sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Atendimento fonoaudiológico precoce garante maior evolução para crianças autistas

 Gabrielle Yumi para o paineira.usp.br

A idade de início da terapia está relacionada à maior evolução clínica (Foto: Freepik)

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) se refere a um grupo de condições neurodesenvolvimentais caracterizado por uma quantidade de sintomas e níveis de habilidade. Apesar de afirmações de que o diagnóstico de TEA ocorre mais frequentemente hoje, ainda é válida a discussão de que talvez isso seja apenas resultado de melhores métodos de diagnóstico. Para além disso, é confirmado que os sintomas começam a aparecer nos primeiros 2 anos de vida e afeta as habilidades sociais do indivíduo. Intitulado “Atendimento fonoaudiológico a crianças com distúrbios do espectro do autismo: um estudo longitudinal”, a tese de Letícia Segeren buscou analisar os dados relacionados às crianças e adolescentes que realizaram avaliação e atendimento nos últimos 21 anos no Laboratório de Investigação Fonoaudiológica nos Distúrbios do Espectro do Autismo (LIFDEA) da USP.

Ao agrupar os dados, a pesquisadora percebeu que estavam assimétricos, tornando impossível realizar uma análise aprofundada com todos eles. Assim, dividiu-os em dois estudos. O primeiro estudo contempla todos os prontuários de pacientes que realizaram terapia fonoaudiológica entre janeiro de 1997 e dezembro de 2017. Ao analisar as informações, observou-se que a taxa de abandono do tratamento é alta e que a idade de início da terapia não está relacionada à maior manutenção do tratamento. A média de idade encontrada de início da terapia foi de seis anos.

Letícia explica: “O objetivo era ver se a idade que os pais trazem a criança está relacionada à melhor adesão, mas não observamos essa relação. Já no estudo dois, queríamos saber se o fato de o paciente começar o tratamento mais cedo está relacionado com uma maior evolução e concluímos que sim”. Assim, quanto menor a idade da criança, maior é o número de atos comunicativos por minuto que ela apresenta durante uma sessão, assim, melhor o desenvolvimento. 

No segundo estudo, foram selecionados os pacientes que realizaram atendimento no LIFDEA entre os anos de 2011 e 2017 e para os quais foram obtidos dados completos referentes ao protocolo do Perfil Funcional da Comunicação (PFC) aplicados semestralmente. O PFC analisa como está ocorrendo a comunicação e quais são as funções comunicativas que ocorre. 

Assim, a pesquisadora encontrou correlação positiva entre o número de respostas no PFC, o escore do desempenho sociocomunicativo e os atos comunicativos com funções mais interativas. A evolução clínica foi observada em protocolos com três anos de intervenção, sendo que no estudo dois a média de idade no início da terapia foi de cinco anos e meio.

Letícia afirma a atualidade da questão e sua importância: “Quanto antes começar o atendimento, melhor. Existem estudos que mostram todos os benefícios que a intervenção precoce traz, então um dos objetivos deste estudo foi evidenciar na prática que, quanto antes a criança chega, melhor a evolução dela”.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Volta às aulas presenciais: como ficam as crianças com deficiência?


Como lidar com alunos em situação de inclusão na retomada presencial?

Ciça Melo paara o Incluir para Crescer

É certo que no início desta pandemia as necessidades específicas das pessoas com deficiência foram negligenciadas. A Unesco foi uma das primeiras organizações a se pronunciar sobre o assunto. Aqui no Brasil, o Instituto Rodrigo Mendes apresentou um trabalho bem completo, falando sobre experiências em outros países.

