sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Há, no mundo, quase 240 milhões de crianças com deficiência, revela análise mais abrangente já realizada pelo UNICEF

Novo relatório do UNICEF expõe a profundidade da privação vivida por uma em cada dez crianças com deficiência em todo o mundo em vários indicadores de bem-estar, incluindo saúde, educação e proteção

unicef.org

Jorge (à direita), que tem síndrome de Down, frequenta a escola pública em San Miguelito, Cidade do Panamá, onde a educação inclusiva é obrigatória, permitindo que crianças com e sem deficiência estudem juntas em um ambiente de aprendizagem compartilhado / UNICEF/UN0425663/Sokol

Nova Iorque, 10 de novembro de 2021 – O número de crianças com deficiência em todo o mundo é estimado em quase 240 milhões, de acordo com um novo relatório do UNICEF. Crianças com deficiência estão em desvantagem em comparação com crianças sem deficiência na maioria das medidas de bem-estar infantil, diz o relatório.

"Esta nova pesquisa confirma o que já sabíamos: as crianças com deficiência enfrentam desafios múltiplos e muitas vezes complexos na realização de seus direitos", disse a diretora executiva do UNICEF, Henrietta Fore. "Do acesso à educação à leitura em casa, as crianças com deficiência têm menos probabilidade de ser incluídas ou ouvidas em quase todas as medidas. Com muita frequência, as crianças com deficiência são simplesmente sendo deixadas para trás".

O relatório inclui dados comparáveis internacionalmente de 42 países e cobre mais de 60 indicadores de bem-estar infantil – de nutrição e saúde a acesso a água e saneamento, proteção contra violência e exploração, e educação. Esses indicadores são desagregados por tipo de dificuldade funcional e gravidade, sexo da criança, situação econômica e país em que vive. O relatório deixa claras as barreiras que as crianças com deficiência enfrentam para participar plenamente em suas sociedades e como isso geralmente se traduz em resultados sociais e de saúde negativos.

Em comparação com crianças sem deficiência, crianças com deficiência têm:

  • 24% menos probabilidade de receber estimulação precoce e cuidados responsivos;
  • 42% menos probabilidade de ter habilidades básicas de leitura e numeramento;
  • 25% mais probabilidade de sofrer de desnutrição aguda e 34% mais probabilidade de sofrer de desnutrição crônica;
  • 53% mais probabilidade de apresentar sintomas de infecção respiratória aguda;
  • 49% mais probabilidade de nunca ter frequentado a escola;
  • 47% mais probabilidade de estar fora do ensino fundamental I, 33% mais probabilidade de estar fora do ensino fundamental II e 27% mais probabilidade de estar fora do ensino médio;
  • 51% mais probabilidade de se sentir infelizes;
  • 41% mais probabilidade de se sentir discriminadas;
  • 32% mais probabilidade de sofrer castigos corporais severos.

No entanto, a experiência da deficiência varia muito. A análise demonstra que existe um espectro de riscos e resultados dependendo do tipo de deficiência, onde a criança mora e quais serviços ela pode acessar. Isso destaca a importância de projetar soluções direcionadas para lidar com as desigualdades.

O acesso à educação é um dos vários assuntos examinados no relatório. Apesar do amplo consenso sobre a importância da educação, as crianças com deficiência ainda estão ficando para trás. O relatório constatou que crianças com dificuldade de comunicação e de cuidar de si mesmas são as que têm maior probabilidade de estar fora da escola, independentemente do nível de escolaridade. As taxas de crianças e adolescentes fora da escola são mais altas entre crianças com deficiências múltiplas e as disparidades tornam-se ainda mais significativas quando a gravidade da deficiência é levada em consideração.

"A educação inclusiva não pode ser considerada um luxo. Por muito tempo, as crianças com deficiência foram excluídas da sociedade de uma forma que nenhuma criança deveria ser. Minha experiência de vida como mulher com deficiência apoia essa afirmação", diz Maria Alexandrova, 20 anos, uma jovem defensora da educação inclusiva do UNICEF na Bulgária. "Nenhuma criança, especialmente as mais vulneráveis, deveria ter que lutar sozinha por seus direitos humanos básicos. Precisamos de governos, partes interessadas e ONGs para garantir que as crianças com deficiência tenham acesso igual e inclusivo à educação".

