quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

"Um lugar para todo mundo" discute barreiras no acesso à educação inclusiva

Documentário apresenta a trajetória de um casal decidido a garantir que seu filho com síndrome de Down exerça o direito de estar (e permanecer) na escola

Beatriz Gatti para o revistagalileu.globo.com

Emilio, filho de Olivier e Hilda, passa por diversas avaliações antes de ser recomendado a uma escola (Foto: Divulgação)

Enquanto para alguns pais o início da vida escolar de seus filhos é apenas uma experiência de desprendimento, para Olivier e Hilda Bernier esse processo é muito mais complexo. Por ter síndrome de Down, o filho do casal, Emilio, enfrenta um longo caminho até que consiga ter seu primeiro dia de aula, aos 3 anos. E é em torno dessa luta que gira o documentário Um Lugar para Todo Mundo, cujo lançamento acontece às 23h59 desta segunda-feira (20), no canal a cabo GNT.

Apesar de já ter trabalhado com adolescentes com deficiência como professora de educação especial no ensino médio, a porto-riquenha Hilda Bernier não tinha dimensão da importância de um ensino inclusivo até dar à luz e planejar a ida de Emilio à escola em Nova York, nos Estados Unidos, onde a família vive.

Logo após o parto, no dia 3 de maio de 2016, o médico informou o casal de que o recém-nascido apresentava algumas características físicas que poderiam estar associadas à trissomia do cromossomo 21, também conhecida como síndrome de Down. E de fato estavam.

“Eu acho que essa é a grande mágica do filme: a gente assiste e vai percebendo as coisas no mesmo momento em que ele [Olivier], enquanto cineasta e pai, também está descobrindo”, comenta Marcos Nisti, um dos produtores do filme, em entrevista a GALILEU.

“Um Lugar para Todo Mundo”: filme discute barreiras no acesso à educação inclusiva (Foto: Divulgação)

Fruto da parceria entre as produtoras Rota6 e Maria Farinha Filmes, o documentário — dirigido pelo próprio Olivier — acompanha a trajetória do casal do nascimento de Emilio até o momento de mandá-lo para a escola.

Mas não é tão simples quanto pode parecer. Embora o acesso à educação seja direito de toda e qualquer criança, cerca de metade dos mais de 100 milhões de meninos e meninas com deficiência no mundo não frequenta uma instituição de ensino, segundo estima a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na cidade de Nova York, por exemplo, é preciso que o departamento de educação tenha criado um Programa de Educação Individualizado (PEI) para a criança. No filme, Emilio é submetido a uma série de testes e avaliações que têm como objetivo definir seu PEI e, então, recomendar em qual estilo de turma ele mais se adequa — uma classe somente com colegas com deficiência e auxiliares ou uma turma que de fato o inclua.

“É um modelo altamente excludente”, afirma a diretora de educação e cultura da infância do Instituto Alana, Raquel Franzim, sobre o que viu no filme. “Sendo a educação um direito humano, não deve haver condições para acessá-lo. A escola é um lugar de oportunidade, e não de capacidade”, argumenta a GALILEU.

Foi justamente no sentido de promover o desenvolvimento integral da criança que o Instituto Alana organizou a edição de 2018 do Videocamp Film Fund, pensado para financiar produções com impacto social no tema da educação inclusiva e selecionou a proposta de Um Lugar para Todo Mundo.

O documentário mostra que esse “lugar para todo mundo” não é utópico nem irrealizável: ele funciona muito bem em escolas públicas inclusivas em outros estados norte-americanos. Turmas regulares formadas por alunos com e sem deficiência são um sinal de benefícios para a instituição como um todo, que oferece professores mais bem preparados e melhores recursos e infraestrutura escolar.

Leia a matéria completa em revistagalileu.globo.com

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Mães de crianças com deficiência abrem empresas e aumentam renda familiar

 Rodolfo Luis Kowalski para o bemparana.com.br

 
Claudirene França e o trabalho na sua loja de doces e bolos artesanais, O Mundo Doce da Clau (Foto: Franklin de Freitas)

Quando teve seu primeiro filho, chamado Emanoel, Claudirene França não podia imaginar o quanto sua vida mudaria.

Nos primeiros anos tudo correu normalmente. O menino, conta a mãe, apresentava alguma dificuldade quando saía de casa, mas os pais, que moravam no interior do Paraná (e hoje moram em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba), achavam que esse ‘estranhamento’ se devia ao fato do rapaz não ter muito contato com outras crianças. Foi quando decidiram ter mais um filho, para que Emanoel pudesse ter uma companhia.