É clichê falarmos que em toda crise existem oportunidades. Mas não podemos deixar de avaliar os pontos positivos (e tirar proveito deles), até porque sabemos que muitas vezes nossa tendência é olhar apenas para os negativos. Algumas famílias nos relataram que seus filhos com maior dificuldade de concentração podiam pausar o vídeo por exemplo. Outras disseram que seus filhos gostavam de andar e que, em casa, estavam andando enquanto assistiam às aulas. Houve quem falasse sobre a possibilidade de rever as aulas e assim tirar melhor proveito daquelas que eram mais difíceis. Vimos na prática algo que o Paratodos já falava há tempos: a inovação tecnológica pode permitir uma sala menos homogênea e mais individualizada. A tecnologia facilita a criação de estratégias distintas, levando em consideração necessidades específicas dos alunos.

Neste período, ouvimos muitos relatos de vários professores fazendo a diferença. Educadores que não queriam deixar nenhum aluno para trás e buscaram ferramentas para que todos seus alunos pudessem participar. Houve quem utilizasse outros alunos para explicar aos demais, o que sempre chamamos de mediadores naturais ou uso dos pares como mediadores. Vimos, ainda, equipes muito mais unidas e trocando experiências entre si, o que é muito necessário para os alunos em situação de inclusão.

Neste momento, quando começamos a discutir de forma mais clara sobre a possibilidade de retomada presencial, a principal pergunta tem sido: “Quem define se o aluno em situação de inclusão volta presencialmente para escola? A família, a escola ou o médico?”. Importante ressaltar que não há relação direta entre risco e deficiência. Os países que fizeram esta correlação foram extremamente criticados. Aqui no Brasil o primeiro parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) publicado em 7/7/20 foi duramente desaprovado, o que os levou a uma retratação e revisão. Da mesma forma que não podemos generalizar “todas as crianças com deficiência devem retornar presencialmente no primeiro momento”, não podemos fazer o inverso também.

Para decidir, sugerimos que haja uma nova avaliação desta criança ou adolescente. Precisamos saber desta família: o que estes alunos sabem sobre o que vem acontecendo, o que sofreram neste período, qual nível do medo, entre outras perguntas. Família, escola e equipe de atendimento (seja um médico, um fonoaudiólogo, um terapeuta ocupacional ou um psicólogo) precisam conversar e avaliar em conjunto os riscos e os benefícios desta volta.

Também é necessário avaliar se há novas necessidades específicas neste momento, tais como o uso de máscaras com visores pelos educadores que convivem com pessoas com deficiência auditiva. Ou avaliar os casos de alunos que não conseguiram permanecer com as máscaras devido deficiências físicas nos membros superiores ou questões sensoriais (muito comum nos casos de pessoas que estão dentro do espectro do autismo). Tudo isto deverá fazer parte desta avaliação conjunta e individual para cada estudante. Entendemos que algumas recomendações podem inclusive, ajudar a todos, tal como a máscara com visor.

É provável, ainda, que crianças com deficiência precisem de um acolhimento maior e um novo período de adaptação. Isto precisa ser previsto e acordado com as famílias. Talvez seja necessário um horário adaptado no início e que seja aumentado conforme o ajustamento de cada um. Como falamos acima, neste retorno será necessário um diagnóstico de todos os alunos, em especial dos alunos com questões de aprendizagem. Avaliar se as perdas do período será essencial para elaboração de estratégias de ensino e aprendizagem adequadas a cada um.

Importante ressaltar que muitos alunos em situação de inclusão apresentam restrições alimentares ou horários específicos para se alimentar. No novo modelo (onde muitas escolas não utilizarão o refeitório), isto também precisa ser levado em consideração. Em todos os protocolos a que tivemos acesso, temos visto a importância da comunicação dos novos procedimentos. Mais uma vez é preciso pensar nos alunos com deficiência e ter a certeza de que as informações espalhadas pelas escolas estão sendo sempre compreendidas por todos.

Uma outra orientação, que tem dado muito resultado, é que a escola promova e/ou incentive a realização de reuniões menores entre algumas famílias, principalmente no caso das crianças menores, nem que sejam encontros rápidos, para mostrar um bichinho de pelúcia, dar um tchau, contar uma estória, por exemplo. O ideal é algo menor onde a criança que venha apresentando mais dificuldade em participar, tenha mais oportunidade para fazê-lo efetivamente. Para os mais velhos, sugerimos propiciar ou estimular telefonemas com vídeos para aumentar a socialização e propor mais trabalhos em grupos que os obrigam a estarem juntos neste momento.