O UNICEF trabalha com parceiros em nível global e local para ajudar a realizar os direitos das crianças com deficiência. Todas as crianças, incluindo aquelas com deficiência, devem ter uma palavra a dizer nas questões que afetam sua vida e ter a oportunidade de realizar seu potencial e reivindicar seus direitos. O UNICEF está pedindo aos governos para:

  • Proporcionar oportunidades iguais às crianças com deficiência. Os governos devem trabalhar junto com as pessoas com deficiência para eliminar as barreiras físicas, de comunicação e de atitude que as mantêm fora da sociedade e garantir o registro de nascimento; serviços inclusivos de saúde, nutrição e água; educação equitativa; e acesso a tecnologias assistivas. Eles também devem trabalhar para erradicar o estigma e a discriminação nas comunidades.
  • Consultar pessoas com deficiência e considerar toda a gama de deficiências, bem como as necessidades específicas das crianças e suas famílias, ao fornecer serviços inclusivos e educação de qualidade equitativa. Isso inclui políticas de cuidado responsivo e favoráveis à família, saúde mental e apoio psicossocial e proteção contra abuso e negligência.

A análise visa aumentar a inclusão de um em cada dez crianças e jovens com deficiência em todo o mundo, garantindo que sejam contados, consultados e considerados na tomada de decisões.

A nova estimativa global para o número de crianças com deficiência é maior do que as estimativas anteriores e se baseia em uma compreensão mais significativa e inclusiva das deficiências, que considera as dificuldades em vários domínios da funcionalidade, bem como os sintomas de ansiedade e depressão.

"A exclusão costuma ser consequência da invisibilidade", disse Fore. "Há muito tempo não temos dados confiáveis sobre o número de crianças com deficiência. Quando deixamos de contar, considerar e consultar essas crianças, não estamos ajudando-as a atingir seu vasto potencial".

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Inclusão como premissa

Mineiras criam marca para valorizar trabalho de portadores de necessidades especiais

Isabela Teixeira da Costa para o Estado de Minas

As amigas Anna Paula Costa e Cynthia Jaber tinham um sonho de abrir um negócio juntas, que de certa forma unisse a expertise das duas. Ana Paula é educadora, e Cynthia, representante têxtil. Depois de anos conversando, a ideia só surgiu em outubro de 2020, em meio à pandemia. Criar uma marca que usasse como matéria-prima a arte de pessoas especiais. Assim nasceu a Pim Estilo. Em 45 dias tudo estava pronto e no lançamento toda a coleção se esgotou. Um ano depois, a dupla lança a terceira coleção e o desafio é encontrar novos artistas.

A intenção de abrir um negócio juntas já existia. Em setembro de 2020, a primeira ideia era abrir uma empresa que trabalhasse com tecido de qualidade e preço acessível (expertise de Cynthia). Anna Paula, mulher de muita personalidade, sempre foi muito decidida, com estilo bem definido e muito determinada, e como compradora sempre soube o que queria. Anna Paula é psicóloga e pedagoga, começou como professora na educação infantil, no Pitágoras, e chegou ao cargo de diretora. É autora de inúmeros livros e capacitou centenas de milhares de professores em todo do país. Desde criança, sempre teve muito contato com crianças com síndrome de Down porque sua avó trabalhou com Helena Antipoff, e foi a primeira pedagoga formada no Brasil, e montou em Belo Horizonte o Instituto de Reeducação Santa Terezinha, para trabalhar com os portadores da síndrome de Down, “e todos os sábados tinha apresentação das crianças para seus pais e nós íamos. Desde pequena convivo com essas crianças. Elas são muito amorosas, algumas mais agressivas, mas me acostumei e convívio muito bem com elas desde os meus 4 anos. Quando Cynthia veio com a ideia sabíamos que queríamos uma moda de qualidade, diferente, mas ainda não sabíamos o que era”.

Leia a matéria completa em o Estado de Minas

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Autismo severo é desafio para famílias

Lidar com pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em grau avançado requer suporte profissional para melhor qualidade de vida dos autistas e suas famílias

abcdoabc.com.br

Desafios com habilidades sociais, comportamentos repetitivos e comunicação por vezes não verbal. Esses são alguns dos ponto

s que caracterizam o Transtorno do Espectro Autista (TEA), que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), afeta uma em cada 160 crianças no mundo, trazendo desafios para as famílias que, em muitos casos, precisam do apoio profissional. Em Betim, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, existe uma instituição que é referência nos cuidados a indivíduos adultos com a condição, o Centro Especializado Nossa Senhora D’ Assumpção, conhecido popularmente como CENSA Betim, que atua há 57 anos recebe pessoas de todo o país.