Durante as consultas com a ginecologista antes do nascimento de Márcia, a nova criança, porém, a médica começou a perceber que o menino tinha algo de diferente. E quando ele tinha de seis para sete anos, finalmente foi diagnosticado com autismo. Uma notícia que, num primeiro momento, foi um choque.

“Quando ele foi pra escola começou a ter dificuldade de aprender, começou a ser estereotipado na sala de aula. Ele ficava de costas pros alunos na sala, não queria fazer educação física, depois começou a não querer ir pra escola e a se machucar”, recorda ela. “Com o laudo, tudo mudou. Fiquei com muito medo, porque [antes] achava que era só dificuldade, que uma hora tudo passaria.. Mas eu nem sabia o que era autismo, não conhecia. Não sabia de nada, nada”.

Para poder ajudar o filho, ela tomou uma decisão que muitas mães acabam tendo de tomar para cuidar de filhos com deficiência e acompanhá-los nas consultas médicas. Dessa forma, precisou parar de trabalhar fora de casa, uma decisão que, inevitavelmente, impactou na renda familiar e, para ajudar o marido, que vinha se desdobrando para dar conta das despesas, ela teve uma ideia.

“Quando parei de trabalhar fora de casa, pensei em fazer algo e sempre gostei de fazer bolo de chocolate, cenoura, e sempre fui elogiada. Aí teve uma Páscoa, ainda estava grávida da Márcia [segunda filha de Claudirene] e vendi bastante. Gostei de trabalhar, conversar com as pessoas, ganhar meu dinheiro”, conta a mãe.

Recomeço e novos sonhos — O sonho de Claudirere sempre foi pagar um tratamento alternativo pra o filho, mas a situação financeira fazia tudo parecer muito distante. Até que, em 2020, ela teve a oportunidade de participar do Programa Empreenda, uma iniciativa social e gratuita que empodera pessoas com deficiência e suas famílias, incentivando a autonomia e promovendo o desenvolvimento por meio do empreendedorismo gastronômico.

Com a capacitação, ofertada pela ASID Brasil em parceria com a Risotolândia, novas portas se abriram. Nascia “O Mundo Doce da Clau” (@omundodocedaclau), que vende doces e bolos artesanais, além de outros quitutes. Um negócio que deu tão certo que a família já cogita abrir uma loja física daqui algum tempo. Não bastasse, a nova rotina ainda tem ajudado o jovem Emanoel, atualmente com 11 anos, a evoluir ainda mais.

“O Emanoel me ajuda bastante. Faz entregas no condomínio, recepciona os clientes. Está conversando mais com as pessoas, me ajuda a vender. Ele se animou também, vejo que ele, até pelo curso, ele fala que era para nós. Vestiu a camisa mesmo, me ajuda a organizar a casa, tirar lixo, guardar a louça. Eu nem preciso pedir. Ele está desenvolvendo muito isso, de empatia, ver as necessidades das pessoas”, comemora Claudirene.

‘Antes de falar de venda, falamos sobre elas se conhecerem’
Coordenadora de projetos da ASID Brasil, Caroline Ferronato conta que o Programa Empreenda nasceu em 2019, após um estudo mostrar que nas famílias com deficiência é muito comum algum familiar deixar de atuar no mercado de trabalho para se dedicar a essa pessoa com necessidades especiais - o que acontece principalmente com as mães, que tem de levar o filho no médico, na escola e ainda dar uma atenção especial em casa, o que muitas vezes acaba sendo incompatível com a rotina que o mercado de trabalho exige.

“Ela larga o emprego, foca no filho e fica dependendo de benefícios do governo, da ajuda de familiares”, explica Ferronato. “O programa é uma oportunidade para essa família gerar renda, ter mais autonomia, empoderamento. Inclusive, a primeira coisa que fazemos no curso é atuar com psicólogos, trabalhar a questão de autoconhecimento mesmo. Antes de falar de venda, negociação, falamos sobre elas se conhecerem”, explica.

Via de regra, quando começam a participar do programa as mães são muito tímidas, reservadas.