Ainda temos orientado, desde o início das aulas remotas, momentos individuais com estes alunos, onde eles possam ter uma educação mais personalizada. Neste momento (onde o retorno se aproxima), acreditamos que estes devam ser ampliados. No caso da dificuldade dos professores em realizarem estes encontros, os profissionais de apoio da escola ou auxiliares podem fazer este papel. No retorno presencial, será muito importante a presença dos mesmos e o uso de máscaras com visores transparentes por eles. Entendemos que acolhimento dos professores em relação às dúvidas e os medos na relação com as crianças com deficiência pode ser ainda maior neste momento. Essencial que todas as dúvidas sejam sanadas, visto que um adulto seguro traz segurança para as crianças.

Por falar em segurança, a família precisa também estar segura, e aqui entra novamente a importância do diálogo. E, nesta parceria, pensarmos todos juntos em ANTECIPAÇÃO e HABITUAÇÃO. O que pode ser feito neste momento? As famílias podem, por exemplo, iniciar com o hábito do uso de máscaras, promover saídas “teste” e retomar as terapias presenciais, sempre avaliando os riscos e pensando nas possibilidades de cada um. Para antecipação, as escolas podem enviar vídeos com as alterações físicas, mostrando as salas, com os professores enviando mensagens específicas. E até mesmo combinar com algumas famílias uma ida à escola antes da abertura para os demais. Tudo isto pode ajudar a aplacar a ansiedade que muitas vezes provoca a desorganização de algumas crianças.

Enfim, retomando, o que temos de positivo nisto tudo? Com certeza, acelerou mudanças que já precisavam acontecer, nos provocou a repensar modelos, nos aproximou, nos fez enxergar que o centro deve ser sempre o aluno. Que ele deve ter protagonismo e que equipe escolar, equipe médica/terapêutica e família devem estar sempre juntas, dialogando e descobrindo o melhor caminho para cada estudante. De tudo que temos visto na prática, os melhores resultados são os das escolas que estão fazendo um ACOLHIMENTO consistente, uma escuta ativa e promovendo muito diálogo. Resumindo: envolver as famílias no processo desde o início, lembrando que são famílias que precisam ainda mais de apoio. Terminamos com a frase do querido Rodrigo Hübner Mendes "a profunda complexidade decorrente da pandemia não muda, em nada, o fato de que crianças e adolescentes com deficiência têm o direito a uma educação de qualidade."

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Pandemia intensifica os desafios vividos por famílias de crianças com deficiência

Falta de terapia e convívio social gera preocupação no desenvolvimento das crianças neuroatípicas e com síndromes raras

Júlia Vasconcelos para o Brasil de Fato | Petrolina (PE)

Cerca de 46 milhões de brasileiros possuem deficiência mental ou síndromes raras - GDF

É marcado nessa sexta (21) o início da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla. A data acende um alerta para as necessidades específicas deste grupo e no cenário de pandemia traz a necessidade de olhar para a realidade dessas pessoas durante este período, que impõe ainda mais dificuldades frente à falta de políticas efetivas voltadas para este público.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são quase 46 milhões de brasileiros que possuem deficiência mental ou declaram ter algum grau de dificuldade em uma das habilidades investigadas (enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus). Cada uma das especificidades dessas pessoas traz consigo uma realidade diferente, e em meio ao isolamento social, novas preocupações surgem. Para famílias que tem crianças com deficiência e doenças raras em casa, a preocupação é principalmente a saúde e o desenvolvimento delas.