De acordo com a psicóloga e diretora da instituição, Natália Costa, o primeiro passo para que as famílias possam lidar com o indivíduo com TEA é entender as suas especificidades. “Muitas pessoas não sabem, mas o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que pode ser identificado na infância para iniciar a estimulação precoce para ajudar o desenvolvimento do individuo. A situação afeta a comunicação e pode comprometer até mesmo a capacidade da criança de aprendizado, além da sua adaptação a ambientes e situações diferentes daquelas que está habituada”, explica.

Segundo Natália Costa, as causas são multifatoriais, sendo mais importante o diagnóstico funcional do que o etiológico. “Alguns estudos consideravam o transtorno como resultado de dinâmica familiar problemática e de condições de ordem psicológica alteradas, mas isso foi uma hipótese que se mostrou totalmente errônea. A tendência atual é admitir que existem múltiplas causas para o autismo, entre eles eu cito os fatores genéticos, biológicos e os ambientais. O diagnóstico pode trazer sofrimento para a família, principalmente se ele não vier acompanhado de um apoio, informações e orientações acerca do que é o TEA e quais características a criança apresenta em maior ou menor grau. Lembro ainda, que é necessário verificar se há prejuízo ou não para as características apresentadas e por fim, estabelecer as linhas de intervenção, bem como a composição da equipe multiprofissional que vai atuar no caso”, completa.

Para que seja determinado o grau de TEA, algumas características são observadas. Pessoas com autismo leve (grau 1), se mostram mais autônomas nos diversos contextos do dia a dia, alcançando independência. Geralmente compreendem e cumprem regras e rotinas de casa com autonomia, vão driblando as dificuldades, estudam, trabalham e podem constituir família. Já os indivíduos com autismo moderado (grau 2), demandam mais apoio para se socializar, pois tendem a apresentar pouca iniciativa para interagir. Já no autismo severo (grau 3), os indivíduos apresentam dificuldades mais acentuadas e maiores comprometimentos, tendo iniciativa muito limitada e grande dificuldade para conversar e expressar o que desejam. Nesses casos a comunicação é mínima e pode haver comprometimento da fala e para expressar, precisando da ajuda de um mediador. È comum que o autismo venha acompanhado de deficiência intelectual e epilepsia. Nessas situações, o quadro clínico é mais desafiador.

Mesmo assim, Natália Costa salienta que o autismo não é uma condição inalterável, sendo totalmente possível que uma pessoa avance em relação ao estágio inicial. Assim, elas podem sair do grau grave para o moderado ou até passar a apresentar traços levíssimos, que é chamado de 'caminhar no espectro'. “O avanço vai depender da intervenção e dos estímulos que a pessoa receber. O avanço só se dará se a frequência, a intensidade e qualidade desses estímulos forem adequadas, além da faixa etária em que começarem a ser introduzidos e da articulação entre os contextos. Ou seja, quanto mais cedo a estimulação precoce, principalmente nos primeiros anos da infância, quando o cérebro está aberto a mudanças, mais possibilidades a pessoa tem de se desenvolver”, completa a psicóloga.

Independente do grau de autismo da pessoa, a intervenção para a busca de melhores resultados se torna indispensável, mas, Natália Costa lembra que as pessoas que estão no grau 3, associado a deficiência mental e intelectual, precisam ainda mais. “Estes indivíduos precisam de suporte profissional, porque geralmente são dependentes, principalmente para realizar as atividades da vida diária, como ir sozinho ao banheiro, alimentar-se e higienizar-se. Elas precisam de apoio para a maior parte das tarefas, até porque, costumam se isolar”, salienta.

Para a diretora do CENSA Betim, o suporte se estende, também, para as famílias, que muitas vezes têm dúvidas de como lidar. “Além do acompanhamento profissional, como o que fazemos, é importante a participação dos pais nos cuidados e na interação cotidiana com esses indivíduos, de maneira que promovam habilidades de relação social, administrem problemas de comportamento e ensinem atividades de vida diária e comunicação. No caso da comunicação, o fonoaudiólogo é indicado para melhorar as habilidades de fala, a terapia ocupacional e a pedagogia para promover melhores práticas de ensino-aprendizagem, a psicologia para aumentar o repertório de comportamentos socialmente habilidosos e a fisioterapia para melhorar as questões motoras e de equilíbrio. Um exemplo é o nosso trabalho aqui no CENSA, que é desenvolvido por uma equipe transdisciplinar, que visa atuar em todos os aspectos necessários para o acompanhamento e desenvolvimento do educando, o que, consequentemente, reverbera em melhora da qualidade de vida para ele e sua família”, conclui Natália Costa.