Quando questionadas sobre o que são ou o que querem, por exemplo, sempre colocam os filhos na frente delas próprias, não conseguem apresentar quem realmente são. “No final do projeto, já falam o que gostam, o que fazem. Outro grande ponto é o desenvolvimento do negócio delas. Todas as mães tiveram um aumento de renda, começaram a ter acesso a bens materiais e não raro envolvem os filhos no negócio, que apresentam grande desenvolvimento intelectual, evolução do potencial”, conta a coordenadora da ASID Brasil, revelando que cerca de 40 mães já foram formadas e abriram seus negócios com o apoio do Programa Empreenda.

Compartilhando experiência e garantindo o desenvolvimento
No Programa Empreenda, a ASID Brasil é responsável pela capacitação das famílias na parte de empreendedorismo. Já o grupo Risotolândia, sediado em Araucária, ajuda na parte gastronômica, oferecendo o expertise de quem já atua há mais de 65 anos no ramo gastronômico.

“Nós temos módulos aplicados pelos nossos nutricionistas, que ensinam boas práticas de manipulação, técnicas de gastronomia. É uma questão de compartilhar o conhecimento”, afirma Kamille Dantas, gerente de RH do Grupo Risotolândia, explicando ainda porque o foco do programa, por ora, é em Araucária e no CIC, em Curitiba.

“A nossa matriz está aqui em Araucária, estamos próximos também da região do CIC, e é uma forma de devolução pra sociedade. Estamos aqui, fazemos parte desse município, somos um dos maiores empregadores dessa região, queremos contribuir”, diz, convocando ainda outros empresários e empresas a seguir esse exemplo. “Existem outras organizações com expertises diferentes e que podem contribuir. Queremos que esse exemplo possa ser replicado. Existem tantas possibilidades de negócios para fazer uma sociedade girar de forma diferente com um olhar para a inclusão.”

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Projeto ensina arte para jovens com Síndrome de Down de forma inclusiva

"Arte de Incluir" é uma iniciativa da ONG Associação Fortaleza Down que abrange diversos campos artísticos de jovens com e sem síndrome de Down; projeto está em atividade desde setembro

Pedro Igor/Especial para O POVO

Projeto fará parte do espetáculo "All Together Now", que teve apresentações nos dias 12, 13 e 14 de novembro(foto: Rob Simmons/Unsplash)

Uma iniciativa social em Fortaleza promove, desde setembro, um projeto para inclusão de jovens com síndrome de Down por meio da arte. O projeto “Arte de Incluir" é uma realização da ONG Associação Fortaleza Down, que conta com uma extensa programação de oficinas em artes plásticas, teatro, dança, fotografia e canto, entre outras expressões artísticas.

Com aulas práticas e teóricas, o projeto se utiliza de uma metodologia inclusiva para participação de jovens com e sem síndrome de Down. Também como parte do projeto serão realizados dois festivais de arte inclusiva, em novembro deste ano, com um espetáculo de palco, e em março do ano que vem.

Com slogan “Queremos ser felizes com música e arte!”, o projeto “Arte de Incluir” busca desenvolver o talento e as habilidades artísticas dos alunos participantes. As atividades começaram semanalmente em setembro e devem seguir até março do ano que vem Participam do projeto alunos com e sem síndrome de Down, a partir dos 15 anos. O objetivo é promover a socialização e a inclusão de todos.

Por meio de uma parceria com a escola de artes The Biz, a Associação Fortaleza Down conseguiu que o “Arte de Incluir” integrasse o espetáculo internacional "All Together Now", uma realização da Music Theatre International (MTI). A escola The Biz é associada ao MTI e é onde acontecem os cursos e oficinas do “Arte de Incluir”. A atividade é uma montagem de palco conjunta e inclusiva. 

60 alunos participam do evento, sendo 28 deles com síndrome de Down. “É um momento único para eles, porque além de estarem entrando em contato com a arte, eles estão se ressocializando", comenta Alessandra Costa, vice-presidente da Associação Fortaleza Down. Costa destaca também que pessoas com síndrome de Down fazem parte do grupo de risco, o que dificulta sua socialização no atual contexto de retomada das atividades.

O projeto também iniciará sua segunda fase em dezembro deste ano, quando deve ser realizada uma exposição fotográfica com trabalhos originais dos participantes das oficinas. Também um segundo festival deve ser realizado em março. A previsão é que o evento aconteça no dia 21 de Março, Dia Internacional da Síndrome de Down, de acordo com a vice-presidente da associação.