Raquel Jardim mora em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco e é mãe de Joaquim, criança de três anos diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela explica que antes da pandemia, tinham uma rotina em que o filho ia para escola, tinha terapias pela tarde, e sempre gostava de ir à pracinha do bairro para brincar. "De repente tudo mudou. O autista gosta de rotina, e não gosta de estar no ócio. Eu vi Joaquim ficar muito estressado e suas estereotipias aumentaram bastante. Ele, inclusive, ganhou uma nova estereotipia".

As estereotipias são ações repetitivas comuns às pessoas com TEA para lidar com o excesso de estímulos. "Agora tudo que ele pega que é diferente, ele joga no chão. A gente perdeu muito vidro, muito espelho, por ele jogar no chão e quebrar, e isso a gente acha muito grave", lamenta a mãe. 


Joaquim tem três anos e foi diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) / Arquivo Pessoal

A professora e psicóloga graduada na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Eugênia Souza, explica que um dos principais impactos do cenário da pandemia nessas vida das crianças é a falta de interação social, importante para o desenvolvimento infantil, psicomotor e cognitivo. "Muitas crianças, para além do convívio social, também têm o convívio em terapias. O momento da terapia é um momento de interação social afetiva, em que ela está em um ambiente seguro, livre de bullying, livre de um contexto social que às vezes é adoecedor. O que tem acontecido nesse momento é o afastamento dessa convivência, e isso impacta sim no desenvolvimento delas". 

Atendimentos terapêuticos e aulas virtuais

Joaquim, que fazia acompanhamento com terapeuta ocupacional e psicopedagoga, além de fonoaudiologia, hidroterapia e terapia, continuou apenas com alguns atendimentos terapêuticos online, sem que a mãe visse surtir muito efeito, especialmente por não poder se dedicar exclusivamente à ele e ter que cumprir com as atividades domésticas e demais obrigações. "A minha grande preocupação é por conta da plasticidade cerebral, porque os estudos dizem que as crianças desenvolvem até os três, quatro anos, e Joaquim já tem três anos e sete meses e ainda não verbaliza e existem atrasos”. 

Já Carla Lima, mãe da pequena Sophia, que tem uma síndrome rara degenerativa chamada Sanfilippo, conta que a falta das terapias para sua filha tem ocasionado uma piora ainda maior em sua condição física e mental, e, inclusive, Sophia passou a comer com dificuldade. "Até a saliva ela está tendo dificuldade de engolir enquanto dorme. Estamos fazendo algumas adaptações, tentando continuar com as caminhadas à noite e correr atrás das terapias perdidas, mas não têm sido fácil de conseguir". A síndrome fez com que ela perdesse o desenvolvimento motor e mental após os três anos, e hoje, com sete anos, Sophia não fala mais. 

Tanto Joaquim quanto Sophia estudam e estão com as aulas suspensas. Ter acompanhamento online, além de ter efetividade questionável por muitas famílias, é inviável para muitos, por falta de aparatos tecnológicos, acesso a internet e até mesmo um ambiente seguro e apropriado para realizar o atendimentos ou aulas remotas. 


Carla Lima e Sophia, que tem uma síndrome rara degenerativa chamada Sanfilippo / Arquivo Pessoal

Segundo a pesquisa TIC Domicílios, feita em 2019 pelo Centro Regional e Estudos para Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), 74% da população tinha acesso à internet, enquanto um a cada quatro brasileiros não usa a internet, o que corresponde a 47 milhões de não usuários. Além disso, o celular é o dispositivo mais usado (58% acessam a internet somente pelo celular), o que dificulta o acesso à aulas online ou acompanhamentos terapêuticos.

Mesmo assim, o Governo Federal teve como uma das poucas ações divulgar uma cartilha com orientações para auxiliar pais em estratégias para o acompanhamento escolar online de crianças com deficiência durante a quarentena.