Fonte: CENSA Betim

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Uso do lúdico na educação especial na busca de integração: formação do aluno com necessidades especiais no ensino regular

 Jucelene Kade  para o Jornal Tribuna

Brincar é tão importante para o desenvolvimento ideal da criança que foi reconhecido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos como um direito de todas as crianças. Este direito de nascença é desafiado por forças que incluem o trabalho infantil e práticas de exploração, guerra e violência na vizinhança, e o recursos limitados disponíveis para crianças que vivem na pobreza.

Neste sentido, é possível perceber que, ainda, embora muito necessários, pouco se faz uso do recurso do lúdico na formação de crianças (especiais e comuns) dentro do processo de ensino-aprendizado integrativo e regular no Brasil. Dentro desta visão, este artigo busca elencar a importância da atividade lúdica, através dos jogos, dentro da Educação Especial e Inclusiva. Como metodologia, utilizou-se uma revisão narrativo-exploratório.

Já como conclusão, notou-se que a ludicidade está ligada ao desenvolvimento motor bem como desenvolvimento social da criança, especial ou não, melhorando, sobretudo, o aprendizado e a atenção, o que acaba por propiciar maiores resultados no processo de ensino-aprendizagem integrado.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Inclusão na Educação Infantil: 5 dicas para realizar um bom trabalho

Os professores dessa etapa têm um papel essencial na luta por um ensino inclusivo que valorize as potencialidades de todas as crianças. Confira algumas sugestões de práticas e ações efetivas

Por Paula Sestari para o novaescola.org.br

Escolas, famílias e a sociedade no geral têm, cada vez mais, lutado contra os retrocessos no que diz respeito à Educação inclusiva. Nessa perspectiva, quando uma criança chega a uma instituição de Educação Infantil e amplia seu convívio social, geralmente o professor é o primeiro a identificar eventuais questões, como algum atraso no desenvolvimento da forma como a criança interage, se movimenta e se relaciona com o mundo.

Trata-se de indicativos iniciais de que serão necessárias algumas mobilizações, e o nosso papel, então, é primeiramente compartilhar essas observações com os familiares, sem, porém, fazer apontamentos ou juízo das possíveis causas. Essa conversa, posteriormente, pode levar à solicitação do apoio de outros profissionais, e a um acompanhamento mais específico. Aí então, se inicia um processo que quanto mais ágil, melhor: a criança receberá um tratamento de acordo com suas necessidades, e em paralelo, dará continuidade às suas atividades escolares.

Tendo esse cenário em mente, é importante relembrarmos que a nossa função, na escola da infância, é garantir os direitos de aprendizagem para todas as crianças, organizando contextos educativos significativos para que meninos e meninas aprendam por meio das interações e brincadeiras de qualidade. Por isso, na coluna de hoje, quero compartilhar alguns pontos importantes para pensarmos no planejamento de trabalho com as crianças quando, entre elas, temos alguma com deficiência, com ou sem laudo médico definido.

  1. Diálogo aberto com as famílias

É importante ter em mente que pais e responsáveis passam por três etapas de amadurecimento. Primeiro vem a negação, momento em que tendem a questionar a conduta da escola ao identificar as questões ligadas a possíveis deficiências, alegando padrões muito rígidos, ou mesmo mencionando rótulos socialmente construídos em torno dessas deficiências que os deixam apavorados.

Depois disso, vem a fase de adaptação, em que a rotina em casa precisa ser adequada para o bem-estar da criança, como a forma de lidar com crises, cardápio, organização do espaço, rotina com terapias e consultas e até a inserção de medicamentos. Por fim, na fase de aceitação, vem o encontro mais realista com a deficiência, a busca por mais informações, a troca de experiências com as pessoas que convivem com a criança, e a tendência em ampliar um comportamento superprotetor, algo que inclusive os pais esperam de nós.

Por isso, é importante que eles entendam qual o papel da escola. Certa vez, uma mãe trouxe o relato de algumas atividades da terapia particular com uma pedagoga e falou: “mas aqui no público vocês não fazem, né?”. Então respondi elencando a variedade de vivências que são propostas na escola, ampliando a socialização, a convivência, as interações, tudo com uma diversidade de elementos e recursos. Ali, a mãe entendeu que nossa abordagem é globalizada e que as terapias cumprem o papel das especificidades, ambas se complementando.