Com este projeto, Alessandra também destaca o desafio no nascimento de uma criança especial: “A partir dali, também nascem dúvidas, desafios, medos e várias outras necessidades. É aí que também vem o desejo de se unir a outras pessoas, que compartilham dos mesmos sentimentos. A troca de experiências e a ajuda mútua são de extrema importância”.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Criança com deficiência não atrapalha, diz Silvia Grecco

 Dérek Bittencourt para o Diário Grande ABC

Inclusão não é apenas uma palavra no vocabulário, mas uma das missões de vida da secretária da Pessoa com Deficiência da prefeitura de São Paulo, Silvia Grecco, que participou ontem à noite da live do Diário ao lado do filho Nickollas, que é deficiente visual e tem autismo. A dupla de torcedores do Palmeiras ganhou projeção internacional justamente porque a mãe fazia questão de incluir o filho no ambiente como um estádio de futebol ao narrar o jogo para ele, em situação que deve se estender do lazer a todos os outros segmentos, como saúde, trabalho, ensino etc. Assim, ouvir o ministro da Educação, Milton Ribeiro, declarar que é contra o “inclusivismo” nas escolas, chateia a mauaense, hoje moradora de Santo André – cidade na qual foi a primeira secretária de Pessoa com Deficiência, em 2020, antes de receber convite e seguir à Capital.

“Sou totalmente a favor da educação inclusiva. Lutamos tanto para conquistar direitos e hoje temos de lutar para conquistar mais direitos e para não perder o que conquistamos. Educação é primordial. Educação inclusiva não é só questão pedagógica. É questão de socialização também e faz diferença na vida de todos. Criança com deficiência na escola não atrapalha ninguém, quem atrapalha são pessoas que têm essa mentalidade e não deveriam estar à frente do ministério (referindo-se a Milton Ribeiro). Enxergo assim e fico triste quando ouço. Não é uma questão político-partidária, mas de ver como mãe esse retrocesso, que não é bom de maneira nenhuma”, bradou Silvia Grecco.

A secretária da Capital ainda recordou história vivida por ela e pelo filho que comprova sua teoria sobre inclusão no ambiente escolar. “O Nickollas, quando pequeno, estudava numa escola infantil em Santo André, de 3 para 4 anos. Na entrada uma mãe me procurou, extremamente emocionada, dizendo que o filho chegou em casa e na hora do jantar apagou todas as luzes, porque queria ficar no escuro como o Nickollas. Contou que precisou fazer o jantar, que teve dificuldade, que todos comeram no escuro. Então, olha a troca entre as crianças, o aprendizado. Daí começa o respeito. Não temos que pensar só na parte pedagógica que, claro, é importante, mas a escola pode fazer a diferença na vida das crianças com ou sem deficiência. A gente fala pessoa com deficiência porque antes de ter deficiência é uma pessoa. Educação é tudo. Modelos de educação têm que ser seguidos. Onde tem olhar da educação inclusiva, ela funciona”, recordou.

Silvia ainda falou sobre a necessidade de criação de postos de emprego para PCDs (Pessoas com Deficiência), em situação que vá além das chamadas cotas. “É necessário que se tenha oportunidade de trabalho, de educação. Temos de pensar nisso para todos. Quando tem esse olhar de incluir as pessoas com oportunidades iguais, é muito bem-vinda. No Grande ABC, na questão de empregabilidade, normalmente se cumprem cotas. Quando as pessoas forem contratadas por oportunidade, não por obrigação, isso vai mudar, porque daí não está contratando para cumprir cotas. Precisamos dar oportunidades iguais para todas as pessoas. Isso faz muita diferença. Assim como dei oportunidade ao meu filho de ir aos jogos. Tem mudado muito, temos tido conquistas boas, mas é pouco perto do que a gente poderia ter.”