A psicóloga expressa preocupação em como a comunicação tem chegado nas famílias "Pensando nas crianças surdas, tenho pensado muito em como tem sido a qualidade das aulas online, por exemplo. Tem sido efetivo? Tenho alunas surdas na pós graduação e às vezes percebo um esforço para elas entenderem o que está sendo sinalizado porque a internet fica lenta e elas perdem o movimento da mão. A questão visual é muito importante para as pessoas surdas", comenta e afirma que estar em isolamento não é igual para todo mundo e está diretamente ligada a realidade social e econômica de cada família. 

Descaso

Patrícia do Bonfim, presidente do Grupo Raros, associação em Petrolina formada por familiares de crianças com síndromes raras, afirma que até o momento nem o Governo Federal, nem o Estadual, tomaram medidas voltadas para crianças com deficiência e/ou doenças raras. "Com relação à educação, as crianças que são da rede municipal receberam kits pedagógicos. Não sou pedagoga, mas sou mãe de uma criança com síndrome rara, e ao meu ver, esses kits, por mais que tenha um trabalho por trás, não são adaptados às necessidades especiais de cada criança. São kits apropriados para crianças típicas."

A presidenta da associação explica que àqueles que possuem plano de saúde recebem atendimento remoto, ainda que não seja na mesma qualidade. Mas os que não possuem, não contam com nenhum tipo de suporte. 

Apesar do retorno gradual de alguns atendimentos, o PE Conduz, por exemplo, transporte gratuito para pessoas com deficiência e dificuldade de mobilidade em Pernambuco, está suspenso desde março e sem previsão de retorno, mesmo com o apelo de muitas famílias que dependem exclusivamente desse meio de transporte para mobilidade. O PE Conduz, por enquanto, está com serviço apenas para os casos de hemodiálise, que incorrem em risco de vida. 

Nesse cenário, Patrícia defende que o governo deveria disponibilizar profissionais adequados pelo menos uma vez ao mês ou a cada quinze dias à domicílio, para as pessoas que não podem ficar sem os tratamentos de nenhuma maneira. “É o caso de algumas crianças e adolescentes, por exemplo, que possuem disfagia ou atrofias que precisam de fisioterapia intensa. Essas famílias estão desesperadas”.  

Mulheres como cuidadoras

Segundo uma pesquisa realizada pelo Gênero e Número e SOF Sempreviva Organização Feminista, 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia e 72% afirmaram que aumentou a necessidade de monitoramento e companhia a alguém. Entre as mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos ou pessoas com deficiência, quase 3/4 afirmaram isso. 

O papel de cuidadora, já atribuído às mulheres, se intensificou. Para as mães de crianças com deficiência, sem suporte de cuidadores, secretárias, mediadoras escolares e com rede de apoio reduzida, a carga mental é pesada. "Vi minha saúde ser afetada e tive crises de ansiedade. Nunca consegui tirar tempo para mim mesma. As pessoas dizem para eu assistir uma série na Netflix, e isso é uma coisa que eu não consigo, porque não tenho tempo", conta Raquel, apontando que a única coisa que ainda consegue fazer é publicar em seu Instagram, canal que ela, que também é ativista, escolheu utilizar como blog para conscientizar seus seguidores sobre o autismo. 

Para Carla, a situação não é diferente. “Não tenho tempo pra mim, vivo em função dela. Ela depende de mim para tudo: comer, vestir, tomar banho, trocar fralda, cuidar da segurança. Amo cuidar dela, embora seja cansativo”. Além disso, Carla ainda lida com dificuldades de aceitar que a síndrome de sua filha não tem cura, e acredita que as mães dessas crianças deveriam ter acompanhamento psicológico rigoroso. 

As duas contam com o apoio dos pais das crianças, ao que Raquel prontamente diz: “ele é um pai de verdade. Ele não me ‘ajuda’. Ele faz o que tem que fazer, entende as obrigações dele. Ele é o meu suporte”. 