  1. Acessibilidade e adequação

A inclusão começa nas ações e na postura da equipe da instituição. A escola  deve oferecer condições de acessibilidade para todos, e o acesso a espaços e materiais deve promover a ação independente de todas as crianças, de acordo com a faixa etária. Inclusive, em relação aos materiais, é importante adequá-los ainda na fase de organização, levando em consideração como a criança participou nas vivências anteriores ou nos conhecimentos que você já possui sobre ela, de modo a eliminar as barreiras que comprometam seu protagonismo e independência.

Além disso, é válido manter-se por perto e se mostrar disponível caso solicite ajuda, mas jamais faça por ela ou diminua suas conquistas colocando em comparação com o que as demais realizaram – e utilize-se das observações desses momentos para fazer novas adequações.

  1. Altas expectativas para todas as crianças

Nas vivências que for desenvolver, mantenha altas as expectativas para todas as crianças. O fato de simplificar, facilitar ou mesmo a condução direta faz com que a criança com deficiência perca boas oportunidades de superação, colocando-a numa posição de favorecimento negativo e de inferioridade em relação às demais.

Nessa linha, promova situações diferenciadas contemplando os campos de experiência e as múltiplas linguagens. Como sabemos, os campos de experiência se inter-relacionam, sendo colocados em evidência a cada momento de acordo com a intencionalidade do professor. Isso favorece para que possamos identificar os interesses e necessidades de cada uma das crianças, consolidando práticas de qualidade que envolvam todos os pequenos.

  1. Mediação afetiva e diálogo em prol da diversidade

Dedique-se a conhecer e reconhecer a criança para além da deficiência, por exemplo, entendendo sobre sua rotina, brinquedos e brincadeiras favoritas, o que a deixa feliz e a deixa triste, preferências, enfim, é importante esse interesse pela criança de maneira global. Algumas deficiências tendem a fazer com que o pequeno tenha iniciativas mais individualizadas, e é a mediação afetiva do professor que vai olhar para tais questões, de modo a apoiar a criança na ampliação de seu repertório e a arriscar-se em novas possibilidades.

É essencial também que o educador, a partir dessas demandas, busque construir um espaço solidário e acolhedor, já que dessa forma as demais crianças tendem a incorporar esses movimentos. Esteja sempre disponível para o diálogo com os outros pequenos da turma quando as dúvidas surgirem, de modo a compreenderem a deficiência e, mais do que isso, fazendo-os valorizar a diversidade cada vez mais. Trata-se de uma oportunidade muito rica para o educador integrar, acolher, diversificar os arranjos, e propor situações para a multiplicidade de interações, visando consolidar a inclusão e a participação de todos no cotidiano da escola.

  1. Pontos de atenção no planejamento e no registro

Organize no seu planejamento, estratégias para a convivência com o monitor/ professor auxiliar, pois esse profissional pode apoiá-lo na adequação de materiais, na forma como esta criança interage com seus pares e recursos disponíveis, e ajudar na locomoção, higiene e alimentação se necessário.

Além disso, invista no registro sistemático e organizado, já que dele pode resultar a criação de indicativos de como ampliar as oportunidades de vivências e boas experiências para toda a turma. Por fim, ao dividir os registros avaliativos com as famílias, dedique-se a compartilhar os avanços da criança com deficiência, as situações desafiadoras que foram exitosas, e as potencialidades para o futuro.

Para além dessas dicas, ressalto que nós educadores devemos sempre eliminar os termos capacitistas, seletivos e limitadores. Por vezes ouvimos coisas como: "eu tenho dez crianças e um PcD”, “todos se envolveram, menos a criança autista”. São colocações que denotam uma diferenciação entre as crianças exclusivamente por conta da deficiência, algo que segrega e tem consequências na interação entre elas.

Dessa forma, caros professores e professoras, não podemos perder de vista que os desafios com relação à inclusão só são devidamente superados por meio de práticas que reforcem a nossa concepção de toda criança como um ser capaz e potente em suas individualidades.

Paula Sestari é professora de Educação Infantil da rede municipal de ensino de Joinville (SC), com 10 anos de experiência nessa etapa, e mestre em Ensino de Ciências, Matemática e Tecnologias. Em 2014, recebeu o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, e foi eleita Educadora do Ano com um projeto na área de Educação Ambiental com a faixa etária das crianças pequenas.