Outro ponto que foi ressaltado pela secretária da Pessoa com Deficiência durante a entrevista foi com relação à acessibilidade, que, segundo ela, vai muito além da mobilidade. “Quando se fala em pessoa com deficiência ou acessibilidade, a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas é a acessibilidade arquitetônica. Isso é desafio muito difícil. Nos prédios novos é garantido por lei que se tenha acessibilidade, mas existem muitas construções antigas que preferem, por exemplo, ter calçada com muito mais grama do que uma passagem para uma pessoa cega ou cadeirante trafegar. Então, precisa de conscientização cultural também das pessoas para que quando possam fazer, não apenas uma responsabilidade do poder público, mas de todos. Acho muito difícil solução 100%, mas têm que ser feitas, por exemplo, rotas acessíveis, planejar edificações com acessibilidade. Além disso, acessibilidade não é só arquitetônica, mas na atitude, na comunicação. Por exemplo, chega perto de pessoa cega, a primeira coisa a fazer é se identificar. As pessoas precisam conhecer as atitudes de acessibilidade. Não parar na vaga estabelecida para a pessoa com deficiência, porque aqueles cinco minutinhos atrapalham. E hoje a acessibilidade digital é tão importante quanto a arquitetônica, porque as pessoas têm várias ferramentas que facilitam extremamente para elas, como leitores de tela, handtalk para surdos e muitas outras. O Grande ABC, assim como a cidade de São Paulo, tem muitas barreiras para encarar. Não é fácil. Mas se não tiver vontade pessoal e as pessoas se conscientizarem, não vai acontecer”, ressaltou Silvia Grecco.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Professora de SP inspira aluna cega a seguir sua mesma profissão: ‘Meus alunos têm direito a tudo’

Por Gabriel Pietro para o razoesparaacreditar.com

Há mais de dez anos, a professora Valéria Freitas da Silva Vilanova é responsável por acompanhar alunos com deficiência visual, intelectual, auditiva, entre outras, na escola onde trabalha, em Campinas (SP).

Para ela, educar é uma missão para garantir o aprendizado e a inclusão deste grupo de estudantes. Mais do que isso, ela tem inspirado os alunos, como uma menina que, aos 11 anos, deseja seguir na mesma profissão de Valéria por conta da amizade com a docente.

No Dia do Professor, comemorado no dia 15 de outubro, Valéria, 39 anos, contou ao portal G1 que ensina para 39 crianças com idades entre 6 a 14 anos na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Oziel Alves Pereira, na periferia da cidade paulista.

Para Emilly Raquel Franco, uma de suas alunas, a professora é sua referência em todos os sentidos, inclusive o profissional. Ela se diz “decidida” a seguir a profissão de Valéria, apesar da pouca idade.

Educação especial

Valéria acredita que sua boa atuação na escola funciona a partir do equilíbrio entre as esferas das famílias, da instituição de ensino e das crianças. Ela atende alunos com dificuldades de locomoção, paralisia cerebral e Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para que o aprendizado ocorra, todas essas engrenagens precisam caminhar juntas.

“A educação especial mudou minha vida, me fez vê-la de outra forma. Aprendi com as famílias e professores que já estavam nessa área, mas principalmente com as crianças. É lindo ver como eles têm potencial e são extremamente capazes de avançar, aprender e conquistar. Me fez acreditar ainda mais nessa profissão. Meus alunos têm direito a tudo”, explicou.

A educadora leciona para Emilly há seis anos, e conta estar cada vez impressionada com a altivez da pequena. “Minha carreira ficou completa ao ouvir isso”, destacou Valéria, sobre a vontade da aluna “em ser como ela”.

Para Maria da Cruz Pinheiro Franco Assunção, mãe de Emilly, a menina se desenvolveu muito desde que ingressou na escola, tanto nos estudos quanto nas relações de amizade. “Confio muito no trabalho da Valéria, ela é um anjo que entrou na vida da minha filha. Uma segunda mãe”, apontou.

Desenvolvimento pessoal

O processo de aprendizado de Emilly é acompanhado por Valéria desde o início do ensino fundamental. Nos últimos 6 anos, ela construiu um vínculo especial com a aluna, que agora cursa o 6º ano.

“Ela chegou no primeiro ano marcando presença e reivindicando seu espaço. Acompanhei todo o processo de alfabetização da Emilly e no começo ela não queria usar o braille. Aos poucos fomos ajudando ela com a construção de sua identidade e as adaptações.”

A menina se adaptou com relativa rapidez ao cotidiano escolar, graças em parte à boa relação com os colegas. “Alguns meses depois que chegou na escola, ela contou que onde estudava os colegas não brincavam com ela, que a discriminavam com apelidos pejorativos. E disse que gostava muito de onde estava agora porque tinha amigos que a chamavam de linda. Logo que ela chegou, comecei a chamá-la de ‘Emilinda’ e o apelido pegou entre os colegas”.

Mais do que ser uma professora, Valéria se considera uma “articuladora” que media as relações entre as crianças e seus variados graus de deficiência, criando um senso de grupo na turma.

“O preconceito não vêm com as crianças, muitas vezes é um reflexo dos adultos que estão a sua volta. Quando uma criança vê as outras acolhendo um aluno com deficiência, ela entra nesse movimento”, relatou.