Entretanto, essa não é a realidade de todas as mães. Eugênia Souza afirma ter percebido que na maioria esmagadora das vezes esse papel de cuidar é atribuído às mães, também com crianças típicas, mas especialmente com crianças atípicas, e que as poucas figuras masculinas vistas nas instituições pelas quais ela passou eram vistas apenas como uma ajuda às mães. “Isso tem relação com a nossa cultura machista, que identifica a mulher como a figura cuidadora. E eu percebi nessas mulheres um lugar de adoecimento mental. Para além do cansaço físico, mental e emocional, por estarem sobrecarregadas, isso acabava resultando em quadros depressivos e de ansiedade”. 

Edição: Vanessa Gonzaga

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Como é a decisão de volta às aulas para os pais de crianças com deficiência

Dr. José Luiz Setúbal para o institutopensi.org.br

Como é a decisão de volta às aulas para os pais de crianças com deficiência

Os alunos com deficiência perderam o acesso a terapias e rotinas importantes neste ano escolar. Os pais esperam poder voltar à sala de aula em breve. Enquanto funcionários do governo, administradores escolares, professores e pais discutem sobre o possível retorno à escola em outubro, um grupo diz que sente que não está sendo incluído na conversa: os pais de crianças com deficiência.

Muitas crianças com deficiência recebem apoio e terapia adicional por meio de sua escola ou programa de aprendizagem. Além do apoio estrutural, pais e especialistas afirmam que as crianças com deficiência também se beneficiam por estarem perto de seus pares, da mesma idade e, por terem uma rotina diária.

Pais de crianças com autismo relatam que as mudanças abruptas provocadas pela pandemia do coronavírus afetaram fortemente seus filhos, em vários depoimentos em recente webinar realizado pelo Instituto PENSI sobre o tema.

“Meu filho odeia até mesmo falar com sua tia favorita no FaceTime. Você espera que ele participe de uma aula de Zoom…? Não funciona “, disse uma mãe, cujo filho de cinco anos foi diagnosticado com autismo no ano passado. O ensino a distância quase não funcionou para muitas crianças neurotípicas, muito menos para crianças com deficiências. A verdade é que muitas crianças se adaptaram a uma nova realidade, independentemente de serem neurotípicas ou atípicas e muitas outras não conseguiram. Em muitos casos, terapias “críticas” e suporte adicional também foram fornecidos com o Zoom, o que os pais disseram ser difícil para seus filhos.

Como as famílias que cuidam de crianças com necessidades especiais estão lidando com a pandemia?

Nos EUA, existe uma lei que estipula que qualquer aluno com deficiência receba um plano “elaborado para atender às necessidades específicas daquele aluno”. Psicólogos, conselheiros licenciados e conselheiros de orientação escolar podem estar envolvidos nesses planos. As terapias fornecidas pela escola podem variar de acordo com a orientação do estado e do distrito, e algumas escolas têm requisitos mais rígidos do que outras. Em geral, os alunos podem acessar uma ampla gama de terapias por meio de suas escolas públicas. Mas esta realidade não existe por aqui, nem em escolas privadas, onde poucas têm o preparo para lidar com crianças com deficiência, ainda mais em uma situação como a pandemia.

Muitas mães também disseram que tiveram que se afastar do trabalho ou deixar o trabalho completamente para ajudar seus filhos durante esse período, uma vez que seus filhos raramente se envolveriam em terapias ou trabalhos escolares se não fossem supervisionados. Durante a pandemia, relatórios mostram que as mães em geral carregam mais uma “carga mental”, inclusive cuidando mais dos filhos, potencialmente à custa de suas carreiras.

Mães que trabalham com crianças, adolescentes e filhos adultos compartilham como lidam com a pandemia

Vários grupos, incluindo a Academia Americana de Pediatria (AAP), recomendam que os alunos com deficiência voltem à escola quando e onde for seguro. As diretrizes recém-lançadas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americanos enfatizam o retorno das crianças com deficiência às aulas, alegando que as crianças com deficiência não podem ter acesso por meios virtuais à instrução especializada, serviços relacionados ou suporte adicional exigido por seus Programas de Educação Individualizada (IEPs), mais uma vez, muito longe de nossa realidade.

