você a toca na ponte do nariz, ou em resposta à uma ameaça visual, como um objeto indo direto em sua direção.
  8. Dificuldade de visualização à distância – a criança com deficiência visual cortical pode não notar algo do outro lado de uma sala, mesmo com exame de vista OK. Isso porque tudo se “mistura” com o fundo, o cenário ou a paisagem. É difícil perceber cada coisa em separado, o que torna a visualização próxima mais fácil.
  9. Olhar para e buscar a luz – a criança com DVC tem muitas vezes a necessidade de olhar para as luzes e ter mais luz no ambiente. Ela não fecha os olhos defensivamente diante da luz intensa, ao contrário, a encara.
  10. Não integrar visão e ação – a capacidade de olhar um objeto e alcançá-lo como uma única ação não é evidenciada na criança com DVC. Ela olha para um alvo, desvia o olhar, e depois tenta alcançar sem olhar.

Aprender a ver é um processo

Além do reconhecimento da deficiência visual cerebral, que pode se manifestar em diferentes “graus”, outro desafio é aumentar as expectativas dos pais, médicos, terapeutas e professores sobre as possibilidades de aprendizado dessa criança. 

Simplificando, compartilho as palavras da Dra. Christine Roman sobre as crianças com DVC: “(antes do diagnóstico) Elas estão realmente em uma espécie de período de privação. Elas não estão recebendo informações de seu mundo visual. E as expectativas das pessoas são baixas em relação a essas crianças, conformando-se que elas simplesmente são assim em decorrência das ocorrências tão graves que acometeram seus cérebros”.

Enfim, para elas, aprender a ver é um processo e há formas específicas de intervenção.