Muitos pais disseram que, embora esperassem que seus filhos pudessem voltar à escola este ano para recuperar o acesso às terapias e socialização necessárias, eles temiam que seus filhos tivessem dificuldade em seguir as diretrizes de segurança. “Manter uma máscara é uma luta, vou me virar e (minha filha) está mastigando e tirando”. São comentários que ouvimos de muitos pais no nosso webinar, que sentem que também estão preocupados com o fato de as crianças seguirem as diretrizes de segurança.

Nem todas as escolas exigirão que os alunos com deficiência usem máscaras, já que muitas salas de aula para alunos com deficiência são menores, com menos de uma dúzia de alunos por sala e mais professores ou auxiliares disponíveis. No entanto, alguns alunos que normalmente alternariam entre uma sala de aula para crianças com deficiência e uma sala de aula padrão agora podem passar o dia todo na sala de aula menor.

“Mesmo que (minha filha) possa voltar para a escola em tempo integral, ainda estou pensando em estudar em casa”, relatou a mãe cuja filha costuma dividir o dia entre a sala de aula para alunos com deficiência e a sala de aula padrão. “Estou preocupada que ela fique em uma sala de aula em vez de alternar entre classes especiais e classes geradas; ela se sai bem em uma sala com outras crianças e como modelo de crianças neurotípicas”. São dúvidas comuns e legítimas e que são também muito difíceis de serem aconselhadas com uma base técnica.

Alguns pais relataram surpresa ao ver seu filho com autismo se ajustar bem a medidas como o distanciamento social e uso de máscara enquanto frequentava um programa de escola por tela. Outros comentaram que ir para a escola implica ter de usar máscara, implica não ter alguns dos seus amigos na aula com ele, implica ter que lavar as mãos incessantemente e ter uma sala de aula menor. Apesar de todas essas restrições, ele ainda é muito mais feliz do que em casa.

Muitas pessoas perguntam se as mães não estão com medo. Uma delas afirmou que sente medo, mas também tem medo se vai ao supermercado, à farmácia, mas não consegue viver sem ir lá, e é o mesmo para ele. Não deve ser negado a ele o que vai apoiá-lo e ajudá-lo a viver.

Com esta dúvida termino esta postagem. Vivemos tempos de muitas incertezas, e gostaria de estar aqui escrevendo uma orientação bem mais dirigida, como faça isso ou aquilo, pois a ciência é clara, temos segurança em dizer qual é o melhor caminho para seu filho ou filha, mas infelizmente nesta questão ainda não temos uma resposta definitiva.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Lego cria blocos de construção adaptados para crianças com deficiência visual

Novidade será lançada inicialmente em sete países, incluindo o Brasil

Lego resgatado ajuda a passar o tempo
Criança brinca com peças de Lego - Arquivo pessoal

A marca de brinquedos de construção Lego anunciou, nesta quinta-feira (20), uma nova linha de blocos adaptados para crianças com deficiência visual."As peças foram fabricadas de forma que os blocos de ajuste (e outras peças) contenham as letras e números individuais do alfabeto braille, mantendo-se compatíveis com o sistema Lego", explicou o grupo em um comunicado.O objetivo é incentivar as crianças com deficiência visual a explorar novas formas de aprender, além de ler e escrever. Esses novos blocos, nas mesmas cores que os habituais, poderão ser utilizados sem problemas por outras crianças.

Confira também:

Brasil, Dinamarca, França, Alemanha, Noruega, Reino Unido e Estados Unidos são os primeiros sete países a receber o lançamento desta nova linha de kits de montagem. Depois, a linha chegará em outros 20 países até o início de 2021.

O Lego destinou 25% de seus lucros em 2019 a uma fundação que financia projetos para ajudar crianças em situação de dificuldade.

Fonte: f5.folha.uol.com.br